Estigmas

Dia desses estive revirando umas coisas antigas, principalmente brinquedos, pois pensei em finalmente me desfazer deles para que, espero, outra criança possa se divertir. Não fazia sentido deixá-los acumulando poeira e se desgastando, mas isso acabou acontecendo, parte por apego ao passado, parte por inércia mesmo.

Numa dessas reviradas, encontrei algumas redações dos tempos de colegial que até havia procurado antes sem sucesso. Uma delas, em especial, chamou-me a atenção pelos paralelos que notei ao lê-la mais de 10 anos depois: há uma angústia nela que me faz pensar demais nas minhas percepções de gênero àquele tempo, e no quanto sofria por não compreendê-las além dos discursos dominantes (que nos consideram loucxs, aberrações, pecadorxs, etc.; fuck’em).

A redação é intitulada Estigmas, e foi escrita em 30 de maio de 2001. Fiz algumas pequenas modificações de estilo, mas nada significativo. A história tem vários buracos ainda… 🙂

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Estigmas

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Tudo lhe parecia irreal desde aquele nascimento indesejado, fruto de adultério descoberto e sua prova cabal. Foram-lhe roubadas a felicidade e a liberdade num repente insuportável, e noite não havia em que pelo menos duas horas fossem desperdiçadas num murmúrio revoltado. Indignava-lhe o azar que o escolhia, responsável por sua separação, por sua fuga ao deserto, e nada lhe remediava a dor que consumia seu peito. Nem o sorriso da menina a lhe acompanhar, fitando-o tão ingênua: ela lhe parecia inevitavelmente diabólica.

Era um dia como qualquer outro, em todo seu calor escaldante. E sequer lhe importavam meses ou anos: passavam-se-lhe lentos, rotineiros, e associados àquela criatura a caminhar a seu lado, eram o fardo que o levava a pesadelos e a desejos vis que ele não fazia questão de esconder da pequena. Nada, enfim, mudava num longo período de tempo: o mesmo sol escarlate, o mesmo vento cortante, o mesmo cansaço, a mesma infelicidade.

Contudo, ao crepúsculo desse dia, o andarilho e sua menina ouvem ruídos muito diferentes das corriqueiras ventanias e tempestades de areia. Parecem ser provocados por humanos, e vindos detrás de uma elevação. Desesperados, os dois arrancam um desconhecido sopro de energia para correr até a fonte do barulho. Não foi em vão: pai e filha deparavam-se com um alegre vilarejo, e o que ouviam ao longe eram resquícios dum festejo.

Os dois, então, olharam-se ternamente numa espécie de cumplicidade. A filha era sincera em sua alegria infantil, mas seu pai parecia mais tomado pelo momento, afinal tal ternura não lhe era usual. Nesse momento, então, decidiram procurar abrigo e conforto no vilarejo.

Estando exaustos, deixaram-se quase que arrastar na direção do povoado. Ao cruzarem com o primeiro morador de lá, foram olhados com tamanha expressão de horror que, caso pudessem, de lá fugiriam. A expressão do homem tinha suas razões, ou ao menos ele as alegaria caso questionado: desde o rebentar da pequena, restavam ainda algumas marcas ao pai, como um inchaço na perna e algumas cicatrizes no rosto, obtidas em ocasiões de emoções fortes. Porém, a menina era a maior responsável pelo pavor do homem: seus cabelos cobriam-na de tal forma que não se via seu rosto muito bem, e o pouco possível nada tinha de agradável, com diversas marcas e incongruências. Continuaram seu vagaroso caminhar, contudo, ainda que constrangidos.

Muitos olhares de espanto e até certas graçolas em voz alta depois, os andarilhos chegavam à região de maior movimento do vilarejo. Inútil dizer que não conseguiram qualquer coisa senão o escracho. Parece-lhes que dormirão como dormiam no deserto: ao relento. É preciso ressaltar, porém, uma sensível mudança na relação pai-filha desde a primeira reação à sua presença naquele local: de fato, ambos pareciam nutrir tanta cumplicidade que ninguém, por mais criativo que fosse, poderia imaginar o pai amaldiçoando sua filha por horas a fio, coisa que fazia constantemente. Certamente, essa cumplicidade devia-se à presença de um inimigo comum, que se lhes apresentava nos olhos e faces dos habitantes do povoado.

Já tendo desistido de abrigo, ambos começaram a se ajeitar no chão que lhes parecesse mais macio. Porém, ao notarem as intenções dos forasteiros, surgem vaias e gritos revoltados de todos os lados, indignados com aquele uso indecente do espaço público. A insurreição somente acalmou quando foram capturados os dois estranhos para exposição-humilhação em praça pública.

Foram dias e dias acorrentados, ouvindo todo tipo de infâmia e maldição, desconsiderando-se ainda os tomates, ovos e qualquer coisa que estivesse à mão atirados em seus corpos. Eis que um homem, postura imponente em relação aos demais — e por isso aparentemente uma autoridade local –, manda-os soltar. Soltos e esfarrapados, ouvem a proposta direcionada ao pai, um acordo macabro: a vida de um dos dois pela liberdade do outro. Deu-lhe um dia para pensar.

O pai, embora sentisse que não relutaria em sacrificar a filha noutros tempos, titubeava diante da proposta. A filha somente chorava, sentindo ainda as agressões dos dias presa às correntes. O tempo se esvaía, e nada foi decidido até a chegada da suposta autoridade local. Este, impaciente diante da indecisão paterna, decide afinal encarregar a menina da escolha, perguntando-lhe em tom seco:

— Entre ti e teu pai, quem preferes que viva?

Pensou brevemente na pergunta absurda.

— Meu pai. – respondeu. Ele é uma pessoa normal, não possui as ‘anomalias desgraçadas’, como ele mesmo diz, que tenho. É uma escolha lógica meu sacrifício: meu pai tem muito mais a oferecer a este mundo que eu, e minha morte seria uma compensação a tudo que eu o fiz passar.

O pai desata num pranto arrependido.

— A decisão já foi tomada. Em uma hora o senhor estará livre. Ao menos de nosso povoado.

Mandou levarem a menina.

Vendo o sorriso estranhamente sereno da menina ao sair, ele ainda implora por seu sacrifício, mas em vão. Sua filha morreria pelo pai que tanto a amaldiçoara, e tudo era irreversível. Caminhava por areias solitárias, quando se lhe foi crescendo tal ódio, tal asco de si próprio, que a única ação possível foi tentar se matar. E ele conseguiu, com ajuda de um objeto pontiagudo qualquer ao pescoço.

Ao nascer do dia seguinte, a menina, esganiçante, tenta acordar o pai, refestelado às areias do deserto.

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