Sujeitos históricos

Uma das ideias de Paulo Freire que mais me inspiram é a defesa de que os oprimidos devem ter garantidos os recursos que lhes permitam passar de uma condição de subsistência, reativa às condições naturais e sociais, a uma condição ativa, a uma inserção no mundo como sujeito histórico. Entre estes recursos, a educação é claramente um dos principais para Freire.

Muito embora Freire concentrasse seus esforços à análise dos pobres pelos inúmeros campos e favelas do país — e do mundo — (com legítimas razões, pois que a pobreza é dos nossos mais vergonhosos males enquanto sociedade), parece-me impossível não relacionar seu raciocínio crítico sobre a necessidade da luta pela transformação d@ oprimid@ em sujeit@ históric@ com as lutas LGBT (ele mesmo faz a sugestão em uma linda entrevista, abaixo, quando diz desejar uma ‘marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser’). É a partir desta perspectiva, deste pensamento, que participei da marcha do Orgulho LGBT em San Francisco este ano.

A alegria de notar, de notar-se ali entre tantas outras pessoas, tão diferentes entre si, é imensa, e em alguns momentos eu, chorona que sou, não pude evitar os olhos marejados. Trago algumas fotos comigo, num intento de auxiliar a memória, mas o grande e fundamental elemento lógico nesta(s) marcha(s) é a possibilidade de se perceber enquanto sujeito histórico, como aliado e defensor de uma causa que afeta e afetará pessoas, e também de recolher o apoio emocional necessário para encarar essa liberdade, e sua respectiva responsabilidade — e ambas podem ser assustadoras, ainda que emancipatórias.

Desde um ponto de vista pessoal, posso dizer que tenho aprendido muito nos anos recentes (isto é, nos últimos 3 ou 4 anos). Reconheço os diversos privilégios a que tive e tenho acesso, porém gostaria, se me fosse concedido um desejo, que minha consciência enquanto sujeito histórico transgênero houvesse sido despertada antes. Poderia ter sido doloroso, até mesmo trágico, mas ainda que um tanto atrasado, o importante é que, pouco a pouco, vou enfrentando cada besteira internalizada, cada instituição indigna — ainda que puramente em exercícios mentais –, e então quem sabe, junto a tantas outas irmãs e irmãos, poderemos mudar o mundo, a realidade histórica.

Espero que tod@s tenham podido aproveitar o domingo de marcha(s), onde quer que seja.

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