Beijos não bastam

21 ago

“Um beijo para quem é travesti”, escrevem sobre algumas imagens ou sobre o fundo branco e inteiriço das telas de computador.

Eu me pergunto se alguma destas pessoas, de fato, já beijou uma travesti.

Não sei.

E ao não saber, começo a percorrer um caminho mental que me aflige um bocado:

Quem manda estes beijos apresentaria uma travesti à sua família?

Quem manda estes beijos empregaria ou contrataria uma travesti para uma posição profissional compatível com suas qualificações?

Quem manda estes beijos realmente desconstruiu suas visões sobre as diferentes transgeneridades?

E quem não manda beijos, então?

Quando leio sobre estes beijos esparramados em gifs e timelines, tampouco sei se são beijos direcionados (também) a mim: eu sou travesti?

Revejo um pouco da minha vida, certos tormentos, certos dilemas, certos anseios, e em abstrato os coloco ao lado daquilo que vou entendendo, em conversas e percepções, como ‘o conceito de travesti’.

Sou travesti.

Um dos grandes males da colonização europeia (são tantos) está na hierarquização dos saberes gerados por suas instituições (feitas à sua imagem e semelhança) como superiores aos demais. A todos os demais.

A não ser, é claro, que venha, com bolsas de pesquisa e afins, algumx representante seu ‘legitimar’ aqueles saberes. Aí xs peers todxs, fiando-se na ‘objetividade científica’ destx representante, pensarão conhecer este ‘outro saber’, que usualmente é apresentado com títulos de impacto: exótico, abjeto, trans-tecno-ciborgue-pós-algo e quetais.

É preciso vender o peixe, dizem pelos mercados.

E aí, avaliando peixes vendidos (alguns fedem), vou me deparando com uma realidade distinta.

Não sou travesti.

Travesti, dizem algumas destas pessoas representantes, utilizam-se de hormônios para além daqueles produzidos em seu corpo, utilizam-se de silicone industrial para criar formas, gostam de certas partes de seus corpos (ou as mantêm para fins econômicos), são profissionais do sexo.

Não sou travesti: não cumpro com os requisitos apresentados, cientificamente, por estas pessoas.

Ou seria a ‘ciência’ destas pessoas que não cumpriria com meus requisitos?

Nos últimos dias, caminhei um pouco pela Lapa do Rio de Janeiro e, por algumas de suas ruas à madrugada, pude ver algumas travestis. Sentada à minha cadeira de plástico com um copo de cerveja, não pude evitar a reflexão: sou travesti?

Tentei olhar além dos prováveis hormônios, das mais ou menos óbvias intervenções cirúrgicas, do constante dilema alheio sobre genitálias. O que encontrei, para além do complexo entrelaçado de classe, raça-etnia, formação, religião, e outros elementos, foi mais que um desejo comum por certas expressões de gênero: encontrei, ali, a opressão cisgênera.

Opressão que incidia sobre nós em riscos, temores e possibilidades muito distintxs; que gerava, junto aos diferentes entrelaçados, realidades e vivências em muitos sentidos opostas. Mas era o que irmanava a moça negra a aturar um senhor bêbado a lhe oferecer 25 reais e a moça branco-leste-asiática a passear e beber cerveja.

Eu sou travesti. Eu sou uma pessoa transgênera.

Eis que, então, vêm outrxs representantes da instituição acadêmica. Algunxs, contra toda evidência previamente apresentada por suas instituições, até mesmo se intitulam trans*, travestis, enfim. Somos todxs trans*, dizem, ainda que reformulem um tanto o que se quer dizer com ‘trans’ (obviamente, sem evitar, discursivamente, a associação com o ‘trans*’). Mas é engraçado, algumas pessoas trans* são mais trans* que as outras quando se trata de sanções sociais, discriminações e violências.

Não quero negar a ninguém a autodeterminação na identificação. Gostaria, no entanto, que certos privilégios fossem reconhecidos e certas opressões, não banalizadas. E sim, o privilégio da cisgeneridade, ou cis for short, sem aspas, é um deles.

Travesti, pessoa transgênera, transexual, drag-queen, genderqueer, por favor não se atrapalhem quando minha existência não se encaixar na sua teoria: I am whoever you say I am. Porque eu ignorarei solenemente seus estudos de inspiração colonizadora.

Eu tenho uma história a que me referenciar, e ela está bem distante do discurso médico. Eu acesso outros contextos históricos e percebo que sonhos e desejos que articulo (dentro deste regime de poder, diga-se) com tanta culpa e medo foram vistas de outra forma, salvaguardadas as limitações de acesso que tenhamos (sempre as teremos, ainda mais após genocídios vários). Saber que a cisgeneridade não é um valor ahistórico vai além de mera sacada intelectual cool; saber que ela é uma construção que se impõe como parte do projeto colonial europeu, como parte do projeto das instituições cristãs, como parte do projeto de esbranquiçamento do mundo, é uma questão de sobrevivência. E de luta.

Esta é, em outras palavras, minha perspectiva sobre minha existência no mundo. Enxergar-me, por detrás das diferenças diversas, como minimamente conectada à história passada e presente das pessoas dois-espíritos (two-spirited people, ver um basicão aqui), por exemplo, é vislumbrar alguma beleza, alguma referência que, em um contexto histórico que busca a todo custo nos invisibilizar ou inferiorizar, nos permita viver e encontrar sentidos.

E sendo assim, não me importa tanto o que estejam dizendo pessoas bias ou bios, preciosas ou não, ciborgues ou naturais — sejam quais forem os nomes e termos que se deem para nomear suas perspectivas de mundo –, quando noto que suas esquematizações, suas periodizações, suas articulações lógicas, parecem mais preocupadas com a utilização das vivências trans*-transgêneras para construir a nova perspectiva teórica da moda que com a articulação de possibilidades de resistência, armadas ou não. Quando noto, afinal, que ao tentarmos resgatar alguma história trans* (ainda que façamos as ressalvas necessárias), somos assimetricamente criticadxs por isso — já que outros termos, ainda que também criticados, seguem sendo utilizados como descritores aceitáveis.

Estamos pensando sobre as prioridades na construção de nossas críticas? Quais os diferentes efeitos discursivos entre se criticarem os ‘resgates de uma história trans*’ e se criticar a história ciscêntrica fartamente documentada? A quem interessa a fragmentação e a singularidade histórica do que chamamos trans*?

Porque beijos, sinceramente, não bastam.

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