O adeus de Francisco

E foi aí que eu percebi qual deveria ser a natureza da luta política, em especial no que se refere a questões em que as gerações passadas estão majoritariamente contra as gerações mais novas. Havia um enterro ali, famílias a lamentar uma pessoa querida que se ia, algumas conversas. Gentes de cores, que afinal para essas coisas não há -ismos.

E então, um padre.

Branco.

E então Jesus, evangelho, mansão de deus, paz, as lembranças, a vida, o eterno.

E toda a gente, que não poderia se identificar etnicamente com o jesus branco que sempre lhes fora metido goela abaixo e-ou vendido, escutava atentamente as bonitas palavras do padre, e lhe perdoava a dificuldade na pronúncia do nome nipônico de quem causara aquela reunião.

Considerando ocasiões como esta, e em como a religião cumpre uma função amenizadora de dores, como eu poderia fazer a problematização da influência colonial, exercida de maneira frequentemente desumana, diante de palavras tão sensatas sobre perda, sobre esperança, sobre saudade?

Creio que o caminho está em estabelecermos uma separação, em nossos pensamentos e em nossa retórica (esta, o fuzil d@s que lutam com ideias), entre a porção útil e a porção problemática das ideias forçosamente herdadas. Devemos construir junt@s a vitória contra as ideias do colonizador e opressor vivendo dentro de nós, impingida através de gerações, sem deixar de atentar aos usos que @s oprimid@s dão a essas ideias numa busca por conforto, por consolo, por vida.

É uma linha tênue, sem dúvidas, mas o risco do exagero, de se criticar religiões e normatividades em excessiva acidez, é o da perda de aliad@s potenciais. Por outro lado, há o risco do deixa-disso, tão folcloricamente nosso, e que deixa os conflitos mornos e irresolvidos — até que a corda arrebente em assaltos violentos e sequestros, gerando datenices e insípidos movimentos cansados e brancos.

Acredito no questionamento incessante e cotidiano, sarcástico, irônico e lírico, que aponte as ridículas contradições em que eventualmente incorremos, imers@s que estamos nestas normas racistas, classistas, sexistas, generistas, teístas, culturistas, etc. Algo que deve ser feito com cuidado, e com o objetivo máximo de evitar arrebentares de corda que, ao final, conduzirão às batalhas finais, com a graça das tecnologias que reforçam nosso especismo pouco questionado.

E eis que Francisco, ali, inerte, tio-avô lembrado em memórias um tanto fora de foco, me conduzia a essas reflexões. E talvez fosse a gratidão por tudo isso que tornasse sua morte, perda indefinível a tantas pessoas, uma emanação de boa energia, desconstrutora da negatividade do fim da vida. Porque seu descanso era também oportunidade de gerações filosóficas.

Adeus, tio Francisco. E obrigada (embora você jamais me houvesse conhecido como viviane).

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