O caminho transgênero (05) – Mudanças corporais e sociais (ou: transição)

É importante sempre ter em mente que o termo ‘transgênerx’ é amplo e utilizado para descrever e aglutinar politicamente pessoas que expressam seus gêneros de maneiras diversas, cada uma tão autêntica quanto as demais.

Para muitas pessoas transgêneras ou gênero-inconformes, o processo de mudanças sociais e corporais, frequentemente denominado transição, traz uma forte sensação de exposição pessoal, e a decisão de se abrir com outras pessoas se torna especialmente crítica em nossas vidas.

Este processo de mudanças não necessariamente envolve tratamentos médicos. Através do uso de vestuário e acessórios preferidos (e socialmente associados a gêneros cujas possibilidades estão restritas a todas as pessoas, cis ou trans), de exercícios físicos, de performances de gênero desejadas, ou de negociações com amigxs e familiares para um tratamento respeituoso de autonomias individuais, pessoas transgêneras se utilizam de saídas independentes do poder institucional da medicina, psicologia ou justiça para viver suas identidades e expressões de gênero [1].

Há muitas pessoas transgêneras que recorrem a tratamentos para tornar sua estética corporal mais próxima do que consideram ser seu gênero. Estes tratamentos podem incluir terapias hormonais e cirurgias [2].

Em diversos lugares no mundo, as diretrizes clínicas aceitas para pessoas transgêneras que desejam realizar a ‘transição’ são conhecidas como ‘Padrões de Cuidados’ (Standards of Care), desenvolvidos pela Associação Mundial Profissional para a Saúde Transgênera (no inglês, WPATH, previamente conhecida como Associação Internacional de Disforia de Gênero Harry Benjamin), uma organização profissional amplamente reconhecida dedicada ao entendimento e tratamento de ‘desordens de identidade do gênero’ [3]. Mais informações sobre os ‘Padrões de Cuidados’ da WPATH podem ser encontrados online no site www.wpath.org .

Uma outro protocolo utilizado para tratamento que tem se tornado crescentemente comum é o ‘Consentimento Informado’ (Informed Consent, fiz uma tradução livre que não sei se correta). Através deste protocolo, pessoas transgêneras são informadas dos efeitos e riscos relacionados ao(s) tratamento(s) médico(s) e então afirmam formalmente seu consentimento, em um processo similar ao de outros procedimentos médicos. Outrxs médicxs supervisam ‘transições’ através de uma combinação de ambos protocolos.

[alguém saberia dizer da situação no Brasil?]

Independentemente de como uma pessoa vive sua identidade de gênero, o processo de ‘transição’ pode significar uma exposição bastante pública, envolvendo o contar para família, amigxs, empregadorxs e profissionais da área médica. Para a maioria das pessoas transgêneras, a ‘transição’ não é algo que se possa ocultar de todas as pessoas devido à própria natureza do processo.

Processo que pode envolver a consulta a uma diversidade grande de pessoas da área psicológico-médica — de psicólogxs a psiquiatras, cirurgiãxs, endocrinologistas e fonoaudiólogxs [4]. Se possível, é essencial encontrar profissionais próximos ao lugar onde se vive que tenham experiência na orientação a pessoas transgêneras. Caso não haja ninguém próximo — o que é provável, dada a escassez destes profissionais no Brasil –, é possível, ainda que arriscado, tentar encontrar umx profissional que esteja disposto a aprender e estudar sobre as necessidades das pessoas transgêneras [5].

Algumas questões possíveis para serem feitas a umx profissional da saúde:

– Você já orientou pessoas transgêneras antes?

– Você tem experiência e conhecimento em tratamentos hormonais apropriados para pessoas transgêneras?

– Qual protocolo de tratamento você utiliza na orientação a pessoas transgêneras?

Lembre-se de fazer uma pesquisa antes de confiar em umx profissional. Mesmo médicxs que assessoraram pessoas transgêneras no passado podem não ser versadas no processo de ‘transição’ — ou nem mesmo terem visões adequadas sobre gênero e sexualidade. Há diversos grupos e organizações que podem oferecer ajuda nesta pesquisa. É fundamental atuar como sua-seu próprix advogadx no que se refere à sua saúde.

Ainda que este guia seja destinado primariamente para pessoas transgêneras que estejam nas fases iniciais do contar e compartilhar sobre sua identidade de gênero, algumas delas podem enfrentar este processo outra vez após a ‘transição’, diante de novxs amigxs, família e colegas de trabalho.

Algumas pessoas transgêneras optam por viverem sem compartilhar, ou compartilhando de maneira bastante restrita, sua identidade de gênero.  Outras pessoas transgêneras acreditam que serem abertas sobre suas vidas e estórias pode lhes trazer segurança e auto-afirmação, similarmente ao que fazem diversas pessoas lésbicas, gays e bissexuais. Algumas até decidem se tornar ativistas pelas transgeneridades, compartilhando suas vidas e experiências em entrevistas, escolas e grupos.

Os próximos posts pretendem ajudá-lx a decidir quais são caminhos desejáveis ou possíveis para você, não importando em que ponto de sua jornada você está.

“Você tem o direito e a responsabilidade de decidir como, onde, quando e mesmo se você vai compartilhar sua identidade de gênero com outras pessoas, fundamentadx naquilo que é correto para você.”

.

Notas.

[1]- a proposição de que é possível viver o próprio gênero independentemente das instituições citadas não é incompatível com o importante papel que estas possam cumprir: caso não busquem impor esquemas cisgênero-binários e-ou patologizantes a pessoas cujo gênero lhes seja inconforme, tais instituições podem cumprir um fundamental papel de defesa de direitos e assessoria a essas pessoas. As condições atuais, entretanto, seguem eivadas de pressupostos cisgênero-supremacistas, ainda que haja lutas importantes de gentes dentro e fora dessas instituições.

[2]- faz-se necessário enfatizar, no entanto, que muitas pessoas cisgêneras também recorrem a tratamentos que alterem sua estética corporal, notando ainda as diferenças existentes na consideração social destes tratamentos para pessoas transgêneras e cisgêneras: para aquelas, impõe-se a necessidade de laudos e autorizações, enquanto para estas o acesso a tratamentos se dá com assessoria de profissionais médicos, mantendo-se sua autonomia na decisão por realizá-los ou não.

[3]- o uso do termo desordem implica uma ordem, uma ordem que em minha opinião somente pode ser a cisgênera. Como a percepção de senso comum é de que a ordem é preferível-desejável em relação à desordem, decorre daí uma lógica cisgênero-supremacista que inferioriza aquelas pessoas que, de acordo com preceitos médicos, são consideradas ‘desordenadas’, ‘transtornadas’. Por isso evito ou ao menos matizo criticamente o uso do termo desordem, embora o manual da HRC em que a série se baseia o utilize. Para mais informações sobre os usos que faço do manual, favor ler o início da série.

[4]- consultas que não vejo necessariamente como problemáticas. A crítica fundamental que tenho, no entanto, é em relação à dominação, ao controle detido por um dos lados na determinação-autorização do desejo individual, algo que ainda persiste de maneira mais, ou menos, velada.

[5]- espero que você sempre tenha em mente que a sua existência é de uma dignidade inviolável, e que é consagrada pelos Direitos Humanos, mesmo que tantas pessoas se sintam com o poder e o direito de pisotear estes Direitos conforme suas percepções religiosas, médicas, ideológicas. A luta segue.

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