Uma grande frustração

Depois de vários anos morando fora, a diferentes distâncias, volto à cidade-natal. É um sentimento complexo, com nostalgias e novos elementos misturados a uma nova visão de mundo e mais idade, e estou achando interessante entendê-lo.

E assim, agora que acabo de voltar à casa de meus pais, pude perceber um pouco melhor o que significavam algumas pressões que eu vivenciava, quando já sabia de alguma transgeneridade em mim. A vigilância da aparência e dos maneirismos, a necessidade de mostrar algum(ns) tipo(s) de masculinidade, brincadeiras aparentemente inocentes, estes fatores seguem aí, ainda que, acredito, mais brandos (viva as lutas e lutador@s!). Por outro lado, sei que estou mais forte, e me abalo menos com estas pressões; há um longo caminho ainda, entretanto.

Agora, teve uma coisa que eu vivenciei praticamente da mesma maneira que no passado, e doeu quase igual: a socialização afirmativa de gênero, ou melhor, sua ausência para mim (em oposição às pressões coercitivas de gênero, as que me impediam qualquer feminilidade). Ocasiões pequenas — uns diriam banais –, tão presentes nas relações de minhas irmãs com minha mãe, estão afastadas de mim por véus diversos: um comprar de roupas, uma conversa sobre sapatos, e muitos outros gestos e interações que margeiam qualquer assunto ou evento (ou seja, não são somente coisas do ‘estereotipicamente feminino-barbie’; inclui um pouco isso, mas não se limita a ele).

E então, tendo experimentado estas ausências novamente, pude notar como a construção de uma viviane minha foi uma ‘obra’ autodidata, recebendo informações de terceiros, ou fundamentalmente virtuais (viva a internet, pois) e praticamente sem interações reais, um aprofundamento de relações pessoais. Ou seja, a Viviane que sou é uma pessoa relativamente pouco socializada, sendo mais resultado de interpretações e informações recebidas de forma virtual ou semi-impessoal, o que se reflete na minha enorme timidez para sair de armários e mesmo na rua, esporadicamente.

Mas estas são mágoas passadas, e que infelizmente não podem ser mudadas. Quisera eu ter compartilhado mais desses momentos com minha mãe; entretanto, destas ausências, que são consequência de tristes construções sociais, retira-se a força de Viviane, alguma beleza de sua história tão pouco vivida e já cheia de mágoas.

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