Não é preciso dizer que se é brancx

* escrevo este texto tendo em mente minhas limitações enquanto pessoa de origem étnica leste-asiática (japonesa) e branca (ibérica, provavelmente, e longínqua). Tentei, como usualmente tento, estabelecer alguns nexos com minhas vivências de gênero inconformes, a partir do entendimento de que, assim como cresci bastante com os ensinamentos das lutas raciais, seria possível ter uma perspectiva razoável da questão racial usando uma lente de gênero no pensar. Espero não haver cometido erros grotescos ou ofensas em relação axs negrxs e pessoas racializadas em geral, e ficaria feliz em prontamente corrigir e aprender caso tenha cometido algo do tipo.

Li com muito incômodo o pequeno e problemático artigo de Ferreira Gullar, ‘Preconceito cultural’ (http://t.co/M9koGGkx). Nele, Gullar defende seu posicionamento contrário à designação ‘literatura negra’, por ela aparentemente ser desnecessária e desagregadora — desnecessária porque não haveria autenticidade nesta expressão literária, desagregadora porque separaria literaturas inseparáveis, todas brasileiras, assim como nós somos todxs brasileirxs, iguais perante a lei blabla.

A autenticidade da literatura negra, segundo Gullar, é questionável quando contrastada a expressões artísticas africanas do início do século 20, àquele tempo chamadas de ‘arte negra’:

As esculturas africanas, trazidas para a Europa pelos antropólogos [1], eram tão “modernas” quanto as dos artistas europeus de vanguarda, já que fugiam a qualquer imitação anatômica. Foram chamadas de arte negra não apenas porque as pessoas que as faziam eram da raça negra e, sim, porque constituíam uma expressão própria a [sic] sua cultura[2].

A literatura de autorxs negrxs no Brasil, por ser supostamente herdeira de tendências literárias europeias, nã0 teria essa autenticidade de ‘expressão própria de uma cultura’. E o que seria autêntico, afinal, pois não existiu, assim como existe, uma variedade enorme de culturas negras interagindo entre si e com outros lugares do mundo? Quem determina as linhas desta autenticidade: xs antropólogxs, xs artistas europexs, ou Gullar?

Assim, ao mesmo tempo em que reconhece o valor dxs negrxs na formação cultural do país (embora de maneira tristemente estereotípica: “Ninguém hoje pode imaginar este país sem os desfiles de escolas de samba, sem a dança de suas passistas, o ritmo de sua bateria, a beleza e euforia que fascinam o mundo inteiro”), Gullar passa a negar a possibilidade de que, na literatura, essa contribuição possa ser autêntica enquanto manifestação negra, não havendo cabimento que xs negrxs que vieram [3], não tendo literatura (uma falácia generalizante, diga-se, já que havia uma diversidade significativa entre as civilizações africanas escravizadas, sendo várias delas letradas), pudessem criar algo que não fosse a partir das tendências literárias europeias [4]. É sintomático que Gullar esteja tão pronto a valorizar os desfiles, a bateria e a beleza ao mesmo tempo em que vira os olhos às pessoas escravizadas letradas do Brasil colonial.

Por sua vez, a suposta ‘separação’ de uma literatura negra é indesejável e sem sentido para Gullar porque “a contribuição dxs negrxs à cultura brasileira é inestimável, a tal ponto que falar de contribuição é pouco, uma vez que ela é constitutiva dessa cultura”. Separar a literatura negra seria simplesmente gerar uma disputa boba entre Pixinguinhas e Cartolas contra Jobins e Buarques literários, segundo esta visão, o que não me parece uma ameaça comparável às desigualdades sociais tão fundamentadas na questão racial deste país — seria, no máximo, uma matéria superficial feita pela mídia comercial, nada mais. Enfim.

Nesta linha de atribuição de méritos, Gullar reconhece grandes escritores negros ou mulatos (foram citados homens, somente), como Cruz e Souza e Machado de Assis. Porém, tendo sido “herdeiros de tendências literárias europeias”, Gullar lhes nega autenticidade suficiente para uma eventual proclamação de literatura negra, e não vê propósito na possibilidade desta proclamação valorizar a contribuição dx negrx à literatura do Brasil, afinal Machado seria o maior escritor brasileiro, e Pelé e Pixinguinha gênios do futebol e da música. Gullar parece não se dar conta de que falava de literatura ao mencionar os dois últimos, ou talvez não tenha se dado ao trabalho de procurar outrxs autorxs negrxs. Ato falho importante.

Deslizes de Gullar à parte, a frágil construção de que haveria uma divisão caso aceitássemos o termo literatura negra não se sustenta diante do fato de que não há oposição entre literatura negra e literatura brasileira. A literatura negra é literatura negra brasileira. Gullar falha ao não perceber que, embora Machado e Cruz e Souza houvessem recorrido a tendências literárias europeias, é justamente o fato de que eles as usaram como “veículo de seu modo particular de sentir e expressar a vida” que faz com que suas vivências, incluindo sua condição de pessoas racializadas em uma sociedade racista, criem uma literatura especificamente informada pela condição de oprimido na sociedade brasileira. Sendo, assim, uma literatura negra e brasileira.

Portanto, acredito ser necessário chamarmos a arte negra de arte negra, e a literatura negra de literatura negra, porque historicamente a arte foi arte branca, e a literatura, também literatura branca. E nunca foi necessário dizer isso, porque x anormal já é suficiente para definir x normal: reservam-se o escândalo, a surpresa e o escárnio àquelx, restando a indiferença da igualdade ou a reverência dx superioridade entre estxs. A afirmação da arte negra enquanto voz digna, autônoma e independente me parece crucial neste enfrentamento das supostas normalidades brancas; a histeria desmedida e branquela, um sinal de que uma ferida está sendo tocada, a ferida da superioridade normativa que, evidenciada, arde porque inaceitável num país supostamente não-racista para gente como Gullar.

Senão através da normatividade dominante, como compreender a prescindibilidade do uso de termos como brancx, cisgênerx, hetero? Em quantas ocasiões a mensagem, seja em qual mídia for (fala, gesto, tv, rádio, etc), é a de que estas são as existências normais-esperadas? Como consequência, aquilo que é tido como normal não necessita ser descrito, pois é subentendido. O normal é socialmente constituído e, dessa forma, compreendido por todxs, opressorxs e oprimidxs. E, se a branquitude é equivalente à normalidade, não é preciso dizer que se é brancx, nem mesmo para criticar aqueles que defendem o uso da expressão ‘literatura negra brasileira’.

Notas.

[1]- sobre a ‘arte negra’ do início do século 20, é interessante observar, aceitando a narrativa de Gullar, o fato mesmo de essa arte ter sido trazida por antropólogxs. Que condições fazem com que estas expressões artísticas não tenham sido apresentadas através dos canais artísticos tradicionais daquele tempo?

[2]- esta frase mascara uma premissa importante de Gullar. Dela se depreende, sem grande esforço intelectual, que a literatura negra brasileira não seria uma expressão própria à nossa cultura, isto é, que ela não refletiria experiências e perspectivas específicas dxs negrxs no país (ou que elas não fossem suficientes para pertencer a um ramo específico da literatura brasileira). E isto, parafraseando Gullar, só pode ser tolice ou má-fé, considerando-se a terrível história de opressão branca sofrida por tantxs brasileirxs negrxs.

[3]- expressão infeliz utilizada no texto. Xs negrxs foram trazidxs, é óbvio.

[4]- Gullar deixa barato, assim como usou eufemisticamente o ‘vir’ para xs escravxs forçadamente trazidxs de diversas regiões da África, o fato de que o desuso das línguas africanas nestas terras não foi fruto do acaso, ou de uma assimilação autônoma aos costumes ‘luso-brasileiros’, ‘coloniais’. Não foi assim com xs indígenas, não foi assim com as populações de descendência africana: a assimilação foi prática vil e opressora, pensada e entranhada nas carnes brancas que batiam, torturavam e restringiam, entre outras tantas coisas, o uso das linguagens tradicionais e o direito ao aprendizado da leitura.

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