O caminho transgênero (11) – Glossário

[atualização (01-mar): após comentários ótimos de S.L. — obrigada!]

[atualização (02-mar): adicionando referência sobre a questão das ‘categorias’ travesti e transexual, após comentário de A.R. — obrigada!]

Muitas pessoas evitam conversar a respeito de identidades e expressões de gênero por acreditarem se tratar de um tabu ou por estarem com medo de dizer algo ofensivo ou incorreto. Este glossário tem o objetivo de trazer uma primeira compreensão das palavras e conceitos bastante comuns, para que conversas fluam mais facilmente [1].

identidade de gênero – o(s) gênero(s) que uma pessoa reivindica ou percebe em si mesma, e que pode(m) ou não estar de acordo com as premissas pênis-homem e vagina-mulher, incluindo aí pessoas cuja genitália não se restringe ao binário de pênis e vagina.

expressões de gênero – as formas através das quais uma pessoa se comporta ou se apresenta em relação a expectativas sociais de gênero.

orientação sexual – refere-se à atração emocional, romântica, sexual e afetiva que uma pessoa possa ter por outra. As diferentes orientações sexuais se referem, geralmente, ao sexo desta pessoa-desejada (homo, hetero, bi, ou assexuais) [2]. A orientação sexual é independente da identidade de gênero que uma pessoa pode ter — embora possa haver interações entre elas.

transição – o nome corrente para um conjunto de mudanças sociais e corporais através de que pessoas transgêneras passam a viver o(s) gênero(s) com que se identificam, ao invés do que lhes fora imposto desde o nascimento. Este processo pode ou não incluir terapia hormonal, cirurgia de redesignação sexual e outros procedimentos médicos.

pessoa transgênera – um conceito amplo que é utilizado para reconhecer diversos tipos de vivência, tendo em comum o fato de que suas experiências e-ou expressões de gênero são distintas daquilo que a sociedade dominante espera dessas pessoas [3]. Ver ‘pessoa cisgênera’.

pessoa cisgênera – um conceito utilizado para definir pessoas cujas experiências e expressões de gênero estão de acordo com as expectativas sociais, ou seja, para a pessoa com pênis, a identificação como homem masculino, para a pessoa com vagina, a identificação como mulher feminina [4 e 5]. O prefixo de origem latina cis- é utilizado em oposição ao prefixo trans-, sendo utilizada em outros contextos que não o de gênero — por exemplo, na química (ver isomeria geométrica).

pessoa transexual – uma pessoa que, com ou sem tratamentos médicos, identifica-se e vive sua vida como pertencente a gênero(s) que não seja(m) aquele(s) imposto(s) no nascimento.

homem transexual/trans ou transexual FtM (do inglês female-to-male, mulher-para-homem) – alguém que foi considerado como mulher no nascimento e-ou socialização e transiciona para uma identidade de gênero de homem, com expressões de gênero masculinas, femininas, ou em qualquer ponto entre essas duas possibilidades.

mulher transexual/trans ou transexual MtF (do inglês male-to-female, homem-para-mulher) – alguém que foi considerada como homem no nascimento e-ou socialização e transiciona para uma identidade de gênero de mulher, com expressões de gênero masculinas, femininas, ou em qualquer ponto entre essas duas possibilidades.

travesti – uma pessoa transgênera que tem uma identidade de gênero como mulher, e que, de acordo com entendimentos correntes de várias delas, se distingue da mulher transexual por uma questão ligada a preceitos médicos (como a decisão de não buscar fazer a cirurgia de redesignação sexual) e-ou associada a uma dimensão político-social (em que se reconhecem demandas, sociabilidades e subjetividades específicas às travestis). É um termo com formação histórica significativa no Brasil — sendo mais relevante na análise de transgeneridades que em outros países –, o que torna sua compreensão muito mais complexa que uma mera transposição de conceitos internacionais (o que ocorre com mais tranquilidade com termos como ‘gay’ e ‘lésbica’). [6]

cross-dresser – pessoas transgêneras que se utilizam das vestimentas e expressões do gênero socialmente constituído como ‘oposto’ ao seu, de maneira temporária e, em muitos casos, privada.

gênero-variante, gênero-diversx, ou genderqueer – termos utilizados por várias pessoas para descrever suas identidades e expressões de gênero(s) inconformes, em desacordo com padrões estabelecidos.

LGBTIAQ-queer – sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgênerxs, Intersex, Assexuadxs, Pessoas em Questionamento, e Queer.

Outro glossário mais detalhado pode ser encontrado na ‘Gay and Lesbian Alliance Against Defamation‘, voltado à divulgação midiática porém também útil para pessoas que gostariam de aprender mais.

Uma nota sobre pronomes

Pessoas transgêneras devem ser sempre tratadas com os pronomes correspondentes ao(s) gênero(s) com que se identificam (por exemplo, uma mulher trans deve ser tratada como mulher). Caso você esteja em dúvidas sobre o(s) gênero(s) de alguém, é apropriado perguntar-lhe respeitosamente seu nome e, se necessário, que pronomes elx gostaria que fossem utilizados por você. Em geral, é considerado ofensivo referir-se a alguém pelos pronomes incorretos a partir do momento que se saiba quais pronomes essa pessoa prefere.

Notas

[1]- como o guia da Human Rights Campaign Foundation, ‘Transgender Visibility – A guide to being you’ (‘Visibilidade Transgênera – Um guia para você ser você mesmx’, numa tradução livre do inglês), é voltado à realidade norte-americana, alguns termos e conceitos variam em relação à perspectiva brasileira. Tentei adaptar o que considerei necessário, tendo em mente a dignidade das pessoas transgêneras (ou seja, buscando a perspectiva mais inclusiva possível) e o reconhecimento de lutas políticas específicas (reconsiderando, por exemplo, a luta pela ressignificação das travestis). Por outro lado, este glossário pretende apresentar  uma visão inicial sobre os termos mais comuns, reconhecendo que eles nasceram, frequentemente, como respostas a discriminações ou dentro de contextos médicos e legais limitados-limitantes, e também vão se alterando no tempo conforme as lutas avançam (ou, infelizmente, retrocedem).

[2]- embora as suas limitações conceituais possam ser problemáticas e desestabilizadas quando esta pessoa-desejada não se encaixe em definições claras de sexo-gênero.

[3]- e o que infelizmente ainda se espera das pessoas em geral? Fundamentalmente, que respeitem as associações cisgêneras dominantes de pênis-masculino e vagina-feminino. E, para a realidade das pessoas intersexo, que essas pessoas ‘escolham um lado’ — ou melhor, que familiares e médicxs ‘escolham um lado’ por elas –, e que o lado escolhido seja o mais adequado aos padrões estéticos cisgêneros (i.e., que a pessoa mulher seja feminina, delicada, e a pessoa homem seja masculina, viril).

[4]- mais informações podem ser encontradas em http://en.wikipedia.org/wiki/Cisgender e http://queerdictionary.tumblr.com/post/9264228131/cisgender-adj. A importância de se utilizar e se enfatizar a cisgeneridade como categoria analítica está em tirar a condição cisgênera de seu conforto, de sua suposta naturalidade. A partir daí, fica mais fácil perceber como a sociedade trata, considera, monitora e pune pessoas transgêneras de maneira assimetricamente desigual em relação às pessoas cisgêneras. Este texto é esclarecedor neste sentido.

[5]- pessoas cujas genitálias sejam distintas desse binário restrito pênis-vagina são, ocasionalmente, sujeitas a procedimentos médicos sem seu consentimento, de maneira a se adequar a esses padrões cisgêneros. Que procedimentos médicos de tamanha relevância para a individualidade das pessoas sejam realizados sem consentimento delas é uma importante crítica política feita pelas pessoas intersexo, que demandam uma reconstrução das perspectivas que norteiam estes procedimentos (quando é realmente necessário alterar a genitália de uma pessoa, afinal, se não por sua vontade? há preocupações relacionadas à saúde-sobrevivência destas pessoas, ou meramente à manutenção da normalidade social cisgênera?).

[6]- há diversos trabalhos que problematizam a conceituação da travesti (sem lhe negar legitimidade, diga-se). Apresento três deles aqui, de onde se pode obter outras referências: ‘Nossos corpos também mudam: Sexo, gênero e a invenção das categorias ‘travesti’ e ‘transexual’ no discurso científico‘, de Jorge Leite Jr, ‘Do casulo à borboleta: uma compreensão fenomenológica da travestilidade‘, de Juliana Coelho; e ‘Nomes e diferenças: uma etnografia dos usos das categorias travesti e transexual‘, de Bruno Cesar Barbosa.

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