O cissexismo está mais perto do que pensamos

Há uma conversa sobre a despatologização da transexualidade: as supostas dificuldades em se estabelecerem procedimentos de atendimento às pessoas transgêneras (e não cisgêneras) fora da estrutura patologizante (que existem em vários sentidos, em especial se mantemos intacto o pressuposto de que a normalidade é cisgênera), situações hipotéticas de pessoas apresentando demandas nos serviços de saúde, as funções e possibilidades do Estado, os pressupostos ridículos do diagnóstico de ‘transexualismo’, a potência e prestígio dos discursos médicos (e das pessoas que lhe são porta-vozes). Entre outros pontos, questões e observações bacanas.

As mesas são de bar, as garrafas se empilham sobre elas e formam uma espécie de fogueira ao redor da qual as ideias se atravessam. Seus conteúdos já ingeridos dão tons amistosos, talvez enfáticos, aos argumentos que se levantam e procuram compreensões nas outras pessoas presentes.

Inicia-se um relato. Relato de alguém atrelado (não saberia especificar em que nível) à instituição médica, relato de alguém que, autodeclaradamente, ‘tem considerado essas questões’. Há curiosidade generalizada circundando as mesas.

“Em um acompanhamento de procedimento cirúrgico, havia um travesti sendo operado..”

Observa-se brevemente, ‘uma’. Há um olhar que parece considerar a observação pedante e desnecessária, um olhar que diz ‘enfim’.

“E então ele estava ali..”

‘Ela’, observa-se novamente. O olhar se repete, talvez um pouco mais intenso, e já aliado a outros, curiosos que estavam pela história que mal principiava e já era interrompida por observações, quiçá, secundárias.

‘Mas é que ela é ela. De maneira geral [e aqui não havia qualquer fator no relato que pudesse fazer inferir de outra maneira], travestis demandam tratamento no gênero feminino’. Talvez tenham as observações — quiçá óbvias, certamente alinhadas com compreensões consagradas pelas Nações Unidas — crescido tanto que demandavam resposta para além de olhares de reprovação. A mimimização por conta de uns bobos artigos levou à cartada médico-mágica:

“A pessoa que tem um pênis é homem, tecnicamente falando: tem cromossomos xy, etc etc [saber-se-á de que se quis tratar, suponho]”

A cartada pareceu concebida como definitiva. O olhar era de quem fala de algo inacessível, ou acessível somente às pessoas que dominam ‘A TÉCNICA’. Acalmavam-se aquelxs que ansiavam pelo relato, julgando que se arrefeceriam observações enfadonhas como aquelas.

‘Suponho que algum teste para determinar os cromossomos da pessoa tenha sido feito, então’. A observação, agora de menor contundência (visto que, ainda que todos os testes possíveis tivessem sido feitos, a autoidentificação de gênero da pessoa prevaleceria), procurou desestabilizar a comum averiguação cromossômica realizada por pessoas com títulos médicos, uma espécie de ‘cara-crachá’ que se resume a ‘genital parece pinto -> homem’, ‘genital parece vagina -> mulher’ (que é problemático em todos seus 4 termos). Evadir-se da observação sem enfrentar a desestabilização foi fácil, entretanto: bastou um ‘não sei’.

‘Não sei -> não’, inferiu-se sem que se verbalizasse a inferência.

Para o bem e o mal, multiplicou-se a conversa, com o relato continuando entre as pessoas fisicamente mais próximas ao relator, e uma ponderação (bem construída) de que determinadas áreas do conhecimento podem exigir a utilização de termos técnicos, de maneira que haja compreensões comuns e necessárias em procedimentos e outras relações de trabalho. Ainda que estes termos possam ser problemáticos (e devam ser questionados), eles seriam necessários em alguma medida para estas instâncias de comunicação — seguimos a ponderação, aqui.

A observação, agora direcionada à ponderação, é de que é possível utilizar uma linguagem distinta — e respeitadora de direitos humanos — sem que haja perdas de comunicação e erros decorrentes destas mudanças de vocabulário e flexão de gênero. Exemplificando, não seria necessária a palavra ‘homem’, mesmo quando seja em um contexto de cirurgia peniana em uma pessoa que se identifique enquanto mulher: dizer ‘operemos o pênis desta mulher’ não leva a nada mais que o desconforto da desestabilização do que significa ser homem ou mulher neste mundo — um desconforto que parece inaceitável em um mundo cissexista. Operemo-la, e se necessário verifiquemos suas taxas hormonais, sua carga cromossômica, e o que mais pareça relevante: tratá-la enquanto mulher independe disso — e, repete-se, configura um direito humano.

A ponderação e a observação se repetem e se mantêm em tons de discordância relativa. Além da suposta necessidade dos técnicos termos ‘homem’ e ‘mulher’, agregam-se a não intencionalidade de ofensa por parte do relator (que é crível, por mais comuns que sejam evasivas do tipo) e a implícita ideia de que a flexão incorreta de gênero e a denominação da pessoa como ‘homem’ não seriam ofensas-desrespeitos que se sobreporiam à tal necessidade — que inclui, tudo indica, este relato mesmo, objeto primeiro das primeiras observações.

O relato prossegue como concebido, para todas as pessoas às mesas. Agora utilizando os corretos ‘ela’ e ‘as’ correspondentes — a contragosto e com risotas de canto de boca — foi fundamentalmente o relato de como foram cissexistas os comentários da equipe médica em relação à pessoa (travesti) que era ali submetida aos seus cuidados ditos ‘profissionais’. Evidentemente, como facilmente se depreenderá dos rechaços feitos anteriormente às observações (olhares e cartada médica), sem se utilizar do vocábulo ‘cissexista’; ‘preconceituoso’ e ‘discriminatório’ estão mais à mão, ou à boca no caso.

E então, transborda do relato somente uma novidade: o cissexismo está entre nós, e quando não o analisamos com inteligência (crítica), poderemos até mesmo sentir uma indignação qualquer em relação aos ‘preconceitos’ cometidos por outras pessoas, mas dificilmente teremos os instrumentos e a potência crítica para enfrentá-los efetivamente, e muito menos para atentar aos nossos eventuais deslizes — nem se diga corrigi-los. Ignorar ou minimizar tentativas (realizadas gratuitamente e de boa fé, com vistas a possibilidades de existência digna às pessoas trans*) de ensinamento, de desconstrução de verdades supostamente ‘técnicas’ ou ‘científicas’ como meros caprichos não significa nada mais que a geração de mais um relato de cissexismo em nosso agradável e gostosinho mundo.

Aguarda-se ansiosamente pela humildade em aprender, desconstruir e modificar (tão raros em meios considerados tão ‘inteligentes’ e prestigiosos), e não por relatos que gerem novos relatos do cissexismo (e de outros ‘ismos’, sem dúvidas) na sociedade.

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5 comentários em “O cissexismo está mais perto do que pensamos

  1. ola! como nao encontrei seu email, vou deixar postado aqui um video que achei de pessimo gosto, pelo nivel absurdo de discriminacao e preconceito, com musica cantada pela comediante tata, da mtv.

      1. Olá, não querendo me meter, mas já me metendo…
        Esse vídeo ou apenas o áudio dele, é um corte do programa Trolala que nesse dia estava com a trasformista Silvetty Montilla, essa música foi feita num improviso, junto com a música “Sou mulher, sou menina, eu cortei com Tramontina”.
        Logo, foi apenas uma brincadeira, de mal gosto.

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