O caminho transgênero (04) – A decisão de contar para outras pessoas

Algumas pessoas transgêneras que decidem compartilhar suas percepções de gênero com outrxs chegaram a um ponto crítico em suas vidas em que é muito difícil, provavelmente doloroso, seguir escondendo (mesmo que estrategicamente) quem elas são.

Seja para uma crossdresser que se sinta carregando um imenso fardo ao esconder este aspecto individual dx companheirx ou filhx, seja para uma jovem lésbica que não se veja contemplada em nenhuma identidade de gênero, frequentemente pessoas cujos gêneros são inconformes-discordantes sentem a necessidade de compartilhar esse aspecto de suas vidas, de maneira a construir relações mais fortes e autênticas com aquelxs mais próximxs.

Há uma série de sentimentos envolvidos nesse compartilhar, e eles oscilam entre o medo, insegurança, culpa, vergonha, e o orgulho, alívio, coragem. É preciso muita serenidade para lidar com a intensidade e a potencial simultaneidade destas sensações, e esta tomada de consciência crítica pode levar tempo.

Depois deste processo, é comum haver um sentimento de grande alívio, pela quebra da necessidade de ocultação de individualidades e de outras barreiras a uma vida mais aberta e sincera. Entretanto, ainda que existam vários benefícios potenciais no contar, há também sérios riscos e consequências, resultado das opressões executadas pela sociedade dominante (diretamente associadas ou articuladas com gêneros: transfobia, sexismo, classismo, racismo).

Portanto, a decisão de contar para outras pessoas é sua, e somente sua. Lembre-se que não há uma maneira certa ou errada de compartilhar essa parte tão importante de você, ou de viver abertamente (por serem coisas tão controladas e restringidas pela sociedade dominante). Você tem o direito e a responsabilidade de decidir como, onde, quando e mesmo se você vai falar de suas identidades com outras pessoas, e para isto é fundamental ter conhecimento dos riscos e benefícios associados a essas decisões. Alguns deles são listados abaixo para referência:

. possíveis benefícios ao ‘sair do armário’:

  • uma vida mais autêntica e completa
  • relacionamentos mais próximos e genuínos
  • auto-estima elevada ao sermos reconhecidxs e amadxs pelo que somos
  • redução no estresse ligado ao esconder de individualidades
  • desenvolvimento de relações com pessoas de vivências similares às nossas
  • possibilidade de se tornar um exemplo para outras pessoas
  • construção de uma sociedade menos opressora para as próximas gerações

. possíveis riscos ao ‘sair do armário’:

  • incompreensão por parte de alguxs, inclusive próximxs
  • reações de choque, confusão e hostilidade
  • mudanças permanentes em relacionamentos
  • potenciais abusos, discriminações e violência
  • expulsão de casa
  • perda de emprego e-ou ocupação
  • perda de suporte financeiro da família

Finalmente, um outro conhecimento fundamental é saber que a luta política pela dignidade e autonomia de gênero (que a luta trans traz consigo) está do seu lado, e que toda e qualquer percepção e desejo de gênero que você tenha são um aspecto fundamental de nossos direitos humanos. Não há nada de errado, patológico, ou imoral nisso — por mais que tentem nos convencer do contrário. E, se compreendemos este apoio, nossos direitos soberanos e nossa força política, já estaremos de mãos dadas em direção a uma sociedade mais justa, mesmo que as forças contrárias nos tentem afastar dela.

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