de mulher cis pra mulher trans

Ah, mas você é toda hormonizada, né, gatan.

Você é toda hormonizada também, querida, se é que não sabe.

Mas aqui é natural, né.

Tão natural quanto os remédios que toma. Ou os agrotóxicos que ingere. Garanto que se você, naturalmente, não tivesse os hormônios ditos femininos em níveis ‘adequados’, seus hormônios sintéticos não seriam foco de tanta conversa, tantos laudos, tantas tentativas de enquadramento. Ou melhor, você, quase sem saber por que quer, se submeteria a essa transição ‘trans-cis’ (se se permite um uso curioso da trans e cisgeneridade), e é intrigante como é fácil se ajustar ao quadradinho.

E esse siliconão, então.

Pois é. Tão artificial quanto o que tantas outras mulheres cisgêneras colocam. E até morrem por isso, veja você [1]. Mas aí não parece haver problema. Ou melhor, há: quanto mais aparente a mudança estética, para mais longe a pessoa é jogada no beco de mulheres vulgares, supérfluas, blabla.

Ré, ré, mas e lá embaixo, o meu é de fábrica.

É curiosa a premissa de que o meu não seja. Não trabalharei com ela, tampouco a negarei. Enfatizarei que sua postura é tão-somente a exibição de seu privilégio como pessoa cisgênera, algo que lhe parece agradar imensamente, considerando-se a volúpia presente no esfregar de mãos.

Notas

[1]- lógico que são outras circunstâncias, mas construir a ponte entre bombadeiras e doutores plásticos é possível, com tantas pedras de opressão contra pessoas trans, e tantas outras microagressões  de que grande parte das individualidades trans é vítima.

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5 comentários em “de mulher cis pra mulher trans

  1. Adorei Viviane! Você já leu Kate Bornstein? Se não recomendo. Além dos livros ela tem palestras publicadas no youtube, vale a pena procurar.

    Aqui a minha traduçãozinha tosca de um trecho do livro Gender Outlow dela:

    “Vamos continuar observando. O que faz um homem – testosterona? O que faz uma mulher – estrogênio? Se assim, você poderia comprar seu gênero no balcão da farmácia. Mas nos disseram que lá há essas coisas chamadas hormônios “masculino” e “feminino”; e que a testosterona domina o balanço de gênero hormonal nos machos de qualquer espécie. Não realmente – hienas fêmeas, por exemplo, possuem naturalmente mais testosterona que os machos; o clitóris feminino é similar a um pênis muito longo – as fêmeas montam os machos por trás, e inicia a transa. Enquanto algumas fêmeas humanas que eu conheço se comportam em muito, da mesma maneira da hiena fêmea, o exemplo demonstra que a chave universal do gênero não é hormônios.”
    http://www.herege.org/content/tocando-em-todas-bases

    1. Que bacana, Aline!
      Eu já havia lido referências a Kate Bornstein, e justamente a esse livro. Gosto dessa perspectiva que você aponta no texto: é preciso desnaturalizar a cisgeneridade.
      Beijos!
      vivi

  2. “É curiosa a premissa de que o meu não seja. Não trabalharei com ela, tampouco a negarei. Enfatizarei que sua postura é tão-somente a exibição de seu privilégio como pessoa cisgênera, algo que lhe parece agradar imensamente, considerando-se a volúpia presente no esfregar de mãos.”

    Sobre essa parte, gostaria que você comentasse mais. Vou simular algumas perguntas que poderiam ser feitas. Você poderia responder?

    1) O que você responderia a alguém que dissesse que, não importa o quanto você faça cirurgias, seus genes continuaram a ser XY?

    2)Uma transsexual, por mais que tenha a aparência feminina, é intrinsecamente incapaz de conceber uma vida em seu ventre, diferente de uma mulher XX. O que você comentaria? (Entenda que uma mulher XX pode até ser estéril, mas ela será uma exceção. Já uma trans é, por seu próprio corpo, incapaz de gerar uma vida em sua própria barriga).

    De modo algum falo isso pra ofender. Interesso-me bastante por essas questões e gosto de estudá-las pra ter respostas a quem quer que um dia me pergunte.

    1. Olá Ricardo,
      Obrigada pelos comentários!
      O trecho que você destacou, respondendo à alegação da mulher cisgênera de que a genitália dela é ‘de fábrica’, começa criticando a premissa de que se é possível-adequado fazer inferências sobre as genitálias das pessoas. Como as existências cisgêneras são dominantes, estes processos lógicos são postos em destaque ao se considerar uma pessoa transgênera (isto é, inferir que um homem cis tenha pênis não é algo que geralmente mereça menção).

      A intenção da mulher trans, neste caso, é também deixar a ‘dúvida’, quando ela nem aceita nem nega a possibilidade de ter realizado algum procedimento cirúrgico em sua genitália. Deixando, assim, espaço livre para fazer uma crítica ao privilégio cisgênero de se conferir um suposto valor na adequação de sua genitália à sua identidade de gênero, estando acima de uma mulher trans ‘operada’ e ainda mais de uma mulher trans ‘não-operada’, que em algumas visões dominantes equivocadas não seriam mulheres.

      O ‘esfregar de mãos’ foi uma alusão ao gesto que imaginei da mulher cis, por cima de sua calça jeans.

      Às suas perguntas:

      1) À pessoa que inferisse que minha carga cromossômica é XY, eu diria que infere sem saber, afinal nem eu a conheço. Por outro lado, é preciso compreender que o apego à carga cromossômica não se difere fundamentalmente do apego à genitália: é uma outra maneira de buscar catalogar gêneros, de preferência mantendo a cisgeneridade em posição superior e-ou natural. Há uma variedade considerável de cargas cromossômicas, para além de XX e XY; aliás, Ricardo, você conhece a sua?

      2) Bom, comentaria que a reprodução não precisa seguir preceitos cisgêneros para existir. Uma mulher transgênera poderia ter umx filhx com uma mulher cisgênera, ou um homem transgênero, por exemplo — bastaria ela não passar pela cirurgia de redesignação sexual, ou ter sêmen conservado. Por outro lado, um homem transgênero poderia ter umx filhx com um homem cisgênero, ou uma mulher transgênera. E, sim, haverá casos em que a pessoa seja estéril, assim como os há entre pessoas cisgêneras (e que você, interessantemente, aponta como exceções; creio que poderíamos desconstruir essa assimetria entre as capacidades reprodutivas cis e trans).

      Espero que possamos seguir no diálogo a partir daí, Ricardo! Não houve, ou não percebi ao menos, nenhum sentido ofensivo em suas perguntas; pelo contrário, gostei do que você trouxe.

      Beijos,
      vivi

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