Minha S/O!

Uma noite em São Paulo, depois de 8 meses fora do Brasil. A Vila Olímpia, em um passado bem próximo casa e trabalho para mim, trazia agora uma sensação estranha, semelhante ao reencontro com um amigo que não se vê há muitos anos: uma proximidade difícil nos primeiros momentos, que nos parece absurda, mas é real. As ruas por que sempre caminhei me pareciam mais perigosas, embora o perigo não tenha se alterado, e os cheiros e sabores dos restaurantes a quilo estavam distintos, embora estivessem tão bons quanto antes. Claro, desacostumei-me.

E assim, depois de breves goles, volto ao hotel em plena noite de quinta-feira, em torno das 9 horas, por não ter o que fazer — na verdade, por não ter companhia também: não estava à vontade para vagar sozinho junto àquelas ruas já não tão familiares. Mas sinto saudades. Pego o telefone e ligo para ela, pois sei que com ela passo horas discutindo o que vale ser discutido, isto é, as idéias sobre o mundo e sobre nós mesmos, em diferentes níveis e sem qualquer rigor científico — exigências respeitadas por completo. Ela atende.

É uma voz alegre, demonstrando felicidade em receber ligação minha, assim. Mal sabe o feliz que estou, por escutá-la e por senti-la feliz. E, como sempre, não foi nada difícil navegarmos por assuntos vários, questionando, aprendendo, explicando; mas por trás de cada frase minha, havia um assunto camuflado e persistente, e a tensão já atrapalhava os rumos usuais de nossas conversas. Eu queria lhe contar sobre um de meus mais profundos segredos, pois sentia que ela merecia saber e pela quase certeza de que ela compreenderia tudo, porém a racionalidade não é das maiores prioridades nestes momentos, daí o nervosismo.

Talvez esta tenha sido uma das decisões mais difíceis que já tomei. Já havia falado para uma outra garota sobre meu cding, mas porque sabia que em breve não nos veríamos (ela regressaria a seu país natal, a Colômbia), e porque ela já desconfiava de algo diferente (ela havia visto algumas roupas minhas, e eu desconversei de maneira pouco — bem pouco — convincente). A Drê, não era assim tão simples; ela mora em minha cidade natal, é uma amiga-amante perfeita, e conhece meus amigos. Falo? Calma aí, pra que isso, controle-se. Vou falar, dane-se. Veja… Dre, é… Inventa outro assunto. E você vai sair no final de semana? Você já perguntou isso, [meu nome de menino]. É, na verdade tenho outro assunto pra falar com você.

Após a revelação, um breve silêncio, o terror e a expectativa em meus ouvidos, e a frase de indiferença fingida à perfeição — o que adorei: É mesmo, e foi tão difícil falar isso? Foi, foi, foi! Olhe, não vou dizer que é algo corriqueiro, mas está tudo bem, eu gosto de você de qualquer forma. E eu ali, deitado na cama em um alívio tão forte que me fazia as expirações parecerem arrancar pesos de mim. E, realmente, depois de feitas as coisas notamos como elas não foram tão demoníacas quanto nossos piores cenários vislumbravam. E continuamos a conversar sobre tudo isso, ela tentando absorver aquelas estranhezas todas (estranhezas em um sentido de diferente, desconhecido) e eu aliviando a alma. Assim posso dizer que nasceu minha S/O, gerada a partir de uma linda mulher.

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