O caminho transgênero – Uma série

Faz certo tempo, venho pensando em falar sobre alguns aspectos da transgeneridade que considero importantes, numa tentativa de apresentar algumas ideias que me fizeram falta durante meu processo de descoberta, e que, ao menos até onde percebo, poderiam ajudar também outras pessoas. Estes aspectos são principalmente relacionados às normas sociais que, uma vez internalizadas, tornam angustiante a auto-descoberta enquanto pessoa trans (ou gênero-inconforme, que uso num sentido próximo a genderqueer), e às lutas externas por que a pessoa passa ao enfrentar estas mesmas normas sociais (rejeição social, violência, etc).

A ideia surgiu e se fortaleceu a partir da leitura do guia da Human Rights Campaign (HRC) chamado ‘Transgender Visibility – A guide to being you‘ (‘Visibilidade Transgênera – Um guia para você ser você mesmx’, numa tradução livre do inglês). É um documento super bacana, com orientações e informações sobre o processo de compartilhar e vivenciar a identidade transgênera (ou gênero-inconforme) com amigxs, familiares e sociedade, e meu propósito ao tê-lo em mente na preparação destes textos foi ter uma estrutura de temas a comentar e também trazer um pouco das minhas experiências e leituras relacionadas, especialmente no que diz respeito ao contexto brasileiro [notas 1 e 2].

Mais que tudo, pensei neste trabalho como uma possibilidade de demonstrar meu apoio e, quem sabe, alguma ajuda na vida de alguma pessoa transgênera ou gênero-inconforme — e espero incluir todas as individualidades marginalizadas (devido a sexualidade, raça, classe social, origem, etc.) sempre que possível, pois além de terem minha consideração visceral como irmxs de luta e aliadxs, o cerne de muitas de nossas angústias têm uma raiz comum, a inaceitação social em suas diversas formas e manifestações. Neste sentido, espero que a leitura dos textos possa refletir também sobre outras condições marginalizadas, para além do pensamento específico em relação à identidade de gênero.

E desconstruir e questionar esta inaceitação social é fundamental. Quantxs de nós, afinal, não sofremos por muito tempo sozinhxs, com tão pouco que nos legitimasse, despatologizasse, respeitasse, ou mesmo nos concedesse o direito à vida? Quantxs não foram vítimas da crueldade humana ao serem o que desejam-desejavam, ou mesmo ao serem vistxs como possuidorxs de desejos inaceitáveis — ainda que não o fossem, de fato? Quantxs de nós não pensamos ao menos uma vez, dadas as circunstâncias terríveis, suspender esta existência em constante questionamento dando cabo à vida? E, com tudo isto em mente, por quanto tempo teremos de suportar os discursos e práticas sociais, as instituições e as pessoas que perpetuam e mesmo exacerbam os mecanismos que levam tantas existências a tragédias pessoais gravíssimas?

Não nutro falsas esperanças de que erradicaremos a ignorância vil ou indiferente que a tantxs machuca e mata neste nosso tempo histórico, ou mesmo em qualquer tempo [3]. A proposta, entretanto, é trazer tanto o alento imediato quanto a consciência das dimensões sociais e políticas de nossos sofrimentos a quem está confusx com a incompatibilidade de nossos desejos mais íntimos (e, portanto, privados e soberanos) com as numerosas, coercivas e violentas normas sociais que nos rodeiam. Portanto, coloco-me humilde e encantada com a possibilidade de ajudar alguém aflito com as dinâmicas da identidade de gênero, e de ganhar umx aliadx na luta [4]. Afinal, para a superação dos elementos cisgeneristas, heterosexistas, classistas, racistas e especistas — entre outros –, precisamos ainda de muitxs lutadorxs e aliadxs. Se isto for alcançado em pelo menos um caso, terá valido muito a pena.

Notas.

[1]- Seria super legal que irmxs trans de outros países de língua portuguesa pudessem trazer suas perspectivas também.

[2]- Considerando que somente algumas pessoas sabem que sou trans no momento em que escrevo, e que minha percepção da transgeneridade somente se tornou mais forte há aproximadamente 4 anos (quando tinha 23 anos), há diversas limitações que sigo tentando superar através de conversas e vivências. Neste sentido, sei que provavelmente haverá omissões e erros que, espero, possam ser corrigidos, e se tornem aprendizado.

[3]- Tempos de muito sofrimento estão à espreita, possivelmente ameaçando a sobrevivência humana e de muitas outras espécies. Mas não se preocupem, que não existe nada ou ninguém para chorar nossa extinção: se não por que não passam de entes mitológicos, ao menos porque nem somos tão importantes assim — é até mais provável que gerássemos alívio com nosso sumiço.

[4]- luta que, diga-se de passagem, lutei muito pouco ainda. Houve um grande esforço de minha parte em uma luta mental de auto-aceitação e coragem, e só recentemente estou levando esta luta ‘para fora’.

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6 comentários em “O caminho transgênero – Uma série

    1. Olá Paula, obrigada! 🙂
      Pois é, e acredito ser sempre bom compartilharmos estas experiências, de maneira que não nos sintamos sós (tanto quem escreve quanto quem lê). É muito bom receber comentários como o seu.
      beijinho, vivi

  1. Oi, Vivi,

    Gostamos tanto do seu texto e da proposta da série que gostaríamos de publicar no nosso blog, aproveitando o 29/1, podemos? Indicamos sua autoria e pomos link para cá. Vc deixa?

    Vc pergunta por outros depoimentos pessoais… a gente ficou SUPER tocado por este do Jack, do Minoria é a Mãe, vc conhece? Aliás, é um blog novo, mto bom tb.

    Bj imenso.

    Cristiana
    Equipe Diversidade Católica

    1. Olá Cris! Tudo bem?
      Nossa, mas é claro que podem publicar…! Fico muito feliz com isso, de verdade.

      Eu vou tentar agilizar um pouco a tradução também… estou em um curso, mas vou tentar colocar pelo menos um outro texto.

      Não conhecia o blog Minoria é a Mãe, e o relato é sem dúvidas lindo. Embora não tenha desafiado as normas de gênero abertamente desde tão cedo (comecei só há uns 4, 5 anos), me reconheci em vários dos trechos.

      Beijão forte! 🙂
      vivi

      1. Nossa Cris, tinha visto seu comentário antes, e espero ter agradecido. Tinha pra mim que já havia respondido seu comentário, agora que vi que não… fiquei muito feliz pela menção. 🙂
        Beijos!! vivi

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