Minha porção mulher…e o feminino

Quando analisamos o feminino, observamos aquilo que é muitas vezes relacionado – equivocadamente, sem dúvida – a aspectos frágeis de nossos seres. O belo em traços finos, o delicado a se arranhar, o padecer no paraíso, o amor de espera e aceitação. Proponho, neste espaço, um olhar distinto sobre o feminino, que possa conceber a beleza como eterna, a delicadeza como arma, a alegria como rotina, a paixão como infinita. E desses olhos mais sensíveis será constituído, deseja-se, mais um admirador, um amante convicto de todas as mulheres, ou melhor, de todo o feminino; amante mais adorador que dono, posto que do amor depende. E o amor, perdoe-se a gramática, é do feminino.

Não nego que estas e eventuais futuras linhas possivelmente exagerem, aqui e ali, na exaltação proposta. É próprio dos apaixonados, este que é um sentimento tão feminino também, ter o olhar exato e racional um pouco prejudicado, o que nos absolve de qualquer ilação maldosa, como aquela apresentada pelo cético, que considera de um ridículo supremo alguém dizer de peito aberto que o feminino pode salvar o mundo. Somente posso desejar que o cético ame, dando-lhe a oportunidade de retirar o que disse.

Um outro ponto fundamental é distinguir o feminino, já devidamente definido, da fácil associação exclusiva às mulheres. A história dos homens lhes reservou este papel através das eras, afinal, e muitas delas desenvolveram de fato sua feminilidade. O que a história dos homens deixou de contar, ou não o fez por vergonha tola, é a existência do feminino nos homens, o que não representa nenhum paradoxo insolúvel, e ainda que o fosse, não seria passível de punição – fala-se da divina, pois a justiça dos homens tem temperamento volúvel. Pois aqui exalta-se também o feminino masculino, ou o masculino feminino, incrível esta frase ter sentido.

Essa distinção é também uma maneira de apresentar-me: sim, eis um dos homens que buscam o feminino em si e o admiram nas demais pessoas. Ainda iniciante, porém com um brilho de curiosidade nos olhos e um tanto da ingênua esperança de perfeição, tentando encontrar a cada passo de vestido e salto alto ou bermuda e camiseta um pouco mais do feminino nos gestos, nas palavras e nos toques. Como homem ou mulher? Como homem e mulher.

E, como inspiração e amuleto, a canção de onde surgiu o nome do blog:

Super-Homem, a Canção
Gilberto Gil

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver

Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher

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