Resenhas (03): Berenice Bento, ‘Política da diferença: feminismos e transexualidade’, e Guacira Lopes Louro, ‘Viajantes Pós-Modernos II’

Subtítulo. Perspectivas cisgêneras: possibilidades e limites aparentes na análise das transgeneridades (e no uso desta análise para uma crítica às identidades)

Ficou longo o texto… aqui, além dos principais pontos dos textos, coloco também algumas inquietações que ficaram na leitura… não sei se elas são compartilhadas, mas podemos conversar.

O texto de Bento propõe uma importante crítica a perspectivas que façam dos conceitos identitários normatizações rígidas, essencializando-os para além do que poderia ser considerado um exagero sem consequências: como no exemplo citado pela autora, dizer que homens não podem ser feministas tem um potencial de exclusão de agentes políticxs aliadxs que não deve ser ignorado.

A crítica de Bento não se restringe, entretanto, a esta consideração política pragmática. Criticar a rigidez das identidades é fruto de uma constatação evidente na sociedade, a de que as pessoas são complexas e multifacetadas, sendo-lhes impossível eleger um, ou mesmo somente alguns, aspectos de sua subjetividade (seu gênero, sexualidade, etnia, etc.) como representativos dela. Neste sentido, coloca-se a questão: seria possível operar o mundo da política através do marco da diversidade, da diferença? (p. 80)

A autora divide sua argumentação em três partes: primeiramente, retoma uma discussão sobre a divisão entre se fazer ciência e fazer política, apontando para as interações entre estas duas esferas aparentemente separadas, e os interesses que defendem essa separação. Posteriormente, analisa a transexualidade como luta política pela legitimidade de identidades de gênero inconformes, bem como críticas possíveis a alguns aspectos desta luta. E, por fim, inspira-se em individualidades ‘femininas’ (a partir de conceituações dominantes contemporâneas) para apresentar algumas problematizações sobre o feminismo, especialmente a respeito de que pessoas, de fato, podem fazer parte desta luta – como participantes políticas e recebedoras de apoio e solidariedade.

A importância de se colocarem o ‘fazer ciência’ e o ‘fazer política’ lado a lado nos permite descortinar dois aspectos: os interesses (opressores) que procuram ‘higienizar’ a ciência de sua dimensão política, utilizando-se de sua suposta neutralidade para auferir credibilidade e recurso$, e, por outro lado, a possibilidade de, a partir de um ponto de partida ‘científico’, inspirar-se à luta política.

A esta última possibilidade, gostaria de agregar algumas inquietações. Bento relata que pesquisadorxs, ao realizarem trabalhos entre mulheres travestis e transexuais, passam por “uma profunda desconstrução” de suas subjetividades (p. 85). Ainda que reconheça que as experiências de muitas destas pessoas sejam de uma riqueza inestimável (para a humanidade), inquieta-me (um pouco) a ideia de que elas, muitas vezes sob condições opressivas terríveis, estejam a ‘propiciar’ este ‘duplo processo de humanização’ [1], assim como me inquieta (muito) a premissa quasi-explícita de que x pesquisadorx não será uma mulher travesti ou uma pessoa transexual – tomando-se a imagem desta oposição de lugares entre travestis-transexuais e pesquisadorxs, estxs que, aliás, após a realização de sua ‘produção científica’, curiosamente “se transformam em transexuais e travestis políticxs” (p. 86).

Ainda com estas ressalvas, Bento faz críticas importantes aos poderes institucionais que buscam definir as inconformidades de gênero, bem como a quem será concedido apoio na busca por sua identidade de gênero, apontando, ainda, possibilidades de luta política que levem em conta a pluralidade nestas inconformidades (e não somente nestas). Criticas, afinal, inspiradas pela “ideia de que não existe uma essência masculina e feminina” (p. 88) ou gêneros binários e facilmente distinguíveis: a partir delas, complicam-se os conceitos identitários, estas ficções úteis ao pensamento teórico, frequentemente sujeitas a normatizações.

Por outro lado, e esta é uma dificuldade para todas as pessoas que buscam criticar fundamentos tão sedimentados nas sociedades, desliza ao aceitar a separação da categoria ‘mulher’ das categorias transexual e travesti (no caso desta última, uma opção que não lhe deve ser retirada). Ao apontar (corretamente, me parece) como os atributos do feminino não são ‘propriedade das mulheres’, talvez quisesse dizer que tais atributos não sejam ‘propriedade de certas mulheres’, o que equivaleria a se referir, no contexto, às mulheres cisgêneras [2]; porém, ao contrastar ‘mulheres’ e ‘sujeitos sem útero’ (p. 87), termina por reificar, conceitualmente, a biologização dos gêneros.

Essa assimetria entre pessoas cisgêneras e transgêneras é destacada em uma citação de Mauro Cabral: “[…] Por que parece que as mulheres e homens têm gênero e as pessoas transexuais têm identidade de gênero?” (p. 93) À sua questão, acredito haver ao menos dois caminhos possíveis: por um lado, buscar a fragmentação do binarismo de gênero, no mínimo para que construamos mapas conceituais que expliquem os gêneros de forma mais sofisticada; e, por outro, evidenciar que, se as pessoas transgêneras possuem identidades de gênero, também as têm as pessoas não-trans [3].

Tais ressalvas, mais que enfraquecer, dão força à crítica de Bento sobre algumas posições políticas presentes no feminismo, excludentes de femininos não-cisgêneros ou presentes em homens. Segundo Bento, fracassou “a radical luta contra os binarismos e a naturalização das identidades” (p. 95) para a qual o feminismo teria um forte potencial: normatizou-se o sujeito do feminismo, bem como se restringiram as vozes que estariam autorizadas a representar a luta feminista.

Finalmente, destaco a bonita ideia que Bento apresenta, sobre a possibilidade de nascimento da consciência política por meios que não sejam o da experiência próxima (p. 106). O potencial que a inclusão de pessoas cujas subjetividades não tenham necessariamente relação direta com determinada luta política é enorme, mas somente será plenamente atingido a partir de um sério questionamento a respeito dos fundamentos que estruturariam as identidades coletivas. Além, eu agregaria, do estabelecimento de garantias de que se reconhecerão o valor das experiências vividas por aquelas pessoas que, afinal, dão sentido a determinada identidade, no geral nascente a partir de situações de opressão – tendo em mente, aqui, os receios de que as vozes oprimidas serão (re)invisibilizadas caso se ampliem os espaços de discussão para além de suas fronteiras identitárias.

A partir das reflexões inspiradas pelo texto de Bento, é possível pensar algumas questões trazidas pelo texto de Louro. Em Viajantes Pós-Modernos II, Louro reflete sobre questões de gênero e sexualidade utilizando-se do filme Transamérica, cuja protagonista é uma mulher transexual. Em seu texto, o uso da viagem como conceito analítico enfatiza o caráter contingente da formação das subjetividades, englobando mais possibilidades que binários simplistas. Neste sentido, não se concebem somente viagens lineares e progressivas, mas também aquelas erráticas e confusas (p. 204).

Ao pensar a transexualidade da protagonista do filme, Louro a pensa como uma viagem, como um atravessar das fronteiras de gênero (p.206). Não é um cruzamento simples, sendo algo extremamente vigiado em nossas culturas, seja pela família, mídia, leis, medicina, ou pelas igrejas. Nem, tampouco, um cruzamento inequívoco, direto: além das pessoas que não atravessam essas fronteiras, há aquelas que se posicionam nos entrelugares fronteiriços e também as que, ao atravessar, se estabelecem em áreas conservadoras do novo território. Segundo Louro, a protagonista de Transamérica, no processo de construção exterior da mulher em si, pertenceria a este último grupo.

Aqui, similarmente ao texto de Bento, reside uma inquietação em relação à assimetria analítica presente na análise de Louro sobre Bree, a mulher transexual do filme. Quando diz de seu desejo em “ser uma mulher normal e respeitável” (p. 209), algo que lhe parece “curioso” (p. 206), Louro parece tomar como desnecessária a consideração de que este desejo é bastante comum – não tão ‘curioso’ – entre pessoas cisgêneras. Além de estabelecer um flerte arriscado com a normatização do queer, ao concluir, “decididamente, [que] Bree não é queer” (p. 210), com base em um suposto caráter subversivo imanente a ele, o que se constitui em risco porque, caso tomemos a subversão em seu sentido mais estrito, haveria um paradoxo indissolúvel em qualquer trabalho acadêmico ‘queer’.

A partir da leitura dos dois textos, então, surgiram-me duas perguntas: tomando-se a separação entre travestis, transexuais, e pesquisadorxs, percebida no texto de Bento bem como na evidente ausência relativa de pessoas abertamente transgêneras na academia, haveria limites na capacidade dos ‘olhares cisgêneros’ para analisar as pessoas transgêneras? E, tomando-se em consideração os olhares que se posicionam pela desconstrução da ordem de gênero vigente, quais seriam suas possibilidades de transformação efetiva, seja em relação às condições de opressão vividas pelas pessoas transgêneras, seja em relação ao desmonte mais amplo das ‘fixações’ pelas identidades fixas?

Não acredito que haja limites intrínsecos a esses ‘olhares cisgêneros‘. Como Bento aponta, a “consciência política nasce por outros caminhos” também (p. 106) e, sendo assim, não há razões para se questionar, a priori, a capacidade crítica de um olhar cisgênero sobre realidades transgêneras. No entanto, frequentemente a participação de pessoas trans meramente como sujeitos em pesquisas não leva a um questionamento dos fundamentos teóricos que, dado que imersos em uma cultura (cis)sexista, podem trazer pressupostos e amarrações lógicas problemáticas – especialmente se analisadas desde um olhar transgênero. Ou seja, seriam limites conjunturais.

Neste sentido, duas possibilidades parecem se apresentar como fundamentais na transposição destes limites: aprofundar o processo de se escutarem as vozes trans como potenciais desestabilizadoras de todos os fundamentos de gênero – inclusive aqueles que naturalizem as experiências cisgêneras –, e garantir a presença de pessoas transgêneras como agentes da academia, não somente como política de inclusão social, mas também (e especialmente) como um investimento no avanço do conhecimento acadêmico, em todas suas vertentes. Tenho a segurança de que, na ocupação de espaços discursivos e decisórios por pessoas transgêneras, implodir-se-ão falácias médicas, presunções jurídicas, equívocos conceituais, exotificações desnecessárias.

As possibilidades de que os olhares cisgêneros sejam transformadores da ordem vigente de gênero estariam, assim, condicionadas a uma afetividade crítica que contextualize certos ‘conservadorismos’ trans em um contexto opressivo e os coloque simetricamente em contraste com individualidades dominantes [4], a uma percepção da ausência quase total de pessoas transgêneras na ‘produção científica’ – e das consequências negativas disto para a academia –, e a uma consideração constante de que estamos todxs inseridxs em uma sociedade cisgênero-normativa, sendo-nos complicado, quando não impossível, suspendermos suas supostas verdades.

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Notas

[1]- Que beneficia, duplamente, x pesquisadorx: “de um lado, descobrimos [nós, pesquisadorxs] que somos feitos do mesmo material discurso […]. E, segundo, x pesquisadorx quebra esquemas mentais que lhe informam sobre noções de normalidade e anormalidade.”

[2]- Em outros contextos históricos, a categoria ‘mulher’ constituída pelo feminismo foi problematizada como sendo excludente de individualidades não-brancas, não-heterossexuais, de rendas mais baixas. Este processo de exclusão (no qual não se questiona, diretamente, o status de ‘mulher’ das pessoas cisgêneras invisibilizadas) dialoga com a negação à reivindicação feita por mulheres transgêneras à sua condição de ‘mulher’.

[3]- Identidade de gênero que, a meu ver, deve evitar a assimetria presente em termos como ‘biológicx’ ou ‘natural’ em relação a ‘trans’.

[4]- Ou seja, colocar ‘essencialismos estratégicos’ e o conservadorismo e recato de algumas pessoas trans, afetivamente, dentro de um contexto em que sua própria humanidade é colocada em questão pela sociedade dominante, assim como de maneira simétrica aos ‘essencialismos estratégicos’ e o conservadorismo e recato tão comuns entre pessoas cisgêneras.

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