O caminho transgênero (02) – Abrindo-se consigo próprix

Desde o nascimento, a maioria de nós é criadx de maneira a se considerar dentro dos limites de certos moldes [1]. Nossas culturas e, frequentemente, nossas famílias nos ensinam que devemos nos apresentar e agir de certas formas.

Poucxs de nós somos ensinadxs que existe a possibilidade de se conceber uma identidade de gênero que divirja da associação gênero-corpo dominante [2 e 3], ou que podemos nos sentir atraídxs pela possibilidade de expressar nosso gênero de maneiras que não são dominantemente [4] associadas ao gênero que nos fora atribuído no nascimento.

Isso explica por que tantxs de nós tememos, nos preocupamos ou ficamos confusxs quando lidamos com essas verdades dentro de nós. É possível que passemos toda uma vida procurando escondê-las, até mesmo desejando — atentando contra nossos próprios desejos — que estas verdades sejam irreais ou que eventualmente possam se dissipar nos complexos caminhos da vida.

Não há um momento específico que se possa definir como ‘correto’ para ser aberto consigo próprix. Algumas pessoas transgêneras estiveram por muito tempo em uma vida que consideraram ser aquela que deveriam viver [5], ao invés da vida que, afinal, elas sabiam ser aquela que gostariam de viver. E outras pessoas acabam por questionar e reconhecer suas identidades e expressões de gênero de forma repentina.

Pessoas transgêneras ‘saem do armário’ durante todas as possíveis fases da vida: quando são crianças ou adolescentes, quando em idade avançada; quando casadxs, quando solteirxs; quando tenham filhxs, quando não xs tenham.

Algumas pessoas transgêneras ‘saem do armário’ simplesmente por terem a coragem de ser diferentes. Isso pode acontecer tanto para a mulher (cis ou transgênera) que se expressa de formas dominantemente consideradas masculinas, bem como para o homem (cis ou transgênero) que se comporte de maneiras dominantemente tidas como femininas. Para estas pessoas, muitas vezes não há muito significado no processo de ‘sair do armário’ através do contar ou abrir-se a outrem; elas vivem aberta e autenticamente através, simplesmente, da aceitação e expressão de suas diferenças.

Algumas pessoas transgêneras podem considerar desnecessário contar sobre suas identidades de gênero a outras pessoas. Algumas crossdressers, por exemplo, expressam esse aspecto de suas individualidades de maneira exclusivamente privada, considerando-a uma parte benéfica e enriquecedora de suas personalidades.

Outras pessoas transgêneras, ainda, podem ter uma percepção de gênero profundamente divergente da associação gênero-corpo dominante [3], e optam pelo estabelecimento de mudanças sociais e corporais que lhes pareçam mais adequadas. Essas mudanças são variadas, e incluem a requisição a amigxs, família e colegas de trabalho por um tratamento nominal e pronominal adequado à sua identidade de gênero, e mudanças corporais através de hormônios e-ou cirurgias. Para estas pessoas, o processo de ‘saída do armário’ pode ser crítico em suas vidas e extremamente estressante.

Como se percebe, considerando-se a diversidade entre as pessoas transgêneras, bem como seus diferentes contextos socioeconômicos, não há regras universais a serem aplicadas na decisão sobre contar ou não a outrxs a respeito desta parte de suas individualidades.

Entretanto, algo que todxs nós temos em comum, e isto se aplica igualmente ao resto da humanidade, é a necessidade de sermos abertxs e verdadeirxs conosco próprixs. Este pode não ser um exercício simples, em especial para aquelas pessoas cujas verdades atentem contra conceitos dominantes, porém é um dos caminhos mais fundamentais a serem percorridos na vida.

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Notas.

[1]- se pensarmos além da questão de identidade de gênero, podemos considerar a origem nacional-regional-étnica, religião, classe social, entre outros fatores, como moldes que orientam nossa formação social.

[2]- fiz uma alteração em relação ao original, que poderia ser traduzido assim: “Poucxs de nós somos ensinadxs que podemos ter uma identidade de gênero que difira do corpo em que nascemos […]”. Essa alteração se deve à minha percepção de que o corpo em que nascemos não define nada em relação a nenhuma identidade de gênero, e portanto não há lógica na afirmação de que pessoas trans têm uma identidade de gênero diferente de seu corpo. Assim, reafirma-se o caráter opressor do discurso dominante de que o corpo determina o gênero de alguém.

[3]- a associação gênero-corpo dominante, fundamentalmente, coloca a pessoa com pênis associada às masculinidades constituídas, e a pessoa com vagina associada às feminilidades constituídas. Note-se o caráter invisibilizador e opressor desta associação filosoficamente pobre, tanto àquelxs que divergem dela (pessoa com pênis que deseje associar-se às feminilidades), quanto àquelxs que sequer são contempladxs por ela (pessoas intersex).

[4]- substituo a expressão ‘tradicionalmente’ (traditionally) por ‘dominantemente’ de maneira a acentuar as opressões envolvidas nestes processos de imposição de gênero, refletindo ainda sobre a atribuição acrítica de valores positivos ao que seja ‘tradicional’, muitas vezes mascarando, nostalgicamente, o horror das fogueiras cristãs ou dos genocídios coloniais e pós-coloniais, por exemplo.

[5]- as decisões ligadas a essa conformidade com pressões sociais podem variar bastante de acordo com as circunstâncias específicas individuais e do meio. Por exemplo, esta conformidade pode ser tomada como uma estratégia pessoal soberana dentro de um contexto social problemático, ou, de maneira acrítica, como uma aceitação da realidade das coisas, ‘a vida é assim mesmo’.

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2 comentários em “O caminho transgênero (02) – Abrindo-se consigo próprix

  1. Muito bom, Vi! Tradução toda cuidadosa e meticulosa – incluindo correções, com as quais concordo. Acho que a questão do armário precisa ser mais discutida. Não concordo muito com a relatividade total na abordagem desse tópico, que é decisivo para xs transgênerxs enquanto grupo social com direitos a defender. Em alguns momentos, o direito à privacidade é inimigo das estratégias políticas do grupo. Não quer dizer que devemos desarmarizar ninguém “na marra”, mas que devemos sempre colocar a necessidade desse movimento, como uma etapa de auto-conhecimento e auto-aceitação. Quando escondemos nossa natureza, estamos concordando com o estigma.
    Beijo!
    Sonia

    1. Oi Sonia! Obrigada pelo comentário…! Espero que este fim de ano esteja indo bem!

      Sabe, eu oscilo na minha posição a respeito do armário, entre esta necessidade de se fazer parte da luta política e a consideração das diferentes circunstâncias sociais que levam as pessoas a ele (aliás, essa oscilação é parte da minha realidade pessoal também). Um argumento que considero forte em favor das pessoas no armário diz respeito à responsabilização última pelas opressões: são os opressores, na figura da sociedade dominante cisgênera e suas instituições, que devem ser culpadas, até mesmo, pelas situações que levam tantas gentes ao armário. Sendo assim, creio que o caminho seja cultivar esta consciência da opressão nas pessoas armarizadas, ao ponto que elas passem a ver o armário não como refúgio, mas tão somente outra instância da opressão diária que outras pessoas como elas sofrem. E elas poderão analisar se seguem estrategicamente no armário ou não, a partir disso — hoje a luta pode ser virtual, até.

      Ao fim, concordo com você, só queria enfatizar a criação dessa perspectiva crítica nas pessoas que estejam no armário, antes mesmo de uma ‘saída do armário por sair’ — que pode ter várias consequências negativas.

      Ainda sobre o armário: estive pensando sobre este conceito versus ‘o passar’ e, embora ainda não tenha lido o trabalho de Sedgwick (falha imensa), imaginei que o passar pode trazer umas dimensões mais amplas ao entendimento de algumas opressões. O passar engloba tanto as pessoas que se ocultam no armário (gays, bis, trans, intersex), quanto aquelas que ‘passam’, invisíveis, pelas ruas e outros ambientes sociais, e que em vários aspectos podem estar fora do armário. Por exemplo, penso numa crossdresser que passe como mulher na rua: embora no armário privado-familiar, ela traz para a rua um ‘micro-closet’ que oculta sua condição trans.
      E o ‘passar’, para mim, tira um pouco desse ‘estigma conceitual’ restrito às pessoas lgbti, podendo ser ampliado para várias outras esferas, como classe e raça. Pode-se perceber muito claramente, por exemplo, como a nossa classe média busca ‘passar-se’, em seu vestuário, costumes e até discursos políticos, pelas classes altas, ou como há uma tendência, mais ou menos consciente, de se ocultar afrodescendências (no cabelo, por ex).
      A partir do passar, acredito que seja possível articular uma crítica mais ampla, no sentido de desconstruir essas necessidades de ocultações, ao mesmo tempo em que se compreendam seus usos estratégicos.

      Só não sei se esta minha reflexão sobre o passar é viagem ou faz sentido…rs!

      Beijão!
      vivi

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