Um outro caminho

Hoje, como de costume nestes dias de estudante, fui ao restaurante da universidade almoçar. Almoço bom, que como sempre conta com a simpatia doce de várias mulheres que lá trabalham. Como sozinha e perto das 14h, o que tem sido sinônimo de pouco movimento, em especial num sábado ensolarado. Evito o refrigerante, tarefa mais simples quando chego ao restaurante correndo desde minha casa. Há suco de goiaba e água.

Acabo e levo a bandeja para a área de limpeza. Deposito os talheres num lado e retiro copo plástico e guardanapo, deixando a bandeja equilibrada por sobre a janelinha que separa o restaurante de seu, digamos, backstage.

À saída, o sol é intenso mas não insuportável, porém a sombra de uma árvore é mais interessante que (re)iniciar a caminhada. Há um tronco deitado junto a ela, e é onde me sento, olho ao redor e acima, reflito brevemente e retiro do bolso um pequeno cigarro enrolado. Não venta significativamente, mas o suficiente para exigir uma cobertura manual ao isqueiro. Cinco tragos são o bastante.

Brisa.

Levanto-me, iniciando caminhada em direção à orla. O caminho é familiar: prédios, concretos, obras. Vou me aproximando ao prédio de Dança, o mais orgânico até o sair da universidade. Há uma bifurcação, até então, sumariamente ignorada, levando a um lado mais ermo do prédio, margeando uma pequena mata — que, descobriria logo, estava denominada como ‘Parque Memorial da Mata Atlântica’ por humanxs.

Avanço alguns passos, e noto que há algo no chão. É um pequeno formigueiro formado em torno de um pequeno buraco entre pedras do piso. Aproximo-me, para notar que algumas formigas ainda trabalhavam na constituição do formigueiro. Traziam um grão de areia de dentro do buraco e o empilhavam do lado de fora. Observei atentamente a dinâmica daquilo, sem evitar comparação básica entre aquela pequena sociedade e esta, humana. Sentada ao chão por alguns minutos, vejo também um pequeno grupo de micos passando por galhos. Eles seguem, e eu me levanto e sigo no sentido oposto.

Nem a pessoa mais ruralista poderia negar o frescor causado pelas sombras da mata. Tomei aquilo como um convite, sobretudo ao notar que havia uma trilha por dentro dela. Parecia uma curta caminhada, dessas que são somente alternativas ao calçamento ‘urbano’, porém noto que me aproximo de algum espaço, talvez uma casa ou pequeno depósito. Estando mais próxima, posso ler ‘Centro Cultural Mata Inteira‘.

Tudo parece fechado, imóvel. Há pequenos bancos e mesas de madeira, plantas cultivadas e independentes, e a pequena casinha. Chego-me, e sinto, dentro dos limites que me permite o ateísmo, uma energia muito positiva. Há duas carrancas protegendo o pequeno espaço, decorado com algumas folhas, um cartaz de um festival de dança, e alguns desenhos e frases. Vou acompanhando a riqueza singela daquilo tudo, imaginando histórias, práticas, ideias que talvez tenham sido expressas ali, até que encontro uma das paredes, vista lateralmente há poucos instantes, de frente e o mais próxima possível, dado o fechamento do espaço.

Há algumas figuras desenhadas numa estética que se aproxima daquilo que se convenciona pensar como desenho infantil.

São três borboletas, e provavelmente um número igual de flores um pouco abaixo delas.

Uma delas — a do meio, e a mais próxima do olhar — sangra, com a suavidade do traço aparentemente ingênuo. Parece indiferente ao sangrar.

O sangue, vermelho vivo, pinga de sua asa esquerda, caindo, mesclando-se, a uma das flores, também vermelha, viva. A flor parece (re)nascer do líquido que lhe cai.

Um choro pseudo-inexplicável me toma. Há uma sensação de verdade naquele momento; uma sensação de que, ao haver tomado um outro caminho, o universo me trazia um de seus pequenos afagos, uma breve carícia a indicar que este caminho, outro, é tão outro quanto qualquer um, tão um quanto todos outros.

Penso nas dificuldades que provavelmente me esperam. Penso nas tensões, nos afastamentos. Nada mais me retira do coração, entretanto, a sensação de que meu caminho, em sendo outro, pode também florescer. Como o de tantas outras pessoas, semeadoras de esperanças outras.

Sento-me por alguns instantes, procuro absorver estas mensagens. Muriçocas se acumulam assustadoramente e me espantam de lá. Sigo adiante, volto ao caminho de concreto, um pouco mais ciente do caminho a seguir.

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5 comentários em “Um outro caminho

  1. Achei tão lindo isso, fiquei emocionado. Muito emocionado, aliás. Hoej, vejo a militância tão impositiva, tão cerceadora e sem prazeres, sufocante em se3u discurso padronizado e imposto, onde tod@s são obrigad@s a sentirem as mesmas coisas , iguais. Então, foi uma esperança ver que alguém como você , tão primordial, também sente o diferente e tem atenção para tanto. Um beijo e obrigado. Vi algo aqui da mesma maneira que você viu a borboleta que sangrava. Sangramos muito, às vezes, mas pouc@s enxergam e entendem. Beijo
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

    1. Obrigada a você, Ricardo… eu lhe gosto muito, saiba disso (já que ficou duvidando disso, né, rs)!

      Espero que nosso sangue possa trazer mais flores, mais primaveras a este mundo perdido.

    1. Ai, que lindo isso. Obrigada, de verdade. É muito bom poder se aproximar de pessoas queridas através de nossa escrita, especialmente sobre algo que nos é tão caro (‘a experiência’ trans*).

      Beijos! Vamos conversar…!
      vivi

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