O dinheiro e as mulheres

Quis escrever rapidamente sobre algo que me intrigou em várias ocasiões: a suposta “atração” das mulheres pelo dinheiro — ou pelo que ele é capaz de obter, mas deixemos assim, simplificado. Como geralmente estou vendo as coisas pelo lado masculino, não é raro escutar coisas do tipo “mulher só pensa em dinheiro”, “só tá com esse panaca pela conta do banco”, “pistoleira” (rs), etc, ou coisas similares em formas mais sutis. De minha parte, considero essa uma visão incorreta, de que discordo em dois aspectos centrais, a seguir:

01. O tom de reprovação embutido no suposto interesse imoral da mulher;

02. A crença de que a atração feminina se funda isso, em maior ou menor grau.

A análise do ponto (1) é a oportunidade para enfatizar que não tento aqui defender as mulheres de forma geral ou específica, como se o interesse pelo dinheiro fosse algo a ser negado veementemente. Vamos expandir a simplificação do que seja dinheiro: ele significa a possibilidade de obtenção de bens e serviços, posto que é instrumento de troca aceito socialmente; ou seja, é um desejo humano aceitável e prévio à própria existência das moedas, e, não se negue isso, tão ou mais intenso entre os homens comparados às mulheres. Admitamos: todos nós temos, em maior ou menor grau, nossa porção consumista, fútil, ou como prefira chamar. Euzinha, por exemplo, tenho lá minhas quedas por sapatos e tal…rs

Não sejamos ingênuos aqui, tampouco; entendo que a crítica não trata simplesmente do desejo de conforto e bem-estar material, mas de sua intensidade em relação aos demais aspectos da vida. É inclusive algo com que concordo em grande parte, já que atualmente parecemos ter nosso valor estritamente atrelado àquilo que temos, o que é de uma limitação incrível para mim.

A minha concordância não faz, entretanto, com que eu queira reprimir ou reprovar aqueles que reduzem a vida ao material; e, admitindo que se possa considerar uma reprovação embutida o uso das palavras “limitação” e “reduzem”, adianto que não faço uso delas com essas intenções, tendo isso somente como opinião. Não censuro quem veja as coisas assim, posso até apresentar essa minha opinião caso se peça — de uma forma construtiva, conforme eu puder –, porém apenas não creio que valha a pena passar muito tempo com pessoas assim. Elas lá, eu aqui (essa postura muda em se tratando de política, claro). O que, aliás, pode ser um conselho a quem condena as supostas “interesseiras”: caso lhe incomodem, ignore-as. Há muitas que não são assim, o que me leva ao segundo ponto.

02. A visão das mulheres como interesseiras me parece mais uma distorção provocada pelas lentes que pelo objeto, embora haja lá seus exemplos inegáveis. Mas na realidade, parece ser o homem acostumado à mulher dependente e obediente do passado aquele que enxerga atualmente um golpe do baú sendo planejado por uma garota com tanto potencial profissional quanto seu namorado ou ficante. Eu, pelo pouco que conheço das mulheres (de fora e também — se me permitem a ousadia — como uma delas), não sou capaz de ver isso sequer no passado, quanto mais no presente.

No passado, com todas as ridículas restrições à vida das mulheres, uma das poucas alternativas que lhes restava para ter uma vida mais confortável do ponto de vista material era conseguir um “bom partido”. E isso, eu posso considerar uma solução pragmática para a questão material — muitas vezes, diga-se de passagem, em nome dos filhos –, porém dificilmente a fonte da eventual atração que ela possa sentir pelo seu parceiro. Como mostra de maneira tão bela Chico Buarque em Terezinha (abaixo), quem nos rouba o coração pode vir do nada — o que não impede que se possa unir o útil ao agradável, lógico.

Teresinha (Chico Buarque / Maria Bethânia)

O primeiro me chegou como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração
Mas não me negava nada, e, assustada, eu disse não

O segundo me chegou como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar
Indagou o meu passado e cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada, e, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração

Hoje, uma época na qual as mulheres, embora ridiculamente ainda ganhem menos que os homens, têm diversas possibilidades de independência que não passam perto da necessidade de serem sustentadas por um cara, essa suposta atração pelo dinheiro faz ainda menos sentido. O que possivelmente se faz, e talvez possa até ter uma sustentação estatística, é usar o dinheiro como indicador de outras qualidades que seriam atraentes, tais como a inteligência, a astúcia, o carisma, etc. O que é algo muito válido, mas que também é sujeito a críticas, já que uma mulher que use este critério muito estritamente pode também perder relacionamentos incríveis com pessoas maravilhosas que, pelos mais diversos motivos (área de trabalho, as voltas da vida, etc), não têm situação financeira das melhores. O que seria um problema estritamente dela, para o qual você inclusive poderia abrir os olhos, caso creia mesmo que valha a pena ajudar.

No mais, acredito que a grande maioria das mulheres é muito mais sensata e imprevisível que isso, o que parece porém não é contraditório. Imagino que sejam sensatas por serem muito atentas àquilo que realmente lhes faz sentir bem numa relação, que são justamente os momentos de alegria, a compreensão, aquele sorriso especial, o abraço que faz o choro trazer conforto, as sensações; e imprevisíveis por isso tudo frequentemente chegar em um momento de desatenção. E onde está o dinheiro nisso tudo?

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