O BBB enquanto pauta política LGBTT

Hoje li um ótimo post (via Paulo Candido) sobre as aberturas proporcionadas às lutas anti-discriminação LGBTT por um programa que, ainda que não prime por nenhuma sofisticação crítica, é assistido por muita gente, o Big Brother.

Fiquei feliz em saber que há uma mulher trans concorrendo na casa, e que ela não esteja ‘out’ ali, ao menos por enquanto. Para quem, do alto de seu privilégio cissexual, sente-se confortável em dizer que ‘ela não pode ludibriar os homens incautos’, ou que ‘ela nunca será mulher‘, que ao menos tenha a decência de admitir a existência desse privilégio, afinal ninguém sai por aí nas ruas checando genitais e cromossomos para dizer se alguém é mulher ou homem; se fazemos a relação ‘parece mulher, então é mulher geneticamente’, é devido a padrões sociais (o que dizer, então, daquel@s que são intersexo?).

Mas parece ser mais fácil sair bradando a própria ignorância e fazer troça de uma pessoa que, como tod@ transsexual, passa por conflitos incríveis devido, em parte significativa, à incapacidade das ‘modernas’ sociedades em entendê-l@s.

Divago, entretanto.

O post ao qual fiz referência é importante por salientar os méritos do programa em matizar e diversificar os queers participantes. Isso é fundamental para irmos além dos estereótipos fáceis e problemáticos (sempre que limitantes de possibilidades). Por outro lado, levanta bem o aspecto das alianças que, em tese, devem nortear toda pessoa que defenda as lutas LGBTT — e, em dimensão maior, tod@ humanista –, qual seja, a defesa igual de direitos daqueles que lhe sejam diferentes. Isso vale para gays que tenham preconceito de classe e gênero em relação a@s transgêner@s, para crossdressers que desdenhem travestis, transsexuais que desconsiderem o feminismo, etc — deixo alguns exemplos, somente. É triste que, muitas vezes, grupos oprimidos tenham comportamentos opressores em relação a outros grupos, ou mesmo a outros membros de seu próprio grupo.

Estamos nos tornando uma sociedade melhor porque há mais diversidade no BBB? Não necessariamente. O que um programa desses faz é abrir uma porta, imperfeita e intere$$ada, para discussão, através da qual podem entrar tanto idiotas quanto ativistas; cabem a est@s as tarefas de (1) não deixar a porta fechar; e (2) conquistar novos terrenos e novas portas.

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2 comentários em “O BBB enquanto pauta política LGBTT

  1. seu post é bem intencionado, mas a moça que saiu do bbb já é uma mulher e não se encaixa mais na “categoria” transexual. admito que ainda existe muita desinformação sobre o assunto e a própria participante contribui para a confusão, mas uma mulher post-op não tem interesse em fazer parte de grupos lbtnxygz ou seja lá o que for, nem se sente representada nesse tipo de sigla. o que se quer é viver no anonimato como uma pessoa comum. e isso precisa ser respeitado também pelos grupos.

    1. Oi Camila!
      Espero que tenha entendido bem seu comentário… de fato, é compreensível que mulheres post-op ou mulheres trans (há várias que assim se identificam) queiram se tornar ‘anônimas’: o estigma posto diante delas é brutal, e mais vale o anonimato que ter que lutar contra a sociedade o tempo todo.
      Isto posto, discordo do seu comentário em 2 aspectos: o primeiro, em relação a ela não se ‘encaixar’ na categoria transexual. Bom, dentro das definições ela é, sim, transexual. Uma mulher transexual. O que não quer dizer que a minha opinião seja a de que ela tenha a obrigação de dizer isso para tod@s; ela tem todo o direito de, se desejar, identificar-se como mulher — ainda mais levando em conta possíveis consequências de se declarar trans. Muitas o fazem, e até mesmo se distanciam do movimento LGBTT, e não vejo problemas nisso. A cada um@, suas escolhas.
      Minha opinião é a de que, embora não necessitem se identificar como transexuais, acredito que estas mulheres podem enxergar os grupos LGBTT como cumpridores de um papel fundamental para a erradicação das discriminações que, em grande medida, afetaram ou afetam, entre outr@s, as transexuais, pós- ou não-op. Ou seja, ser uma voz aliada na luta, que afinal deveria ser de tod@s, mesmo heteros e cissexuais cisgêneros. Mas isso é minha opinião, e não me sinto em posição de fazer qualquer julgamento sobre uma mulher trans que não se identifique como tal.
      O segundo aspecto é que nem eu nem o post a que fiz referência exigem, ou defendam a ideia de, que ela se identifique como trans. Eu reli ambos e não achei nada… mas se dei a entender isso, desculpe. O que eu achei positivo no outro post foi o fato de este BBB ter posto, aparentemente (até agora não vi nem um pedaço do programa), mais diversidade nele. E isso incluiu uma mulher trans (podemos criticar o fato de o programa ter dito isso, mas espero que ela tenha estado de acordo antes), entre outr@s queers. Mas é só, não coloquei qualquer expectativa na Ariadna ou em como ela deveria se portar.
      Bom, é preciso também lançar na mesa que há relatos (pelo menos no passado) de que o movimento LGBTT, em dados momentos, ‘rifou’ (ou deixou de lado) @s transgêner@s… mas isso é outra história.
      Bjo!

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