Yen-Hsun Lu vs Roger Federer, apontamentos rápidos

Não sou de assistir tênis, embora acredite que seja um esporte bacana de se jogar. Hoje, ao assistir a trechos do jogo entre o taiwanês Yen-Hsun Lu e Roger Federer, pude analisar um pouco das razões que me fazem desgostar do esporte dentro deste contexto histórico.

‘É esporte de burguês’, comenta um amigo, e aí está dito muita coisa: dos patrocinadores à plateia à ritualística de jogo, tudo é ‘burguês’. São mercedes, são etiquetas, são estéticas de uma burguesia que, em um movimento histórico mais amplo, procurou modernizar o posicionamento divino da nobreza que lhe antecedeu (e ainda existe, infelizmente) enquanto ~instituição~ dominante. Modernização que às vezes parece ~bem-sucedida~, mas no geral é só ridícula  mesmo, pra quem olha com atenção.

Uma burguesia, enfim, que não tem como evitar o relacionamento estuprante, usurpador e desumanizante com a empresa colonialista. Características que acabam por adicionar ao lúdico e construtivo de raquetes e bolas, de linhas e redes, a perversidade de um discurso de dominação e de supremacia que seria, ao fim e ao cabo, ‘corroborada’ em games, sets e rankings.

Como isso pareceu estar presente em Lu x Federer?

– evidentemente, em mercedes, rolex, nikes, adidas, heads e quetais.

– nas poses aristocráticas de quem assistia à partida.

– na estética comparativa entre ‘esportes burgueses’ e ‘esportes populares’, que, dadas as diferentes composições étnicas dominantes (tanto em público quanto em praticantes), se relaciona muito com as ideias do que seja ‘bom gosto’, ‘precisão’, ‘inteligência’ e tal. Não é à toa que empresas de consultoria e de relógios, por exemplo, procurem patrocinar com especial atenção fórmula um, golfe e tênis.

– em breves (e não tão breves) palavras de apoio, supostamente a Lu (devido ao fato de o torneio ser na China, e de não haver entendido o que diziam), que foram interrompidas ao menos uma vez com britânico ‘quiet please’ — e seguidas por risos da plateia. Embora sabendo do ‘costume’ de se pedirem silêncios em partidas de tênis, não pude evitar a leitura deste silenciamento como uma metáfora do silenciamento histórico de pessoas não brancas e não europeias, para não mencionar o elitismo presente neste formalismo (em que pese sua contribuição à concentração dxs jogadorxs).

– nas palavras de narradores que me pareceram adular (não sem razão) as belas jogadas de Federer proporcionalmente mais que as de Lu. É uma leitura minha, mas senti que o lance foi além do fato de Federer ser jogadorzão, estrela, e Lu ser desconhecido.

– no quanto esta suposta ‘objetividade’ dos esportes contribuía e contribui para a ideia de que possamos hierarquizar pessoas, com certos véus de igualdade. Onde existiu o racismo científico, existe a exclusão (econômica, social, e com honráveis exceções) de pessoas não brancas nos esportes ‘de elite’ — associados ao ‘refinamento’, à ‘precisão’, à ‘inteligência’ — e sua presença forte em esportes ‘populares’, o que é equivalente a dizer que há uma dominância de pessoas brancas naqueles e ausência nestes. O que acaba tendo efeitos discursivos muito semelhantes: posso ‘enxergar’, de maneiras mais ou menos sutis, a proposição babaca de que pessoas brancas têm aptidão para atividades ‘finas’, enquanto as não brancas a teriam para atividades ‘brutas’ (há que fazer recortes importantes nisto, de acordo com as diferentes não branquitudes).

– na minha torcida apaixonada por Lu. Parecia que o mundo iria repensar sua inferiorização e exotificação de pessoas não brancas e não europeias ao testemunharem a vitória do moço. Acho que a decepção viria, de uma forma ou outra… mesmo ele ganhando, acho que o mundo seguiria rodando dessa forma tosca e perdida.

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