O caminho transgênero – Uma introdução

No atual contexto histórico, em praticamente todas as culturas, a maioria de nossxs progenitores é afetada pela expectativa do gênero a que pertencemos até mesmo antes de nascermos. Esta expectativa tem como suporte a existência de um suposto binário de gênero, expresso à exaustão na exaustiva pergunta ‘menino ou menina?’; todo o demais seriam anormalidades, e esforços consideráveis são feitos para adequar bebês a esta dualidade construída, numa atitude frequentemente violenta (pensando aqui, por exemplo, nas pessoas intersex que têm seu gênero ‘definido’ por junta médica e família).

No entanto, os livros de história e mesmo nossa realidade contemporânea ensinam que há uma variedade de pessoas que experimentam vivências distintas das propostas por esse binário, mesmo nos momentos da mais terrível opressão fundamentalista de gênero [1].

Neste sentido, munidxs destas numerosas e ricas evidências desconstrutoras do suposto binário de gênero, podemos afirmar que, em realidade, o gênero somente pode ser interpretado e analisado como um vasto espectro, diversificado a tal ponto que existem tantas identidades de gênero quanto existem pessoas [2].

Para várias pessoas, expressar gênero é algo inconsciente, tão simples e natural quanto um arrumar de cabelos ou usar uma gravata. Não há angústia ou incertezas neste processo. Entretanto, para outras pessoas, cuja identidade de gênero não se conforma ao que lhes é determinado socialmente, entender e expressar gênero é algo complexo e difícil, dadas as opressões sociais que determinam o gênero de forma binária e associada ao biológico (à genitália em especial).

Muitas destas pessoas se identificam como transgêneras, um termo que abrange uma variedade de vivências de gênero consideradas ‘diferentes’, ‘incomuns’, ou não tradicionais [3]. Estas pessoas, muitas vezes, tomam difíceis decisões em suas vidas sobre quando, e mesmo se devem, contar e ser transparentes a respeito de quem são para si mesmas e diante de outrxs.

Esta transparência se expressa a partir dos momentos em que somos e vivenciamos nossas individualidades de maneira completa entre amigxs, família, colegas de trabalho e, às vezes, até mesmo estranhxs.

Cada umx de nós deve tomar suas próprias decisões sobre como enfrentar este desafio, respeitando as maneiras e os momentos que consideremos ideais para fazê-lo. É preciso tomar cuidado para não se culpar pela possível lentidão desse processo: a culpa deve ser sempre atribuída ao opressor, neste caso a sociedade cisgênera dominante e suas instituições e agentes. Assim, não há covardia em eventuais recuos estratégicos, mas sim uma percepção dos riscos envolvidos (violência física e psicológica, e até mesmo a morte), e dessa forma você deve sempre ser capaz de tomar a decisão autônoma sobre como, onde, quando e para quem você vai contar a respeito de sua identidade de gênero.

Esta série tem como objetivo apoiar você e pessoas próximas a você durante este processo, de maneira realista e prática, reconhecendo que a experiência de ‘sair do armário’ engloba uma variedade de emoções — desde um medo paralizante até uma euforia desmedida.

A Human Rights Campaign Foundation espera que este guia x ajude a encarar os desafios e oportunidades que uma vida tão autêntica quanto possível nos oferece [4].

Notas.

[1]- alguns exemplos históricos ilustram a existência de pessoas que não poderiam ser encaixadas nos conceitos dominantes de gênero em diferentes períodos: a heroína brasileira Maria Quitéria, a heroína francesa Joana d’Arc, xs dois-espíritos de diversas civilizações norte-americanas, e o imperador romano Heliogábalo.

[2]- ao argumento de que a distribuição supostamente seja mais concentrada nas proximidades dos extremos feminino e masculino e de maneira cis: em primeiro lugar, não há qualquer valor intrínseco ao que é mais comum — ainda que se lhe costume atribui-lo; em segundo, considerando-se as significativas pressões sociais para determinada adequação de gênero, não podemos saber se, em condições de liberdade, as expressões individuais seriam distintas. Somente neste momento ideal de liberdades de gênero e de sexualidade poderemos afirmar com algum grau de certeza que a maioria é cisgênera e heterosexual.

[3]- para mim, o uso de um termo identitário serve não para estabelecer limites e excluir pessoas, mas para agregar gentes que sofrem violências e opressões semelhantes, e definir demandas e resistências políticas. Neste sentido, duas colocações me parecem importantes: em primeiro lugar, o uso de transgênerx é feito dentro de um contexto determinado, sem desmerecer outros termos como genderqueer, intersex, travestis e transexuais, ou outros; e, em segundo, em um hipotético cenário de paz verdadeira, qualquer termo identitário será desnecessário, ou seja, é a sociedade opressora que define a necessidade da luta conjunta sob determinados nomes.

[4]- esta série é baseada no guia da Human Rights Campaign Foundation chamado ‘Transgender Visibility – A guide to being you‘ (‘Visibilidade Transgênera – Um guia para você ser você mesmx’, numa tradução livre do inglês), com adendos e comentários meus sempre que considere necessário. Dessa forma, a responsabilidade por eventuais erros e omissões é integralmente minha. O site da HRC tem vários outros recursos, em sua maioria na língua inglesa, e alguns na língua espanhola.

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