O caminho transgênero (07) – Tendo ‘a’ conversa

É comum desejar e esperar que as pessoas reajam de maneira positiva à ‘novidade’ de que você não se identifica com um gênero cis e normativo [1- você espera isso porque, afinal, não há nada de mais ou de mal nisso], mas é possível que esta reação não aconteça imediatamente [2- se acontecer]. Busque se colocar na situação da pessoa que recebe a informação para tentar compreender suas reações, questões que possam surgir e os próximos passos a seguir, para cenários positivos e negativos.

A pessoa a quem você conte ser transgênerx pode se sentir:

  • Surpresa
  • Honrada
  • Desconfortável
  • Temerosa
  • Insegura sobre como reagir
  • Desconfiada
  • Empática
  • Cética
  • Aliviada
  • Curiosa
  • Confusa
  • Nervosa

Você pode tentar dizer para a pessoa que essas são reações naturais, e que ela pode fazer questões se tiver dúvidas. Em geral, as pessoas buscarão sinais em você que lhes indiquem como lidar com o tema; sendo assim, caso você seja honestx e abertx, as probabilidades de receber honestidade e abertura são maiores.

O humor, se utilizado de maneira adequada e gentil, também pode ajudar todas pessoas envolvidas, reduzindo a ansiedade da conversa. Sempre se lembre de lhes dar tempo para absorver as informações, pensando em quanto tempo você mesmx levou para chegar ao ponto em que está. Elxs também podem precisar de certo tempo para lhe alcançar nos conhecimentos sobre gêneros.

A decisão de quando e onde ‘sair do armário’ é sua e somente sua. Esta ‘saída do armário’ é somente um passo no caminho em direção a uma vida livre.

Contando aos pais

Independentemente de sua idade, você pode temer que seus pais x rejeitarão caso você lhes diga que é uma pessoa transgênera. A boa notícia é que a maioria dos pais é capaz de chegar a um ponto de entendimento que seja razoável. É possível que alguns realmente não entendam muito sobre o tema, mas outros podem surpreender e até se tornarem ativistas. Entretanto, se você tem menos de 18 anos ou é financeiramente dependente de seus pais, considere a decisão de lhes contar sobre sua transgeneridade com bastante cuidado.

Algumas reações para as quais é bom estar preparadx:

  • Pais podem reagir de maneiras que machucam bastante. Eles podem chorar, se irritar ou se sentirem envergonhados.
  • Alguns pais precisarão se desapegar dos sonhos que tinham para você antes de conhecerem esta individualidade nova e mais genuína que você está construindo.
  • Alguns pais podem dizer coisas como, ‘Bem, você será sempre uma filha para mim — nunca um filho’. Ou eles poderão ser resistentes às maneiras que você expressa seu gênero. Pode levar tempo até que eles se acostumem a lhe ver como você sabe que realmente é.
  • Alguns pais podem se perguntar sobre ‘o que houve de errado’ ou sobre ‘o que causou isso’. Assegure a eles que eles não fizeram nada de errado, e que não ‘causaram’ a sua transgeneridade.
  • Algumas pessoas podem considerar a individualidade transgênera como pecado ou tentar lhe enviar a umx terapeuta ou ‘profissional’ com a expectativa de lhe mudar [3].
  • Alguns pais ou parentes podem já ter desconfiado de que você seja uma pessoa transgênera. Para algumas dessas pessoas, ouvir você dizê-lo pode até trazer uma sensação de alívio.
  • Positivas ou não, as reações iniciais de seus pais podem não refletir os sentimentos deles no longo prazo. Tenha em mente que estas são informações importantes e profundas e não há uma temporalidade definida para o ajuste em que seus pais podem precisar trabalhar.

Contando axs companheirxs

Um dos maiores motivos que levam pessoas transgêneras a não ‘saírem do armário’ é o medo da reação de umx companheirx. Elas se perguntam se seua companheirx pediria o divórcio ou, de repente, as deixariam de amar.

A boa notícia é que o amor dificilmente cessa de maneira abrupta. Entretanto, mesmo um relacionamento construído com um amor bastante forte pode ser desafiado e desestabilizado quando uma das pessoas se apresenta como transgênera. Em vários casos, a separação pode ser inevitável: x companheirx pode ter dificuldades em confiar nx outrx que manteve parte importante de sua individualidade em segredo, ou não serem mais capazes de manter um relacionamento romântico com uma pessoa em transição [4]. No entanto, há muitas outras pessoas que se decidem por manter seus relacionamentos: cada vez mais casais e famílias seguem juntas durante a ‘transição’, e dizer-se transgênerx àquelxs que mais lhe importam não necessariamente significará separação.

Antes de contar a umx companheirx, é importante ter em mente que elx precisará de tempo e paciência — da mesma forma que você precisaria de tempo e paciência para compreender seus próprios sentimentos. Aconselhamento pode ser algo útil para muitos casais, bem como conversas com outros casais que passaram por situações similares.

Contando a crianças

Não há uma maneira correta ou incorreta de se ter essa conversa. ‘Sair do armário’ com crianças pode ser uma tarefa apavorante. Dependendo de sua(s) idade(s), você pode estar preocupadx com uma possível rejeição por parte delas ou com sua segurança caso elas contem a amigxs.

Se você tiver umx companheirx ou ex que está envolvidx na vida de sua(s) criança(s), pode ser interessante ter uma conversa junto a elx, se possível. Ou talvez seja uma boa ideia envolver um avô ou avó na conversa. A(s) criança(s) podem ter questões que ela(s) somente se sinta(m) bem em fazer a terceirxs, por medo de machucá-lx. Crianças mais velhas, especialmente, podem precisar de mais tempo para digerir as novas informações antes que consigam conversar a respeito.

Também pode ser positivo procurar uma terapia familiar para trabalhar os sentimentos dxs envolvidxs. Dar a oportunidade a suas crianças de conversar com filhxs de outras pessoas transgêneras pode ajudá-las enormemente.

Notas

[1 e 2]- inseridas no texto.

[3]- uma das lutas importantes a serem travadas pelas pessoas transgêneras (e, de diferentes maneiras, por outros grupos marginalizados) é contra estes conceitos religiosos equivocados e intelectualmente pobres, bem como contra supostos ‘profissionais’ de premissas falaciosas e simplistas, com receitas de conserto do que não se conserta, mas se celebra: as múltiplas possibilidades de existências individuais.

[4]- no entanto, considero importante ressaltar que você, como pessoa que se abre como transgênera, deve pensar criticamente sobre este ‘segredo’ que fora guardado dx companheirx: é comum atribuir-se uma culpa e uma traição a esse segredo que, em minha opinião, precisa levar em conta outros elementos, como a abertura apresentada pelx companheirx a realidades de gênero inconformes (porque tantas vezes é notória a opressão cisgênera em relacionamentos), bem como o peso que é socialmente colocado sobre nossas individualidades de gênero. A partir daí, pode-se tomar o compartilhar desse segredo de maneira mais complexa e empática, percebendo como, em geral, há fortes mecanismos sociais levando ao segredo como alternativa.

Por outro lado, em relação a relacionamentos amorosos durante a ‘transição’, acredito que estar neste processo não deve significar estar em reparo, como numa oficina mecânica, indesejável, abjetx. É legítimo pensar que algumas pessoas não irão querer se relacionar com alguém em ‘transição’, ou com alguém trans, bem como é legítimo pensar que outras pessoas vão, sim, querer se relacionar com essa pessoa.

O processo de transição pode também ser visto como um período de grande elevação espiritual e de crescimento pessoal. Mesmo as marginalizações sociais — que vão se tornando mais frequentes conforme se esteja mais ‘out’ — podem servir ao esclarecimento da realidade do mundo, suja e indignamente cruel. A partir dessa nova perspectiva, há o potencial de geração de uma consciência crítica, e uma atuação mais iluminada no mundo (se se permite o uso mais coloquial da ‘iluminação’). E passar por este processo, creio, nos torna pessoas muito mais atraentes, em todos seus sentidos — desde que, no olhar dx outrx, haja uma compreensão e uma superação dos estereótipos e pré-conceitos em relação às pessoas trans.

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