Estudos da cisgeneridade?

Em um pensamento aleatório (dos muitos que tenho, rs), tentei avaliar até que ponto as construções e premissas cisgêneras afetam as existências não-normativas. E nesta, me pareceram interessantes algumas consequências desta inversão de ângulo, entre o pensar a transgeneridade em direção ao considerar da cisgeneridade, tais como:

– esta inversão tornaria desnecessária qualquer definição precisa do quanto o termo ‘transgeneridade’ abarca ou exclui, algo que me parece gerar alguns problemas.

– a inversão coloca o opressor (ou seu sistema de dominação) sob os holofotes, não a(s) vítima(s), amenizando a culpabilização da vítima tão comum em formas mais ou menos sutis.

– também permite a possibilidade de analisar interações com outras normatividades, como a heterosexualidade, a branquitude (mais sobre esta a seguir), a religiosidade, etc., auxiliando na desconstrução de dilemas no sentido de ‘quem é o mais oprimido’.

É claro que por trás dessa ideia estavam os estudos da branquitude (whiteness studies, no inglês), que me parecem, pelo pouquíssimo que li, muito interessantes, por problematizar os privilégios e as consequências opressivas de se ter @ branc@ como normativ@. Por que, afinal, ao ler este trecho de artigo (obrigada google!) a respeito da branquitude no Brasil, não consigo evitar uma substituição (qualificada, considerando-se dimensões e diferenças) por cisgeneridade?

Para Guerreiro Ramos, a multiplicação de estudos do negro por “brancos” brasileiros, sobretudo do Norte e do Nordeste – Sylvio Romero, Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Thales de Azevedo, por exemplo – é sintoma da patologia do “branco” na sociedade brasileira. Na colonização escravagista,

‘a minoria dominante de origem européia recorria não somente à força, à violência, mas a um sistema de pseudo justificações, de estereótipos, ou a processos de domesticação psicológica. A afirmação dogmática da excelência da brancura ou a degradação estética da cor negra era um dos suportes psicológicos da espoliação. (1995: 220) [ênfase minha]

A partir deste paralelo, acabei pensando também nas tantas coisas que se poderiam estudar dentro destes estudos da cisgeneridade:

– como as construções médico-psicológicas das transgeneridades são fundadas em normatizações cisgêneras, em um processo de domesticação psicológica perverso, afinal muit@s trans necessitam ‘comprar’ os discursos relacionados para ter acesso a mudanças corporais desejadas. (pois é, ainda tô pensando naquele post)

– como as construções estéticas cisgêneras afetam identidades de gênero não-normativas, e vice-versa. Tomar em consideração as reações de oprimidos (no ‘tentar passar’, algo que ainda faço, ou ‘genderfuck‘ mermo) e opressores (no espanto, marginalização ou violência pura e simples)

– o papel da instituição legal no controle da normatividade cisgênera, como por exemplo na questão do nome social — um caso interessante devido ao seu ridículo, afinal se o número do rg não se altera, um dos poucos riscos, o de fraude, é bastante diminuído.

– a mídia em defesa da normatividade cisgênera. Os retratos de pessoas gênero-inconformes são sexualizadas (quer-se ver como se esconde o pinto, quando e como foi a operação, etc), tornadas parte do bizarro (conforme constituído pela normatividade), des- ou super-erotizadas, e quando em enredos de fantasia, como novelas, apresentados por atores-atrizes cisgêneros, para quem a existência gênero-inconforme é mero papel, e portanto menos questionadora da ordem cis.

– algo bastante relacionado ao primeiro tópico seria pensar como o sofrimento decorrente de uma não-conformidade de gênero é causada pelas constantes e fortes premissas cisgêneras. Pois que há sofrimento pra muit@s de nós, isso há, mas precisamos localizar a causa com muito mais precisão.

Nossa, acho que dá pano pra manga isso, hein… 🙂

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7 comentários em “Estudos da cisgeneridade?

  1. Vivi, oi!!!
    Na verdade acho que não entendi uma coisa no seu texto:a inversão de angulo. Mas tô em esforçando… risos… sabe por eu ser gay e não trans , penso que não tenho meios de sentir as coisas como você sempre, a sua dor e prazeres…ou seja, perto de alguém trans eu seria algo mais “normativo” apesar de toda a homofobia que sofro, não tenho como comparar… novamente me assombro com sua informação e inteligência. Hoje, na Conferência, foi bem difícil de levar alguma coisa adiante e teve até uma mulher que se dizia “bissexual” , mas que muitos a conhecem e sabem que é apenas um jogo político, ela é hétero, que queria diminuir – veja o horror! – a participação das TT’s e aumentar as das mulheres, nas propostas apresentadas… foi uma briga que durou umas três horas, com muita baixaria… pensei em você, queria que estivesse lá perto, comigo, gritando juntos contra esse absurdo.
    Beijo
    Rick

    1. Oi Rick! 🙂

      Bom, com a inversão de ângulo ou perspectiva eu quis me referir a boa parte dos estudos que tenho lido, que têm como objeto a transgeneridade. Não acho que esse ângulo seja um problema em si, afinal temos de aprender mais sobre nós e nossas especificidades, mas algumas vezes tenho a impressão de que podemos esbarrar no perigo de nos vermos como anormais, cobaias de estudos clínicos ou objeto da curiosidade acadêmica.

      E, neste sentido, ‘proponho’ que sair da ‘zona de conforto’ cisgênera e olhar-desconstruir suas premissas e instituições pode nos clarear a visão em relação a quem é que oprime as existências trans, e tantas vezes nos causam sofrimento psíquico, colocando a patologização, por exemplo, em outros termos. Para usar, da maneira mais fraterna possível, um paralelo com questões raciais e os whiteness studies, creio que poderíamos passar a atribuir os sofrimentos de tant@s negr@s em nossa História aos diversos chicotes brancos ao invés de @s responsabilizarmos como ‘preguiçosos’, ‘aproveitadores’, etc., como se escuta de gentes ridículas por aí às vezes. Acho que focar na cisgeneridade normativa pode abrir um debate neste sentido, em um ambiente discursivo infelizmente tão controlado por definições clínicas e pessoas cisgêneras (que não são problema em si; queixo-me da ausência relativa de vozes trans). Além de incluir com mais facilidade outras existências não-normativas de gênero, às vezes excluídas por não se considerarem crossdressers-travestis-transexuais, mas ainda assim sofrerem pela normatividade cisgênera — penso aqui, por exemplo, homens gays efeminados, ou lésbicas mais masculinizadas. Seria possível fazer uma crítica à cisgeneridade que englobasse todas estas não-conformidades, sem a necessidade de especificar os limites (que sabemos serem artificiais) de tod@s genderqueers (sei lá, genderfuckers, transgêner@s, etc.)

      Entendi sua colocação sobre você ser mais ‘normativo’… e tenho 2 colocações: por um lado, acho que a questão de gênero é um tanto complicada pelo fato de as pessoas ‘viverem seu gênero’ constantemente, enquanto a sexualidade, como tantos moralistas insistem, tende a ser algo mais privado. Por exemplo, minha mãe pode nunca saber que tenho um namorado, mas ia se chocar na hora quando me visse de unha pintada…rs.

      Por outro lado, em certa medida até devido aos moralistas que abundam, a sexualidade, e especialmente a sexualidade não-normativa (em relação @ parceir@, à variedade de parceir@s, etc) é um aspecto super delicado. Você assiste qualquer novelinha e as premissas de sexualidade são transmitidas claramente (os personagens principais são heteros, se casam, blabla, e as inconformidades tendem a ser de-sexualizadas — o gay pintoso que não tem qualquer pretendente — ou minimizadas — num afeto que é quase amizade, ou numa ridicularização). Neste sentido, as opressões estão aí na cara também, e você vê mesmo entre pessoas trans um desejo de sair deste ‘estigma’: são algumas crossdressers que fazem questão de se colocarem como heteros, ou transexuais e travestis que buscam se dissociar da prostituição. É claro que não culpo nenhuma delas (penso mais as mtf por questão de proximidade), mas não posso evitar a leitura de que são tentativas de se adequar a uma normalidade sexual. Eu mesma já esbarrei nesta questão mais de uma vez, ao ‘sair’ para amig@s: e então, você é gay? E me pareceu que isso era tão relevante quanto eu me montar…

      Mas tudo isso de estudar a cisgeneridade é algo que me veio à cabeça. Que bom poder avançar conversando contigo!

      Hmm, a conferência. É uma pena escutar das questões que você coloca… sobre essa pessoa e suas posições, lembro-me de um texto de uma mulher trans, Julia Serano (uma pessoa super, demais, pelo que li de sua autoria e dela), comentando de como algumas feministas excluíram mulheres trans de eventos, num lance bem 1st-wave, coisa e tal. É complicado ver coisas parecidas acontecendo (afinal, quem são mulheres? as que têm vaginas de determinado jeito? as que têm seios naturais? as que podem ter filhos? ou, como creio, quem se identifica como tal, e sofre o sexismo social?).

      E esse lance de ‘criar’ uma identidade queer é triste, sendo hetero. Eu sempre tento frisar que minha experiência enquanto mulher trans é super limitada; eu me beneficiei horrores por ter ficado no armário, e não vivenciei um tantão da exclusão a que tant@s são submetid@s. Tenho lido, e quero participar da luta política, mas é preciso ter sensibilidade e escutar as diferentes perspectivas — especialmente aquelas super marginalizadas. É pena que outras pessoas façam o inverso, se escorem num ‘sou bi’ vazio e ainda por cima busquem excluir outras individualidades queer.

      Nossa, estou falando muito já! rs Foi quase um post nessa…
      Beijo!
      vivi

  2. Vivi, Você viu isto?
    Transexuais exigem desaparecer da lista de patologias da OMS
    El País
    Nacho Meneses

    No papel, na Espanha seus direitos são iguais desde 2007, quando a lei de identidade de gênero foi recebida pelos transexuais como uma façanha: conquistou-se o direito de se sentir mulher ou homem, viver como tal e que a carteira de identidade o reconheça. Para os 7 mil a 12 mil transexuais que vivem na Espanha, a realidade cotidiana continua complicada. Sem trabalho, uma vida normalizada é difícil, dado o alto índice de desemprego que afeta o coletivo. E o estigma de ser considerado oficialmente um doente o agrava. A OMS ainda considera a transexualidade uma doença, algo que os afetados esperam mudar no ano que vem, quando a organização elaborar o novo catálogo de patologias.

    A esta causa se dedica o Dia Internacional pela Despatologização da Transexualidade, comemorado em 25 de outubro. A campanha começa a ganhar pequenas batalhas: no último dia 12 a Unidade de Transtorno de Identidade de Gênero (UTIG) de Málaga passou a se chamar Unidade de Transexualidade e Identidade de Gênero; uma mera mudança de nome que no entanto ajuda a eliminar barreiras. O maior triunfo político foi em 28 de setembro passado, quando o Parlamento Europeu aceitou eliminar sua consideração como patologia (por 442 votos a favor, 104 contra e 40 abstenções). Dos 35 eurodeputados espanhóis presentes, 33 votaram a favor. Um deles, Gabriel Mato (PP) se absteve. Juan Manuel García-Margallo (PP) votou contra por engano.

    Essa maioria política pode ser reflexo de que a situação social mudou. O governo espanhol e a UE apoiam que se deixe de considerar como doença (como ocorreu em 1990 com a homossexualidade). A doutora Tella Plana, psiquiatra do Hospital Clinic de Barcelona, aposta em uma origem biológica da transexualidade e descarta que seja uma patologia psiquiátrica, “embora às vezes os pacientes tenham de forma secundária transtornos derivados das dificuldades de adaptação ou do conflito social”.

    O avanço foi abissal se olharmos para trás. Quando Carla Antonelli, primeira deputada autonômica transexual – eleita em maio para a Assembleia de Madri com o PSOE – deixou sua cidade natal (Güímar, Tenerife), em 1977, tinha 17 anos e nem seu nome, que ainda resiste a revelar, nem sua aparência masculina a representavam. “Fui embora sem dizer nada… isso era impensável em um povoado tão pequeno. Tenho irmãos com os quais deixei de falar… até hoje”, lembra na sala de sua casa em Madri.

    Segundo Antonio Poveda, presidente da Federação Espanhola de Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais (FELGTB), esse coletivo sofre na Espanha entre 60% e 80% de desemprego e “é invisível na maioria dos programas de combate à discriminação”. Diversas associações desenvolveram iniciativas para melhorar sua inserção laboral. “As pessoas transexuais somos muitas vezes obrigadas a abandonar a família e os estudos, e isso o limita a trabalhos como garçonete, dependente… mas pelo menos são dignos”, afirma Mar Cambrollé, coordenadora da área transexual da FELGTB. Muitos, especialmente os imigrantes, são levados a exercer a prostituição, uma última opção nem livre nem escolhida.

    “Isto não é um capricho, você nasce assim. Eu me sentia homem desde que tenho o uso da razão”, afirma José (nome fictício), funcionário público madrilenho de 39 anos e paciente da UTIG da Comunidade de Madri. Aqueles que vão a uma dessas unidades enfrentam muitas vezes dois anos de espera, desde uma avaliação psicológica que “dura no mínimo três meses e oito sessões”, segundo Nuria Asenjo, psicóloga clínica da UTIG, ao eventual tratamento hormonal e à cirurgia de reatribuição necessária em cada caso.

    A Andaluzia foi pioneira em subvencionar com dinheiro público o tratamento integral, incluindo a cirurgia. “Mas até lá há autênticos calvários de pessoas que passam um ano ou um ano e meio esperando para ser avaliadas”, afirma Cambrollé. Para José, “a espera é um inferno, embora seja lógico. Desde que você se coloca um dia diante de seus pais e diz ‘isso acontece comigo’, você precisa de tratamento. Mas é necessário ter certeza”.

    A lei de 2007 possibilitou pela primeira vez a mudança de nome e sexo sem necessidade de cirurgia. Como requisito, um certificado médico de disforia de gênero [discordância entre o sexo genital e o psicológico] e outro que afirme que a pessoa esteve dois anos em tratamento médico para adequar suas características físicas ao sexo sentido. “Pode parecer uma besteira, mas ter uma identidade que reflete sua identidade é uma explosão, um big bang de energia. Uma carteira que não o representa o faz sentir-se inferior, o humilha e você fica às custas de outras pessoas; isto lhe devolve a dignidade”, comemora Antonelli.

    Completar o processo, quando não se tem dinheiro, é muito complicado. Há somente quatro unidades de identidade de gênero na Espanha: em Málaga, Madri, Barcelona e Bilbao. Outras comunidades enviam os pacientes a uma dessas unidades e aí se acaba tudo.

    No horizonte está à reivindicação de leis integrais, normas que abordem a saúde, a educação, a luta contra a discriminação e a inserção no mercado de trabalho.

    “Pedimos políticas de discriminação positiva com o objetivo de chegar a uma situação de igualdade”, diz Cambrollé, “por exemplo, com incentivos para as empresas, reservando uma cota de emprego público e campanhas de pedagogia social na televisão pública”.

    Diante da carência de uma lei integral estatal, a luta ocorre nas comunidades. Navarra aprovou a sua em 2009 e o País Basco poderá fazê-lo no final deste ano. Em Madri, na última legislatura o PP rejeitou uma proposta apresentada pelo PSM e a Esquerda Unida. Caso contraditório se dá na Andaluzia, onde os socialistas, em maioria absoluta, limitaram-se a apresentar uma proposição não de lei incitando a junta a tramitá-la.

    Em tempos de crise, além disso, não falta quem questione se a saúde pública deveria financiar essas intervenções. Na Catalunha, o PP de Alicia Sánchez-Camacho condicionou recentemente o apoio de sua formação aos Orçamentos da Generalitat, entre outras coisas à supressão das cirurgias de reatribuição de sexo. A paralisação dessas operações, afirma Marta Salvanz, figura destacada do coletivo transexual nessa comunidade, levaria muita gente a recorrer de novo a alternativas como injetar silicone líquido nos seios e nas nádegas, com o consequente risco para a saúde. “Poupariam em intervenções, mas perderiam mais no atendimento a outras doenças”. Além disso, “se você diz a uma transexual que busque a vida para fazer a cirurgia, muitas vão ter de se prostituir, com o risco de se transformar em soro positivas”. Isso representaria uma maior carga para o sistema de saúde: enquanto tratar uma pessoa com HIV representa “entre 12 mil e 17 mil euros anuais, uma cirurgia de reatribuição tem um custo total entre 14 mil e 24 mil”, afirma Salvanz.

    A ideia de que a transexualidade não é uma doença se choca com os preconceitos dos que questionam que necessite de tratamento médico. A resposta está em que é preciso diferenciar entre um processo biológico que deve ser corrigido e um transtorno que requer tratamento. As últimas pesquisas indicam que a transexualidade seria originada por uma ação inadequada da testosterona no desenvolvimento do feto, “entre a oitava semana de gravidez, quando se define o sexo genital, e a diferenciação sexual do cérebro, por volta da semana 22 ou 23”, explica Antonio Becerra, coordenador da UTIG de Madri.

    Mas se a situação dos espanhóis melhorou a dos estrangeiros é muito pior. A associação TranZ&People, de Barcelona, dá apoio a muitos transexuais imigrantes, um grupo em que a prostituição tem maior incidência. “Nós os orientamos para que possam mudar de nome em seus países”, diz Zam Cifuentes, seu porta-voz. Na Espanha não o podem fazer. “Estão em total abandono. Além disso, são pessoas sem raízes familiares e com uma sociedade que os repele cada vez mais. E as taxas de suicídio, nem lhe conto….”, acrescenta. “Mais uma vez tivemos de sair às 3 da manhã porque uma garota tentou se matar.”

    A lei também não permite operar menores de 18 anos, e defendê-lo sequer é conflituoso, como reconhece o cirurgião plástico Iván Mañero, de Barcelona: “Não querem saber nada de menores. O medo de tratar de crianças, que é mal visto – ainda mais na esfera sexual – se antepõe ao fato de ajudá-los”. “Chegam pais desesperados que dizem: ‘Minha filha tentou se matar duas vezes, tem 16 anos e diz que na próxima se mata, temos um certificado médico, por favor opere-a’. Mas se eu faço isso, me aplicam o Código Penal e vou passar seis anos na prisão”, afirma o médico.

    Neste caso concreto, os pais conseguiram autorização judicial para a operação. Mas nem sempre é assim. E conforme se diminui em idade a situação piora. É um dos argumentos que apoiam a origem biológica da transexualidade. O problema se apresenta desde que o menino adquire consciência de sua sexualidade, como diz Nuria, da Andicfam, a Associação de Meninos com Discordância de Identidade Congênita. Há um ano, no serviço de psiquiatria infantil do Clinic de Barcelona, lhe disseram que seu filho, então com 5 anos, era na realidade uma menina: “Já antes de falar suas preferências eram de menina. E quando começou a fazê-lo usava adjetivos femininos para referir-se a ela, e ao ver os desenhos animados se identificava com os personagens femininos… Com 3 anos disse à sua avó que quando fosse mais velha iria procurar um médico para que trocasse sua pele e lhe pusesse uma de menina”, admite.

    Na unidade do Clinic fazem a todos os pacientes um acompanhamento para garantir que efetivamente estão diante de um problema de identidade de gênero. Mas o ruim é quando procuram um médico que não está preparado. “Um pai da associação foi com sua filha [um menino, biologicamente falando] vestida de menina a um psiquiatra infantil e lhe explicou o que acontecia. O médico os denunciou ao serviço social e os acusou de maus-tratos psicológicos devido a uma obsessão doentia”. Nuria lembra seu próprio caso: “No dia em que tirei a roupa de menino de minha filha para trocá-la por roupa de menina foi quase tão duro como enterrar um filho”, confessa, soluçando. “E que no meio desse sofrimento você precise se defender é uma vergonha… eu não posso me limitar a buscar o melhor tratamento para minha filha, tenho de falar para que as pessoas entendam.”

    Qual é então o melhor procedimento a seguir com os menores? Alguns, como os membros da UTIG de Madri, não são partidários de dar tratamentos hormonais e usam a prudência como argumento para limitar sua ação ao acompanhamento psicológico. Outros são partidários de administrar no início da puberdade hormônios inibidores que bloqueiam o desenvolvimento das características próprias de cada sexo: não lhe sai barba nem muda sua voz, impede que surjam seios… É um tratamento reversível, que dá aos médicos mais tempo para confirmar o diagnóstico e faz que a cirurgia posterior seja menos traumática, além de prevenir o aparecimento de sérios problemas psicológicos.

    Antonelli reconhece que houve uma evolução, mas ainda não há equilíbrio. “Falta pedagogia, visualização, normalização… porque se podem pedir planos para os ciganos e não para os transexuais? Aqui na realidade há um preconceito subjacente contra o coletivo; nos dizem que não valemos nada, não somos nada e não temos direito a nada.”
    Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

    1. Não havia visto não, Rick, obrigada! A luta segue, e é bom ver que há muita gente com as ideias mais arejadas em outras paragens… 🙂

      Só tem um ponto que acho interessante: e pessoas como eu, que, pelo menos até o momento, gostariam de ter 2 nomes? Não necessariamente quero me adequar ao binário de gênero. Isso dá conversa longa hein….rs!

  3. Olá Vivi tudo bom? Eu comentei no seu outro post no blog Inquietudine e fico feliz em encontrar outra voz na internet que luta contra a patologização das identidades trans*.
    Em minhas sessões no psicólogo, (sessões compulsórias pois o Estado me obriga a ser avaliada por uma equipe ‘multidisciplinar’ para saber meu nivel de “transness” e se eu posso modificar meu corpo ou não, como já sabemos) eu me perguntava justamente que mecanismos de avaliação seriam usados senão apoiados pela norma cisgênera. Pensei que talvez eles avaliassem o ‘nível de captura’ dessas pessoas trans pela norma cisgênera para avaliar o nível de ‘transness’ e assim diagnosticar quem é ‘mais ou menos trans*’ (trans* “verdadeiro e falso” etc.). Esse nível de captura que tem a ver com o que vc postou, quer dizer o quanto que nós tod@s estamos capturad@s pela ideologia cisgenera, é dificil de avaliar pq não tem como medir os limites da ideologia, sabemos, no entanto como essa ideologia opera, regulando e fazendo a manutenção do status quo cis entre o “”sexo e gênero”” (com muitas aspas), e tudo que lhe escapa é “disfórico”.
    Por isso que nunca vou crer em qualquer expressão de gênero ou desejo como sendo patológica, pois para mim sempre será a ideologia operando pelos seus mecanismo regulatórios e sabemos que o discurso médico tem se revelado uma ferramenta bastante ‘eficaz’ nessa manutenção e é por isso que necessita haver resistência.

    1. Olá!
      Mil desculpas pela demora em aprovar e responder o comentário… eu ia aprovar quando respondesse, e acabei enrolando (até mesmo porque são várias coisas legais que você aponta).
      Eu ainda estou começando a me familiarizar com as visões institucionais sobre as não-normatividades de gênero — as sociais, essas desde criancinha já percebia, embora não soubesse articulá-las numa retórica bacana. Bom, estive (estou) no armário há certo tempo, e só recentemente pude sair em público, e fazer terapia, etc. Talvez por isso, tem-me espantado bastante ver o controle e a falta de respeito que até mesmo instituições mais ligadas a nós (a medicina e as psis) demonstram — há aliad@s dentro delas também, claro, e a psicologia tem sido um destaque, por exemplo.
      No entanto, como você bem disse, ainda que em certos meios não nos considerem aberrações, não parece haver uma intenção forte no sentido de questionar a normatividade cisgênera em todos seus efeitos negativos.
      Aliás, uma das coisas que me incomoda é essa normatização estatística: há um subentendido de que os heteros e cis são a maioria numérica na sociedade. E daí partem falácias na linha ‘não somos racistas, mas somente apontamos o ‘dado’ de que mais negros estão roubando’, aplicadas a queers. No caso específico e atual d@s trans, o problema é que isso implica numa aceitação do discurso médico, que nos torna desvios da suposta distribuição normal de gênero.
      Minha grande questão em relação a isso se refere à impossibilidade de se mensurar essa distribuição no contexto atual e pretérito. Enquanto não houver plena liberdade das pessoas expressarem seus gêneros e desejos sexuais, e isso implica na retirada de opressões diversas, não há maneira de se mensurar satisfatoriamente quem é o que — na verdade, essas perguntas seriam tolas numa sociedade plenamente livre.
      Eu não sei se viverei para ver esta sociedade, mas espero que possa contribuir para que, ao menos, as pessoas trans tomem consciência das opressões que as patologizam e oprimem, da mesma forma que espero que mulheres, pessoas racializadas, imigrantes, etc também o possam fazer — e espero ser uma aliada sempre que possível. Porque não será de outra forma a revolução.

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