Pensando a zorra

Bom, já faz tempo que não assito tv com consistência. Enfim. Mas minha família assiste. novela, jornal, qualquer coisa depois que chegam em casa do trabalho.

E nos finais de semana também. À noite, principalmente. E então se assiste ao zorra total, pelo menos uma parte quase todo final de semana.

Acontece que o programa não é só uma merda, ele é ofensivo. Ele é, fundamentalmente, o opressor ou mentes colonizadas fazendo pirraça dxs oprimidxs. E não posso pensar em outra coisa que não uma obsessão (sem a intenção de patologizar ninguém ; ) para explicar as supostas (palavra de moda entre jornalistas cuidadosxs) piadas com as transgeneridades.

Primeiro quadro: o ator que representa uma mulher transx e é acompanhado por uma atriz que se utiliza de artefatos para supostamente torná-la feia. Não sei se preciso necessariamente explicar os problemas dele (posso desenhar); talvez baste o fato de a namorada, estrangeira e não-falante do português, ter achado o quadro sem qualquer nexo, e eu ficar com vergonha de explicar.

Segundo quadro: há dois homens, supostamente cisgêneros, conversando em um metrô — espaço público e parte fundamental do direito insuficientemente coberto de transporte em áreas urbanas — com um ator representando uma pessoa queergênera (dado o contexto). O genial enredo é uma série de perguntas gênero-estereotipantes de parte dos homens — gentil e acriticamente respondidas pela pessoa queer — no intuito de desvendar seu supostamente verdadeiro gênero-sexo (nessa ligação dominantemente aceitável).

Terceiro quadro (é sério): duas mulheres supostamente cisgêneras conversam. (o resto acho que foi assim, vi de relance) Uma delas chora, e diz que seu marido gosta de se vestir de mulher. A outra diz algo no sentido de que é normal, as pessoas andam fazendo ‘essas coisas’ hoje em dia. E a que chora adiciona que agora elx foi além (pelo que entendi, que elx deve ter ‘mudado de sexo’). E aí vem a marotice infantil do quadro, um cara com ombros artificialmente alongados oferecendo-o para consolar a (ex-?) exposa.

Enfim, pode-se dizer que são somente piadas, que são personagens, blabla. Isso não muda o fato de que são pessoas vistas, percebidas, lidas de maneiras semelhantes às personagens da mulher transx, da queergênera, dx (ex-?)marido-esposa, que no mundo real não tem empregos compatíveis com suas qualificações, que têm na prostituição uma proporção muito maior de pessoas que a proporção de pessoas cisgêneras, que são assassinadas por suas sexualidades ou identidades de gênero proibidas-censuráveis por valores cristãos ou cristão-inspired. Ou seja, fodam-se suas desculpas jocosas e sem caráter; estou falando destas, e principalmente para estas pessoas, que podem ou não estar longe de suas (é, você mesmx) próprias famílias (palavra de moda em propagandas de bancos, supermercados e igrejas de hoje), e sofreram, sofrem ou potencialmente sofrerão com as consequências das opressões da sociedade dominante.

Gosto de quando a teoria queer faz uma crítica dos exageros identitários (essa coisa de ‘quem é verdadeiramente trans ou whatever’, ‘quem representa e quem não representa’, etc, ou seja, questões que simplificadamente chamaria internas). Eu tenho uma ligeira impressão, e quero estudar mais para verificar, que falta explicitar um aspecto na geração social das identidades: elas são criadas, de maneira frequentemente violentas, pelxs opressores. São eles (uso ‘e’ porque a sociedade é patriarcal) quem geram a exclusão e a diferença, que nos chamam de desviados, queers, fags, bichonas ou bichinhas, putos, paneleiros, maricones. Muitxs lutam contra (e são mortxs por) isso, tantas vezes reapropriando  e recriando terminologias que permitam uma luta de resistência. E às vezes os termos são praticamente o máximo que se obtém, em muitos lugares, esta perspectiva de um nome que não traga uma conotação negativa, o que só parece pouco para quem não precisa lidar ou já esqueceu de como lidou (se é que lidou) com o problema de não se identificar com dignidade.

Por isso meu ceticismo e cautela na hora de criticar aliadxs que se encontram debaixo das identidades. Eu mesma tenho dificuldades em encontrar uma — talvez transgênera, por seu uso contemporâneo abrangente –, mas minha escolha sempre será junto àquelas pessoas que são chamadas de bicha, de viadinho, de sapatona, e os etcs que conhecemos. É claro que eu espero que meninas trans não tenham portas fechadas em locais feministas, e que o meio queer-lgbttiq (intersex-questioning, acho que li isso n’algum lugar) não tenha o foco tão forte para o homem gay branco classe-média (critico o foco, não a luta), mas acho que isso é feito melhor numa conversa amigável (espero) que na animosidade política. Não precisamos replicar a sociedade dominante na maneira que resolvemos nossos problemas.

Mas divago. Pensei na teoria queer porque é essa sociedade dominante representada no zorra total que nos traz estas identidades limitadas e limitantes, não somos nós próprixs queers-lgbttqi. E então as críticas feitas pela teoria queer em prol de uma maior fluidez na sexualidade e no gênero ficaram muito mais fortes, com esta consideração de que as limitações identitárias residem nos opressores, não nxs oprimidxs (uma consideração, aliás, de inspiração anti-colonial, algo que quero pensar noutro post).

Mas foi bem amarga essa percepção. Espero não precisar assistir ao zorra total de novo para reaprendê-la.

Que bom estar ouvindo esta música hoje.

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2 comentários em “Pensando a zorra

  1. Acho que estereótipos são discursos e como discursos são mais fluidos e mais contagiantes: perpassam desde os opressores aos oprimidos.
    Em cada performance na comunidade gay ou no boteco tacitamente hetero, esses estereótipos são reanimados/reproduzidos.
    Não tiro o poder da opressão dos opressores, obviamente, mas o discurso estereotipado reina por todos os lugares e, infelizmente, é (re)gerado pelos oprimidos também. Mudar isso é justamente um dos passos que temos para virar o jogo da opressão.

    Gostei das reflexões.
    Fiquei curioso para saber sua opinião sobre a querela feminista envolvendo o primeiro quadro e a questão do assédio sexual e estupro sempre presentes em algum momento da interação entre as duas personagens (que já se tornaram as mais populares de todo o programa, ganhando mesmo um DVD próprio para o quadro).

    Beijos,
    Alê

    1. Oi Alexandre! Finalmente respondendo seu comentário!
      Concordo que tanto opressores quanto oprimidos estão, e são, sujeitos à constituição dos estereótipos. E não sei se a ideia seria propriamente abandonar e evitar os estereótipos a todo custo (especialmente ‘nas internas’, entre pessoas marginalizadas), mas talvez utilizá-los como armas no combate às opressões. Para isso, é preciso mente crítica e subversiva — para evitar, por exemplo, um Aguinaldo Silva que já parece feliz em incluir um personagem gay em sua novela (porque isso é inclusão relativamente aceita, brincando com os estereótipos populares ao invés de subvertê-los).

      Mas é uma linha tênue, e reapropriar termos ou práticas discriminatórias requer um processo intelectual e sentimental forte.

      Sobre a questão feminista crítica ao programa zorra total, estou de acordo com elxs pelo fato de estas representações trivializarem estas situações de violência, dando-lhes um verniz de ‘ah, acontece mesmo, homens bobos e feios’. E não vejo nisso ‘policiamento do humor’, porque este somente pode ser feito com maestria se associado a uma elaboração intelectualmente crítica, o que passa bem longe desses programas de tv como zorra total e a praça é nossa. Fazer humor de maneira pobre e ofensiva é um crime duplo contra as boas mentes.

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