Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)

[atualização: acabei esquecendo de fazer o link para a entrevista de Paulo Freire, que é linda; o trecho que citei começa em 1:15]

Espero que você tenha amigxs interessantes o suficiente para ter ao menos escutado algo (bom, mesmo que crítico) sobre a(s) marcha(s) das vadias mundo afora. Caso não tenha — e não evito estranhar as razões pelas quais você estaria lendo este post –, duas sugestões: (1, que listas parecem ser o mote desses nossos tempos produtivos) leia um pouco, informe-se sobre as lutas políticas contemporâneas, discuta com a intenção de aprender, e  (2) item que é potencialmente consequência direta de (1), reavalie suas companhias.

En passant, a marcha das vadias, originalmente denominada slutwalk, consiste em um protesto por direitos humanos. Uma daquelas marchas aludidas por Paulo Freire, cujas energias estão entre nós:

“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.” [vídeo aqui, a partir de 1:15]

Mais especificamente, a marcha das vadias é uma marcha pelo respeito incondicional às mulheres [1], pelo direito de exercerem suas sexualidades, suas liberdades sociais, e de não serem vítimas de violências impunes-ignoradas. O episódio que se constituiu em fagulha pra marcha foi uma infeliz  recomendação feita por um policial em uma palestra sobre segurança no campus da York University, Mulheres devem evitar se vestir como vadias para não serem vitimizadas. Aspectos mais específicos da marcha podem ser encontrados aqui.

Caso essas razões não x convençam a participar da marcha — e você tem toda a legitimidade para não se convencer –, e caso você se convença também, gostaria de trazer um pequeno relato pessoal. Por essas coincidências do mundo, estive morando na cidade de Toronto durante o primeiro semestre do ano passado, quando se realizou a primeira marcha das vadias, a slutwalk toronto.  E, embora tivesse sabido da marcha um tanto em cima da hora, ainda pude participar da última reunião de organização e da marcha em si.

Pois então. Talvez seja relevante mencionar, neste momento, o fato de que sou uma pessoa transgênera, ao menos parcialmente identificada com a categoria mulher. E muitas de minhas experiências de gênero estão relacionadas com os monitoramentos e controles sobre a quem, como, e onde se autoriza a expressão do ‘feminino’ [2]. Foi a partir da consciência destas opressões que se gerou a indignação associativa entre minhas experiências pessoais, o episódio do policial infeliz e as violências diárias contra mulheres pelo mundo, indignação que me impeliu a participar do slutwalk.

As pessoas que me conhecem saberão que não me sinto muito à vontade em manifestações públicas, estes atos que explicitam posições políticas muitas vezes sob olhares de estranhamento e-ou discordância. Talvez minha participação nestes atos me faça sentir vulnerável a estes olhares — algo que deve se relacionar em algum nível com minha identidade de gênero deslegitimada. Sei lá. Mas após algumas horas de indecisão, decidi sair de casa como a mulher que era. Ou a mulher que circunstancialmente existia naquele momento, e que proclamava sua legitimidade — mesmo que tardia.

[Mas não saímos todxs, todos os dias, de maneira circunstancial? Ou isso seria específico às transgeneridades? Enfim.]

O dia estava nublado, e ventava frio. A caminhada de minha casa talvez durasse em torno de dez minutos, quinze em saltos. À usual insegurança das caminhadas gênero-transgressoras se somava à vulnerabilidade que os protestos costumavam me trazer, e a claridade cinza do céu, um tempo-espaço mais complicado para quem tentasse ‘se passar’ pela feminilidade cisgênera (ou seja: para parecer uma mulher “””biológica”””, como parecem preferir).

Mas algo foi mudando conforme me aproximava do ponto de partida da marcha.

Pequenos grupos já rodeavam as pessoas da organização, com seus dois megafones, alguns equipamentos de som e cartazes. Aproximei-me para ter uma das primeiras interações sociais como uma mulher transgênera, e não, não morri — suei e tremi, é verdade. Pediram-nos que caminhássemos até um parque próximo para convidar xs passantes a participar da marcha.

Éramos um grupo de seis pessoas, que se dividiu em três duplas. Eu e uma garota. Como não houvesse muitxs passantes, começamos a conversar, compartilhar nossas histórias. E a chamar gente pra marcha, um esforço tranquilo tomando-se em conta que boa parte das pessoas andando pelo parque já se dirigiam a ela.

Então, a interação era mais de boas-vindas que de convencimento. O que me facilitava muito a vida: sendo o convencimento maneira de ‘vender’ determinada(s) ideia(s) a outrem, não poderia me sentir segura a partir de minha posição de gênero usualmente deslegitimada. Em realidade, aos poucos pude notar uma espécie de auto-confiança emergindo.

Bem. aos. poucos. Até hoje.

A garota e eu nos sentimos com confianças suficientes para falar de aspectos bastante pessoais de nossas vivências. Havia uma certa energia que nos permitia isso: o fato de estarmos naquela marcha e de estarmos ajudando (ainda que de forma muito pequena) na sua organização nos inspiravam fortemente. E então procuramos episódios longínquos de nossas existências, fagulhas de uma sexualidade ou gênero inconformes, ou de opressões a elxs.

E, neste contexto, ela menciona ser sobrevivente de abuso sexual.

E de como o responsável pelo crime era um conhecido seu.

E de como ela estava vestida na ocasião — nada ‘vadia’, para desconcerto do policial.

Havia uma dor imensurável na voz da garota. Era a dor dos momentos irreversíveis nas nossas vidas, a dor da impunidade dos crimes contra nós. Não me lembro do que lhe falei — e o que se pode dizer, afinal –, mas a dor que senti era terrível.

E terrível, não porque perfurasse, jorrasse sangue, ou latejasse, mas porque aturdia através do silêncio que habitava os olhos detrás dos óculos de grau.

Silêncio que expressava, jamais se questione, perfurações, jorros de sangue, latejos. Silêncio que se iria despertando a cada conversa com as gentes do parque, e que se passava a levantar nos coros e bordões a se iniciar; silêncios que, de tanto ocuparem mentes, puderam ocupar umas tantas ruas na cidade, atrapalhando-lhes o trânsito.

Silêncios, afinal, que de tanto se acostumarem à casa mental, somente sairiam em gritos, em passadas firmes, em sorrisos, em lágrimas.

Lágrimas que choramos em diversos momentos, saindo-nos de nossos silêncios, ainda que caladas. E presenciar o choro da garota, a algumas pessoas de distância, foi possivelmente um dos presentes mais bonitos que já recebi do universo.

É por isso que acredito na marcha das vadias.

.

Notas.

[1]- o foco me parece em mulheres cis, no geral — ainda que as trans estejam explicitamente incluídas também na marcha original.

[2]- muitas outras se referem às opressões derivadas de ser vista socialmente como mulher, em especial uma mulher transgênera; neste caso, reconheço a limitação que tenho em oferecer um testemunho mais apurado, afinal isto não ocorre com muita frequência.

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13 comentários em “Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)

  1. lagriminhas, flor…belo texto, esclarecedor e comovente. Apesar de estar numa cidade muito distante de onde ocorrerão as marchas, sigo no ativismo de internet, e digo de já que a marcha mudou minha cabeça, desde que a descobri, devorando posts e tudo que encontrava, percebi que passei a andar nas ruas com a cabeça mais erguida, enfim, sinto-me livre, penso na marcha e sei que não estou sozinha. o machismo adoece, e já tantos problemas passados como a síndrome de pânico, não decorreram de outra causa senão ele mesmo, machismo, criação doentia, lar patriarcal e doente, castrador, punida desde a infância por ser mulher. a psicoterapia me ajudou em muitos anos mas, incrivelmente cresci em poucos dias ao descobrir a marcha, e da extrema timidez e culpa em simplesmente ser mulher, deixo de temer e tremer de medo dos olhares, levanto meu rosto e meus olhos gritam:sei que não cederemos mais à ditadura machista, oprimindo nosso modo de ser, pensar, agir, em prol de aceitação social. lágrimas rolando a cada linha, acompanhando as lágrimas da tua narrativa, de emoção tão transparente, só pode vir de uma pessoa incrivelmente linda! bjs

    1. Nossa Camila, que bom ter despertado isso em você… vou lhe dizer que a marcha tornou muito mais evidente para mim o quanto o sexismo fere as mulheres. Por não ter sempre vivido a ‘feminilidade’, por assim dizer, não tinha a dimensão do quanto as agressões poderiam ferir mesmo aquelas pessoas cujos gêneros estivessem legitimados.

      Um beijo, e siga com a cabeça erguida, por todxs nós. Com cuidados estratégicos, viu! 🙂
      vivi

  2. Emocionante o relato! Acredito que todas as mulheres – biológicas ou não – são convidadas a serem protagonistas desse processo! Estamos juntas! 🙂

  3. Oi, Vivi!
    Descobri teu blog por causa desse texto… e estou adorando! Teus textos são bem escritos e didáticos sem simplificar demais as coisas – pelo contrário, vi aqui honestidade e profundidade nas reflexões, sem o jeito empolado que as coisas volta e meia ganham nas mãos dos “intelectuais”* ou a falta de questionamento dos “militantes* limitantes”.
    Já assinei os feeds e vou ficar de olho no teu trabalho. Sou feminista, lésbica e curto muito questões trans (acho que sou uma dessas pessoas cis de “gênero inconforme”, apesar de não conseguir me definir direito nem por aí – quem é que tem conformidade plena com gênero, né?), e é muito bom encontrar textos com a qualidade dos teus em português.
    Boa sorte com esse trabalho, e em especial nos caminhos que vão te levar a ser quem tu sente que és 😉
    *ps. não estou criticando os intelectuais em si, até porque sou acadêmica… e sim o modo de colocar as ideias, que às vezes afasta mais do que aproxima as pessoas do conhecimento. Felizmente, não me parece o teu caso! E a crítica da militância é justamente por eu ser também militante, mas avessa à resistência que algum@s militantes têm em se questionar.

    1. Olá Carol!
      Não sei se expresso isso suficientemente, mas é uma alegria e uma força muito grandes que sinto ao receber comentários como os seus. Ainda estou iniciando o trabalho acadêmico nessa nova área — me formei em economia (!rs) –, e rolam inseguranças frequentemente.

      Entendo suas percepções sobre potenciais exageros na academia e militância. Talvez até por minha formação em economia — saber que flerta com uma certa precisão matemática –, prezo um tanto por ser ‘direta’ e tal, definindo ‘variáveis’ conceituais, estabelecendo nexos lógicos, correlações etc. Não saberia dizer se isso é bom ou ruim em si, mas acaba por influenciar meu modo de pensar.

      Por outro lado, acho que ter estudado um pouco de debates econômicos me fez ver que, afinal, leituras sociais necessariamente esbarram em limitações. O que complica muito a tomada de posições permanentes e tal: penso, por exemplo, em discussões sobre gastos governamentais, em que visões mais à esquerda procuram argumentar pelo lado da sua criticidade-necessidade, e as mais à direita, pelo lado de sua suposta ineficiência. Ainda que eu tenda a ver estes gastos por uma ótica mais à esquerda, não posso me negar a escutar propostas (bem-intencionadas, diga-se) por maiores eficiências.

      (viajei; deve ser saudades da graduação…rs)

      Mas, enfim, muitos debates se perdem nessa mutualidade exclusiva das escolhas: ou um, ou outro lado. E nós, nesses nossos gêneros inconformes, sabemos que binarismos apresentam problemas fundamentais.

      Agradeço pela consideração, e pelo apoio nesse caminho tão difícil das rebeldias de gênero… fiquei interessada, aliás, pelas suas indefinições em relação a isso! 🙂 vivianecd at ymail.com

      Finalmente, espero que construamos um mundo sem a distinção entre a militância e a academia. Sem a paixão indignada daquela ou a reflexividade criteriosa desta não são possíveis mudanças estruturais.

      Beijos!
      vivi

      1. Que honra! Fico feliz demais…! 🙂

        Aproveitando o ensejo, adorei as fotos de divulgação, são muito poderosas. Foi vendo algumas delas que me inspirei a escrever esse post. Só quedou uma pergunta…: vcs pretendem colocar uma mulher trans entre as fotos? Creio ser uma mensagem importante também. Algo na linha “Sou a mulher que desejo ser; isso também é feminismo”, não sei…

        Sempre juntas! Forte abraço!
        vivi

  4. Viviane,

    Primeiro, obrigada pelo texto… É de fazer verter lágrimas mesmo. É de sentir o mesmo sentimento que eu tive na marcha aqui em Brasília. É de sentir solidariedade, amparo e escuta. Vendo seu blogue me lembrei que fiz o curso contigo de teoria queer lá na UFBA, com o pessoal do CuS. Cheguei ao seu texto pela lista da Marcha das Vadias-DF, pois eu participo da organização. Estamos contactando mulheres trans pro ensaio de foto, justamente pra tirar esse foco nas mulheres cis que você mencionou. Ao fazê-lo comecei a manter contato com uma pessoa que me disse que te conhece. Mundo pequeno esse, mas que bom, Viviane!

    Obrigada mesmo, um abraço!

    1. Oi Carol, tudo bem?
      Poxa, obrigada pelo comentário… fico muito feliz em compartilhar as sensações que tive, uma pena que não o tenha feito antes. A marcha teve um significado muito grande pra mim, indo muito além da sua proposta: foi uma das primeiras vezes que saí em público ‘como mulher’ de maneira explicitamente política, e foi um aprendizado e fortalecimento incríveis.

      Mundo pequeno demais, viu… 🙂

      Estou ansiosa pelas marchas desse ano!

      1. Tudo bem sim! 🙂 Obrigada você, Viviane. Bom sentir participar dessa rede de solidariedade e compartilhmento de afetos. Que importante e simbólico isso… você já saiu indo à luta. 🙂 Estamos juntas!

        Grande abraço.

      2. 🙂
        Olha, não sei se ‘saí indo à luta’ ou se a luta que me permitiu sair. Foi tudo junto, sabe, e é muito bom que sigamos juntas!
        Abração pra você também!

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