O caminho transgênero (12) – Mitos e fatos

Nota: este não é, de maneira alguma, um guia completo para todos os conceitos relacionados às transgeneridades. O guia é voltado para aquelas pessoas que estão iniciando seu aprendizado em questões de gênero, especialmente as relacionadas às transgeneridades.

A seguir, alguns mitos e fatos a respeito de pessoas transgêneras:

Mito 1: Pessoas transgêneras são-estão confusas.

Fato: Pessoas transgêneras não são nem mais nem menos confusas que qualquer outra pessoa possa ser a respeito de sua individualidade, ou de seu ‘lugar no mundo’ [1]. Os gêneros constituem, em boa parte das sociedades contemporâneas dominantes, um tópico bastante complicado, em especial para aquelas pessoas que subvertem suas normas e ideologias; lidar com essas questões pode ser um desafio enorme. No entanto, quando uma pessoa está pronta para ‘se assumir’ como transgênera, em geral ela pensou bastante a respeito e está segura sobre sua decisão.

Mito 2: Ser transgênerx é uma ‘escolha’.

Fato: Ser transgênerx não pode ser considerado uma escolha [2], no mesmo sentido em que ser hetero ou homossexual, ter olhos castanhos ou azuis, ou ser canhoto ou destro não são. A escolha que existe é relativa à decisão de viver abertamente consigo próprix e com outras pessoas relevantes.

Mito 3: Pessoas transgêneras são, na verdade, homossexuais.

Fato: Identidade de gênero(s) e orientações sexuais são dois tópicos separados. Algumas pessoas transgêneras são lésbicas, gays, hetero, assexuais ou bissexuais em suas orientações sexuais [3].

Mito 4: Pessoas transgêneras são pecadoras.

Fato: Muitas pessoas transgêneras são pessoas de fé, ou não compartilham da ideia de pecado apresentada pelas religiões, sendo independentes e-ou ateias. Sendo assim, a afirmação não lhes faz qualquer sentido. Por outro lado, muitas pessoas transgêneras de fé encontram solidariedade e apoio espiritual em boas instituições religiosas, ainda que haja muita hostilidade e opressões (micro e institucionais) na maioria das igrejas, sinagogas, templos, mesquitas e comunidades religiosas.

Mito 5: Pessoas transgêneras não podem ter famílias.

Fato: Inúmeras pessoas transgêneras encontram amor e felicidade em suas vidas, acompanhadas ou não de umx parceirx, com ou sem filhxs. Um dos maiores problemas enfrentados pelas pessoas transgêneras são as microagressões sociais e as opressões institucionais a que estão sujeitas. Ainda assim, uma parcela significativa dessas pessoas dirá que, após ‘sair do armário’, surge um forte sentimento de felicidade e completude que, ao final, lhes permite uma vida mais leve e interessante, apesar destas dificuldades sociais.

Mito 6: Pessoas transgêneras podem ‘ser curadas’ — isto é, ‘convertidas’ à cisgeneridade.

Fato: O conceito de uma suposta ‘cura’ à transgeneridade é uma falácia, geralmente associada a premissas pseudo-religiosas e-ou pseudo-científicas. Embora muitas pessoas, devido à internalização de discursos problemáticos, tentem reprimir sua verdadeira identidade de gênero, os grupos médicos e psicoterapêuticos mais respeitáveis recomendam que não se deve reprimi-la. Nesse sentido, dizem que o ideal é procurar maneiras de alcançar uma maior auto-compreensão e de compartilhar sua vida abertamente com aquelas pessoas que se ama.

Mito 7: Todas as pessoas transgêneras passam por cirurgia.

Fato: Muitas pessoas transgêneras não têm o desejo de passar por intervenções cirúrgicas ou outros procedimentos médicos. Por outro lado, muitas outras não têm condições econômicas e-ou não se encaixam nos atuais padrões de atendimento médico [4], não tendo como realizar mudanças que consideram necessárias para si. Considerando estes fatos, é fundamental que direitos civis sejam conquistados para todas as pessoas transgêneras de maneira equânime, conforme suas necessidades e independentemente de seus históricos médicos.

Mito 8: Há mais pessoas transgêneras no espectro MtF (do inglês male-to-female, homem-para-mulher) que no FtM (female-to-male, mulher-para-homem) [5].

Fato: Não há estatísticas confiáveis sobre quantas pessoas transgêneras ou gênero-inconformes existem no mundo, e tampouco quantas delas se identificam mais com o espectro MtF ou FtM. Entretanto, mesmo as melhores estimativas mostram que há um número aproximadamente igual de pessoas transgêneras nos espectros MtF e FtM.

Notas

[1]- vide o enorme fluxo de livros de auto-ajuda e as religiões que abundam.

[2]- esta é a perspectiva atualmente mais aceita, a de que fatores dissociados da agência-vontade pessoal estão mais fortemente relacionados a individualidades transgêneras (em especial às indiv. transexuais). Mas não há consenso científico, como discute este post.

[3]- logicamente, respeitando aqui a perspectiva da qual a pessoa transgênera parte: se se trata de uma mulher trans, ela é lésbica, caso se interesse por mulheres. E assim por diante.

[4]- o acesso a recursos para ‘transição’ é problematizado neste post, bem como no artigo ‘Desdiagnosticando o gênero‘, de Judith Butler. A existência de restrições e controles sobre a autonomia de pessoas transgêneras sobre seus corpos é especialmente perversa com aquelas pessoas sem recursos financeiros para recorrer ao sistema privado, ou que estão fora dos padrões médicos correntemente aceitos. A luta pela despatologização das identidades trans* representa, fundamentalmente, a demanda política para que estas identidades não sejam mais consideradas patologias médicas e que esta retirada dos livros médicos (similar à retirada da homossexualidade nos anos 90 — no Brasil) acarrete na perda de direitos adquiridos.

[5]- a terminologia corrente é, por vezes, ainda limitada a conceitos binários de gênero. Utilizo a palavra ‘espectro’ para trazer um pouco de fluidez a ela, lembrando também que existem diversas individualidades que não sentem a necessidade de se identificar dentro de nenhum destes espectros.

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6 comentários em “O caminho transgênero (12) – Mitos e fatos

  1. Estou em processo de transformação, mas sofri muito ate ter tomado, esta decisão. hoje estou mais feliz pois estou me sentindo um pouco mais eu, mais inda falta um pouco para eu chegar aos 100% de minha mudança.E agradeço todos os dias por ter me aceito. Agora eu sei que o maior preconceito era comigo mesma.
    Gostei muito deste Blog bjs a todas.

    1. Ana, obrigada por compartilhar um pouco da sua experiência. Embora escreva a respeito, ainda estou na luta pra me aceitar plenamente, e enfrentar o que for necessário.
      Que sua jornada esteja sendo e seja sempre fascinante e feliz.
      Beijo! vivi

  2. Oi sou transgenero (FTM)
    Nasci biologicamente mulher.
    Mas estou numa depressão profunda, não consigo me aceitar.
    Eu sempre fui um homem desde o dia que nasci, para minha mãe, amigos, e todos mesmo sem me assumir como tal, depois que descobri de fato o que já sabia que era realmente transgenero (algo que tentava disfarçar mesmo com falhas absurdas) não consigo me aceitar, como faço para não me sentir uma aberração?
    Só queria ser uma pessoa “normal”
    sei que é complicado eu falar isso, mas tá dificil.
    por favor me ajude, me dê dicas, ja vi vários documentários, blogs sobre o assunto que dão força, só que tá dificil, por favor ajuda!

    1. Poxa Felipe, desculpe a demora em responder…
      Vivemos em um contexto histórico que ainda deslegitima nossa autodeterminação de gênero. Mesmo a ideia de que ‘nascemos biologicamente’ com 1 de 2 (e somente 2) sexos-gêneros é problemática, e parte de um projeto colonial cristão-europeu.

      Desconstruir isso é dificílimo, seja onde for: no ambiente acadêmico, no cistema legal, nas nossas próprias mentes.

      Compramos a ideia de que somos aberrações. Compramos a ideia de que não somos pessoas dignas de direitos, sejam eles gerais ou específicos às nossas necessidades.

      Eu não saberia lhe dizer muito em termos de dicas, mas algumas coisas que me serviram no sentido de ver minha dignidade e possibilidade de afirmação enquanto mulher foram…:
      – Encontrar pessoas amigas com quem você possa se sentir bem em seu gênero (no meu caso, como uma mulher). Nem sempre é fácil.

      – Buscar ideias e teorias críticas sobre gênero, em particular questões trans*. Em termos intelectuais, as bases do cissexismo são frágeis, e ter uma perspectiva crítica sobre ele me deu uma força enorme.

      – Ler, assistir, vivenciar as histórias de resistência trans* e gênero-diversa pelo mundo. Desde identificações de gênero pré-coloniais a narrativas contemporâneas, há uma infinidade de histórias lindas de luta de gênero. Embora marginalizadas, essas histórias podem ser recuperadas, e novas vivências e resistências estão por toda parte (as amizades trans*, por ex., são uma possibilidade).

      – Aprender intersecionalmente com outras dimensões sociais… resistências ao classismo, racismo, à normatização funcional (lutas contra a inferiorização de ‘deficiências’), etc. Inspirar-se por lutas que também são suas, ou que não sejam tão diretamente suas, nos torna pessoas melhores.

      Eu desejo muita força para você, muito amor… espero que tenha ajudado de alguma forma. Caso queira conversar, me mande um e-mail… msvivianev@gmail.com.

      Fique bem, fique forte. Resistimos sempre.

  3. Nasci como mulher, mas desde sempre invejei os meninos e não conseguia entender o porque não nasci como eles… me assumi lésbica aos 15, mesmo sabendo que não era exatamente essa a palavra para me definir, meus pais e amigos nunca me apoiaram a me vestir como um garoto, sempre que eu ia comprar minhas roupas minha mãe dizia que se fosse roupa de menino ela não pagaria, até que tive condições de comprar minhas próprias roupas, e criei coragem para cortar o cabelo, e mesmo assim eles ainda tem uma resistência em me aceitar nessa “aparência”.
    Há um ano atrás eu descobri o termo transgenero, e desde então tenho lido muito sobre o assunto, vejo vários vídeos e até comento sobre o assunto com algumas pessoas, e já até disse pra uma ou duas pessoas que eu gostaria de ter nascido homem, mas ainda não tenho coragem para me assumir e procurar médicos e tudo mais para de fato me tornar quem eu sou, não sei o que fazer, toda vez que penso no assunto eu entristeço, invejo as pessoas que tem o apoio da família e amigos para conseguirem passar pela transformação e penso que tudo que eu mais queria era poder andar na rua sem camiseta num dia de sol…
    Não sei o que fazer, nem por onde começar, meus pais dizer que “ser lésbica tudo bem, mas se comportar como um homem não”, então tenho medo de tocar no assunto com eles, ás vezes dá vontade mesmo de pegar a mala e sumir pra um lugar onde ninguém me conhece e recomeçar do zero. E tem minha namorada também, ela sabe dos meus desejos, ela sabe mais ou menos, sabe que eu gostaria de ter nascido de outra maneira, mas não que eu estaria disposta a passar por cirurgias e tomar hormonios… também tenho medo de perdê-la…
    enfim, foi o único modo que encontrei de desabafar mesmo.

    1. Lori..!
      Desculpe a demora em lhe responder… fiquei fora deste blog por muito tempo, estou tentando me rearrumar para voltar melhor.

      Muita força em seus processos de compreensão de gênero… e também para fazer os enfrentamentos necessários contra as tentativas de cisnormatização em cima de seu corpo, sua autoidentificação de gênero, suas expressões… beijo grande! ❤

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