Nota: este não é, de maneira alguma, um guia completo para todos os conceitos relacionados às transgeneridades. O guia é voltado para aquelas pessoas que estão iniciando seu aprendizado em questões de gênero, especialmente as relacionadas às transgeneridades.
A seguir, alguns mitos e fatos a respeito de pessoas transgêneras:
Mito 1: Pessoas transgêneras são-estão confusas.
Fato: Pessoas transgêneras não são nem mais nem menos confusas que qualquer outra pessoa possa ser a respeito de sua individualidade, ou de seu ‘lugar no mundo’ [1]. Os gêneros constituem, em boa parte das sociedades contemporâneas dominantes, um tópico bastante complicado, em especial para aquelas pessoas que subvertem suas normas e ideologias; lidar com essas questões pode ser um desafio enorme. No entanto, quando uma pessoa está pronta para ‘se assumir’ como transgênera, em geral ela pensou bastante a respeito e está segura sobre sua decisão.
—
Mito 2: Ser transgênerx é uma ‘escolha’.
Fato: Ser transgênerx não pode ser considerado uma escolha [2], no mesmo sentido em que ser hetero ou homossexual, ter olhos castanhos ou azuis, ou ser canhoto ou destro não são. A escolha que existe é relativa à decisão de viver abertamente consigo próprix e com outras pessoas relevantes.
—
Mito 3: Pessoas transgêneras são, na verdade, homossexuais.
Fato: Identidade de gênero(s) e orientações sexuais são dois tópicos separados. Algumas pessoas transgêneras são lésbicas, gays, hetero, assexuais ou bissexuais em suas orientações sexuais [3].
—
Mito 4: Pessoas transgêneras são pecadoras.
Fato: Muitas pessoas transgêneras são pessoas de fé, ou não compartilham da ideia de pecado apresentada pelas religiões, sendo independentes e-ou ateias. Sendo assim, a afirmação não lhes faz qualquer sentido. Por outro lado, muitas pessoas transgêneras de fé encontram solidariedade e apoio espiritual em boas instituições religiosas, ainda que haja muita hostilidade e opressões (micro e institucionais) na maioria das igrejas, sinagogas, templos, mesquitas e comunidades religiosas.
—
Mito 5: Pessoas transgêneras não podem ter famílias.
Fato: Inúmeras pessoas transgêneras encontram amor e felicidade em suas vidas, acompanhadas ou não de umx parceirx, com ou sem filhxs. Um dos maiores problemas enfrentados pelas pessoas transgêneras são as microagressões sociais e as opressões institucionais a que estão sujeitas. Ainda assim, uma parcela significativa dessas pessoas dirá que, após ‘sair do armário’, surge um forte sentimento de felicidade e completude que, ao final, lhes permite uma vida mais leve e interessante, apesar destas dificuldades sociais.
—
Mito 6: Pessoas transgêneras podem ‘ser curadas’ — isto é, ‘convertidas’ à cisgeneridade.
Fato: O conceito de uma suposta ‘cura’ à transgeneridade é uma falácia, geralmente associada a premissas pseudo-religiosas e-ou pseudo-científicas. Embora muitas pessoas, devido à internalização de discursos problemáticos, tentem reprimir sua verdadeira identidade de gênero, os grupos médicos e psicoterapêuticos mais respeitáveis recomendam que não se deve reprimi-la. Nesse sentido, dizem que o ideal é procurar maneiras de alcançar uma maior auto-compreensão e de compartilhar sua vida abertamente com aquelas pessoas que se ama.
—
Mito 7: Todas as pessoas transgêneras passam por cirurgia.
Fato: Muitas pessoas transgêneras não têm o desejo de passar por intervenções cirúrgicas ou outros procedimentos médicos. Por outro lado, muitas outras não têm condições econômicas e-ou não se encaixam nos atuais padrões de atendimento médico [4], não tendo como realizar mudanças que consideram necessárias para si. Considerando estes fatos, é fundamental que direitos civis sejam conquistados para todas as pessoas transgêneras de maneira equânime, conforme suas necessidades e independentemente de seus históricos médicos.
—
Mito 8: Há mais pessoas transgêneras no espectro MtF (do inglês male-to-female, homem-para-mulher) que no FtM (female-to-male, mulher-para-homem) [5].
Fato: Não há estatísticas confiáveis sobre quantas pessoas transgêneras ou gênero-inconformes existem no mundo, e tampouco quantas delas se identificam mais com o espectro MtF ou FtM. Entretanto, mesmo as melhores estimativas mostram que há um número aproximadamente igual de pessoas transgêneras nos espectros MtF e FtM.
—
Notas
[1]- vide o enorme fluxo de livros de auto-ajuda e as religiões que abundam.
[2]- esta é a perspectiva atualmente mais aceita, a de que fatores dissociados da agência-vontade pessoal estão mais fortemente relacionados a individualidades transgêneras (em especial às indiv. transexuais). Mas não há consenso científico, como discute este post.
[3]- logicamente, respeitando aqui a perspectiva da qual a pessoa transgênera parte: se se trata de uma mulher trans, ela é lésbica, caso se interesse por mulheres. E assim por diante.
[4]- o acesso a recursos para ‘transição’ é problematizado neste post, bem como no artigo ‘Desdiagnosticando o gênero‘, de Judith Butler. A existência de restrições e controles sobre a autonomia de pessoas transgêneras sobre seus corpos é especialmente perversa com aquelas pessoas sem recursos financeiros para recorrer ao sistema privado, ou que estão fora dos padrões médicos correntemente aceitos. A luta pela despatologização das identidades trans* representa, fundamentalmente, a demanda política para que estas identidades não sejam mais consideradas patologias médicas e que esta retirada dos livros médicos (similar à retirada da homossexualidade nos anos 90 — no Brasil) acarrete na perda de direitos adquiridos.
[5]- a terminologia corrente é, por vezes, ainda limitada a conceitos binários de gênero. Utilizo a palavra ‘espectro’ para trazer um pouco de fluidez a ela, lembrando também que existem diversas individualidades que não sentem a necessidade de se identificar dentro de nenhum destes espectros.