Tempestade em guarda-chuvas*

[update 14-11-2012: retirada de referências ao texto-base]

Gostaria de tentar estabelecer diálogo, aqui, com um texto que gerou vários tipos de discussão recentemente, relacionando ‘feminismo’ a ‘questões trans’. É um texto interessante em que, a partir de relatos e leituras (inclusive, e especialmente, de pessoas trans*), se articulam algumas críticas a, diz-se, ‘uma questão problemática na afirmação de grupos ativistas feministas e transfeministas’.

Antes de partir às ponderações, faz-se necessário, considerando-se eventos posteriores ao post (e a ele relacionados de maneiras várias), observar que este texto condena quaisquer expressões de ódio e pessoalização do debate. Isto posto, creio ser importante frisar que (1) ‘transfeminismo’ (seja como conceito, seja como grupo de facebook) não é propriedade de nenhuma pessoa, e como tal, nenhuma pessoa faz declarações em seu nome. Por outro lado, ao menos enquanto grupo, entendo que seja possível dizer ‘o grupo transfeminismo disse-fez-etc’ quando se trate de declaração em que haja indícios razoáveis de produção, edição e publicação coletivas. Acho complicado, neste sentido, dizer que ‘o transfeminismo agride’. Frisar também que (2) em repudiando as odiosas mensagens, de consequências pessoais significativas, não se desconsideram diversas considerações críticas feitas por algumas pessoas por estes dias.

Para esta argumentação, preferi a seguinte estratégia: primeiramente, enfatizar os pontos de crítica do texto com que concordo – e em que grau concordo com eles, quando necessário. Posteriormente, o objetivo é de problematizar e apresentar discordâncias em relação a afirmações, proposições ou premissas apresentadas no texto, e também em algumas discussões posteriores provocadas por ele.

Concordâncias:

1) A impossibilidade de se atribuir uma identificação trans* às pessoas.

Quando o texto afirma que não é possível reconhecer ou compreender uma pessoa como trans* a partir de expressões ou comportamentos de gênero, ele basicamente se alinha a uma conhecida bandeira transfeminista (e não só, evidentemente): a ideia de que a autoidentificação é o aspecto mais fundamental na questão de identidades e expressões de gênero. O que se estranha – e se apontará a seguir – é o fato de estas tentativas de ‘identificar’ pessoas trans* por parte de terceirxs seja associada, de maneira generalizante, a ‘grupos transfeministas’: se tentativas do tipo ocorrem em espaços trans*, que elas sejam criticadas, inclusive tendo em mente que este processo de identificação (colonizatório, diga-se) é, em alguma medida, reprodução de procedimentos cissexistas que demandam das pessoas trans* as supostas verdades sobre seus corpos e identificações (mediadas, se necessário, por instituições médicas e jurídicas, denotando a disposição em se considerarem pessoas trans*/transgêneras como de menos, ou nenhuma, agência sobre suas vidas).

2) Expressões de gênero inconformes não estão necessariamente atreladas a vivências transgêneras.

Esta proposição termina sendo decorrência da predominância da autoidentificação em relação a identidades de gênero: pode-se ser trans* ou não independentemente de quais sejam as expressões de gênero da pessoa. Eu até atreveria uma extrapolação deste raciocínio, em verdade: o brincar de boneca ou carrinho e o gostar de vestidos ou gravatas não devem levar a conclusões inequívocas sobre as identidades de gênero das pessoas tanto quanto pênis, vagina, seios e outras partes e dimensões corporais não devem. Afinal, acreditar na possibilidade de tais inferências é uma das fundações da cisgeneridade – e do cissexismo. E em realidade, como não poderia deixar de ser, esta é outra luta importante do transfeminismo: a ideia de que as pessoas têm a agência de serem aquilo que se considerem ser, a partir dos corpos que considerem mais adequados e factíveis dentro de suas condições de vida. E isto vale para todas as pessoas, ainda que se dê uma ênfase maior às pessoas trans*/transgêneras, de diversas maneiras cerceadas nesta sua agência.

3) Subversões de gênero não são circunscritas às pessoas trans*.

De maneira similar, conservadorismos de gênero não estão circunscritos às pessoas trans*. Aqui, talvez caiba uma observação sobre ‘não-cisgeneridades’: sem tentar nomear gentes ou lhes atribuir identidades (a ideia de autoidentificação não nos permitiria), poderíamos pensar, analiticamente, vivências não-normativas de gênero como vivências não-cis, havendo entre estas diversas vivências trans*. A potência em se pensar este esquema está no fato de se agregarem algumas pessoas (por exemplo, gays afeminados e lésbicas masculinizadas) ao cerne das questões da cisgeneridade normativa: a deslegitimação ou inferiorização de expressões ou identidades de gênero que não sejam vistas como naturais ou essenciais, a partir de inferências sobre corpos e socializações. Evidentemente, isso não implica dizer que um gay afeminado tem os mesmos problemas que um homem transexual (tais problemas sequer seriam iguais entre dois gays afeminados, a bem da verdade); a normatividade que incide sobre ambas pessoas, entretanto, poderia ser pensada como uma idealização supremacista da cisgeneridade.

4) A exotificação de pessoas trans* na academia.

Concordo com a proposição de que pessoas trans* são cotidianamente exotificadas, patologizadas e inferiorizadas (colonizadas, afinal) no meio acadêmico, mas não restringiria a crítica a ‘grupos que estudam Teoria Queer’. É uma definição de ‘grupos’ relativamente problemática, e por outro lado a exotificação também está em lugares que nunca tocaram as mãos em Butler ou Preciado.

Às problematizações, enfim:

1) ‘A relação entre o feminismo e as questões trans’.

Inicio aqui através de uma reflexão sobre o título do post, que estabelece a possibilidade de uma ‘relação’ entre ‘feminismo’ e ‘questões trans’. Em minha opinião, ‘relação’ não é exatamente o que se espera do ‘feminismo’, ou de quem se preocupa com ‘questões trans’: o feminismo deve incorporar as questões trans* à sua constituição teórica mesma, desconstruindo eventuais premissas, lógicas e bandeiras com potenciais ciscêntricos e-ou cissexistas, enquanto a ‘luta trans*’ também deve incorporar as inúmeras contribuições do feminismo. Ou seja, o feminismo que tome consciência das questões trans* só pode ser trans+cisfeminista (para além de outras intersecções), e a luta trans* deve similarmente ser transfeminista. Pensar que existam ‘relações’ entre estas duas ‘áreas’ leva a um possível risco de reificação-cristalização do feminismo ciscêntrico, e da luta trans* alheia ao feminismo.

2) ‘De um tempo pra cá, tenho percebido uma questão problemática na afirmação de grupos ativistas feministas e transfeministas…’

Bom, aqui acho importante, por mais sutil que possa parecer, contrapor uma ideia: dizer ‘afirmação de grupos ativistas feministas e transfeministas’ pode passar a impressão de que esta ‘questão problemática’ – que é efetivamente problemática quando ocorre (ênfase no ‘quando ocorre’), e aí concordo plenamente – estaria presente de maneira dominante nestes grupos colocados como ‘ativistas’. E, pelas minhas experiências, estamos num processo dialógico de aprendizado em que esta questão problemática vem sendo constantemente criticada, daí parecendo curiosa a generalização de que haja uma questão problemática em ‘grupos ativistas feministas e transfeministas’, especialmente quando se dá a entender que os grupos mesmos, enquanto ‘entidades’, estejam defendendo tal questão.

3) ‘[…] trans – termo que sugere que a pessoa pertence a um sexo ou gênero diferente do designado no nascimento.’

Aqui, talvez usasse ‘se identifica com’ ao invés de ‘pertence a’. Me parece importante porque identificar-se traz uma noção de agência (em oposição a um certo ‘pertencimento’ fatalístico e-ou permanente) que está alinhada com entendimentos de que, na definição mesma de sexo-gênero de uma pessoa, o fator mais relevante é sua (auto)identificação.

4) ‘Ao afirmarmos que os atos de se vestir ou se comportar de modo estereotipicamente feminino ou masculino bastam para identificar alguém como trans…’

Aqui, após haver apontado a concordância de que não há critérios que prevaleçam sobre a autoidentificação das pessoas, questiono somente a ideia de que ‘grupos feministas e transfeministas’ tenham afirmado que seja possível identificar alguém como trans* a partir de suas expressões de gênero. Evidentemente, caso se apontem grupos que fizeram isso, a crítica deve ser implacável, mas o lance é que não cheguei a ver tais posturas como posturas majoritárias ou predominantes num grupo, muito menos como posicionamento ‘do grupo’ (declarações constitutivas do grupo, ou posicionamentos explicitamente coletivos).

5) ‘O termo trans, hoje, é uma abreviação usada para denominar um enorme grupo de pessoas: desde travestis e transexuais até gays efeminados.’

Gays efeminados não são usualmente colocados como dentro do termo trans* – respeitando, logicamente, suas autodefinições individuais como soberanas. A depender de suas performatividades de gênero, há o potencial de se analisar seu posicionamento social como não cisgeneridade.

6) ‘O problema é que com isso cria-se um foco potencializado nos papéis e expressões de gênero como fatores determinantes da experência trans.’

Aqui, partimos de uma premissa que foi questionada acima. ‘Grupos transfeministas’ não me parecem necessariamente apontar papeis e expressões de gênero como determinantes na experiência trans. Há muito, muito material discutido que se refere às alterações corporais, ao acesso a recursos de saúde, etc, ainda que, talvez seguindo correntes de estudos contemporâneos de gênero (incluindo-se teoria queer), possa-se discutir bastante papeis e expressões de gênero. E neste sentido, não percebo que haja esta leitura de que estes papeis e expressões seriam ‘determinantes’ ou fundamentais, mas sim que são relevantes em conjunto com outras questões – como acesso a recursos de saúde, a emprego/renda, a dignidade, etc.

7) ‘A idéia de que a subversão de gênero é uma manifestação intrínseca da condição trans é tão discutível…’

Com certeza é algo discutível, e é uma crítica presente em alguns textos de pessoas trans*/transgêneras, como Julia Serano. Mas na leitura do texto, temos a impressão – extrapolando a generalização do primeiro parágrafo – de que este seria um discurso predominante, majoritário ou ao menos muito relevante nos ‘grupos feministas e transfeministas’. E aqui, ainda que algumas pessoas (por vezes de maneiras questionáveis, no sentido de trivializar vivências trans) estejam se sentindo mais confortáveis em se identificar com categorias como ‘trans’ ou ‘travesti’, discordo que se possa tomar a subversão de gênero como um equivalente a ‘trans’. Quando se diz trans* ou transgênero, no sentido ‘guarda-chuva’, faz-se referência às inúmeras inconformidades de gênero, sejam elas autopercebidas como ‘subversivas’ ou não. Se a ideia de que subversão de gênero equivale a ‘trans’, esta não me parece presente no geral dos ‘grupos trans’.

8) ‘Vale lembrar que ter opiniões sobre um assunto não é necessariamente uma “colonização”. ‘

Sem dúvidas, não é. Infiro que a frase tenha surgido a partir de críticas que teriam caracterizado uma posição como ‘colonizatória’, o que não me parece muito preciso. Faço duas considerações aqui: em primeiro lugar, é preciso ver a ‘colonização’ como algo que permeia nossas relações, fazendo com que não possamos estar ‘fora do jugo colonial’; se trabalhamos para descolonizar nossas mentes da normatividade cisgênera, fazemo-lo a partir de um contexto cissexista – que, evidentemente, nos atrapalhará sempre que possível. Em segundo lugar, relações de poder que poderiam ser definidas como fundamentalmente ‘colonizatórias’ me parecem estar um pouco longe de discussões de facebook, twitter e grupos virtuais: ainda que possam internalizar premissas coloniais, vejo como pouco significativa sua capacidade de inferiorização ou restrição de recursos a pessoas trans*, ao menos em comparação às relações de poder que pessoas trans* estabelecem com instituições médicas e jurídicas, com a potência de causar importantes restrições econômicas, legais e emocionais a estas pessoas. O que não impede, a priori, alguém de perceber um caráter colonizatório em algo, a depender do que seja este ‘algo’.

9) Transgênero/transgeneridade e trans* como conceitos guarda-chuva: ‘Isso quando não é usado o termo trans*, que, ao meu ver, vai ainda além na pretensão de igualar as necessidades de grupos de pessoas tão diversos, só porque começam com o prefixo “trans”.’

Esta é uma ponderação que considero particularmente importante, por compreender que estes termos têm um potencial bastante alto de aglutinação de forças políticas, e são percebidos de formas distintas em determinados contextos, levando a desentendimentos frequentes.

O termo transgênero (transgender, do inglês) tem sido compreendido, em algumas leituras que tenho feito, como ‘uma outra identidade’ além dos outros dois ‘T’s mais conhecidos, ‘travestis’ e ‘transexuais’. Seria um termo para designar ‘pessoas que estão em trânsito de gênero’, numa conceituação que ouvi algumas vezes. Pessoalmente, não aprecio muito esta esquematização por notar que ela perde a potência da conceituação que se tem estabelecido em alguns contextos, como o norte-americano: “ ‘transgênero’ diria respeito a pessoas cujas identidades ou expressões de gênero não estivessem em conformidade com as expectativas sociais para o sexo que lhes foi designado [imposto] ao nascer” (Transgender Rights, p. XIV).

Tal definição me parece muito mais inclusiva e aglutinadora que a ideia do ‘trânsito de gênero’, conferindo a ‘transgênero’ a qualidade de ser uma “identidade política coletiva” (p. XV), fundada sobre a ideia de que, “apesar de suas profundas diferenças [entre as variadas vivências e identidades trans*], estes grupos [transgêneros/trans*] todos compartilham um interesse político comum no direito à autodeterminação de gênero”. Isto é, o uso de transgênero/trans* não pretende ‘igualar’ as necessidades destes diversos grupos – evidentemente, há que se atentar para este risco sempre –, e sim questionar criticamente a normatividade de gênero que incide, às suas maneiras, sobre todas pessoas (cis, não cis, transgêneras).

Finalmente, nos sentidos destas ponderações, acredito que o texto analisado aponta vários pontos importantes de reflexão sobre como devemos estar sensíveis às especificidades das diferentes formas de se vivenciar as transgeneridades (ou não cisgeneridades), ainda que tenha feito extrapolações-generalizações de mensagens pessoais-individuais ou de ‘tumblrs trans*’ (de outros países, inclusive) para um suposto ‘transfeminismo’ ou ‘grupos transfeministas’, e tomado algumas visões particulares sobre ‘transgeneridade’, ‘transgênero’ e ‘trans*’ como as perspectivas predominantes entre pessoas trans* (ou seja, tomando o ‘guarda-chuva’ como idealização da ‘subversão de gênero’, por ex., algo distinto de alguns usos feitos noutros contextos mais consolidados). Em outras palavras, fez-se de algumas críticas válidas uma tempestade nos guarda-chuvas transgêneros*; infelizmente, foi tempestade que deixou climas tensos.

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