Em busca do post perfeito, ou Precisamos falar sobre escopo

Acabo de ler uma crítica a um texto de Daniela Andrade, ‘Por um feminismo que pense na condição da mulher trans*‘. Um longo texto que trata das dificuldades enfrentadas por muitas mulheres trans* (além de suas superações pessoais e algumas conquistas políticas), e de como o feminismo — se feminismo se pretende chamar — precisa estar atento a estas demandas políticas.

Pois bem. A crítica estava centrada na ideia de que o texto em questão ‘anulava’ homens trans* (homens transexuais, homens transgêneros), ‘deixando um buraco’ que seria incompatível com quem ‘fala tanto de inclusão’. E, antes de iniciar uma problematização desta crítica, faço alguns reconhecimentos após reler o texto de Daniela:

01. ‘Homens cis’

Em vários momentos, usou-se no texto o termo ‘homens’, quando em realidade o mais correto seria falar em ‘homens cis’ — já que, ao menos em uma instância, o que se estavam levantando eram aspectos e estereótipos (problemáticos) da ‘hombridade cis’.

02. ‘Mulheres cis’

“Essa maior liberdade sexual proporcionou às mulheres o acesso universal aos anticoncepcionais”. Em frases do texto como essa, poderemos ter a impressão (legítima) de que se estão posicionando homens trans* debaixo desta categoria ‘mulheres’ — já que, dadas as circunstâncias legais de muitos deles (em termos de documentação), o acesso a tais medicamentos também lhes estaria garantido. Neste sentido, talvez o texto pudesse haver sido mais específico ao destacar que tal acesso é efetivo (relativamente, nos termos da ‘dicotomia’ cis-trans; ignorando outros aspectos fundamentais como classe social e raça-etnia) a mulheres cis, e a linha argumentativa do texto — que trata da exclusão de mulheres trans deste acesso a medicamentos — estaria mantida.

Sendo assim, poderíamos pensar numa crítica que enfatizasse algumas reproduções de discursos da cisgeneridade — o que me parece bem diferente de uma crítica à ‘anulação de homens trans*’. Estes deslizes são, para além de qualquer intenção pessoal (que sei que não existe em Daniela, e basta a leitura de seus outros textos para comprovar isso), um demonstrativo da força que o discurso da cisgeneridade possui. Evidentemente, em um mundo que exclui e marginaliza sistematicamente as vivências trans*, haverá instâncias em que mesmo textos de ativistas trans* esbarrarão em cissexismo ou cissupremacismo. Precisamos, enfim, ter a humildade de reconhecer que ninguém ‘chegou lá’, ainda, no que se refere aos conhecimentos e às lutas antiopressivas, e re+des+construir (juntxs conforme possível e necessário) as normatividades de gênero.

Estas ideias de humildade e solidariedade me levam a pensar na problematização da crítica que foi feita ao texto de Daniela. Afinal, o quanto tal crítica — em sua forma e conteúdo — contribui para um fortalecimento dos laços de luta? O quanto esta busca pelo post perfeito — poderíamos pensar no quanto esta busca está atrelada a ideologias capitalistas, mas seria uma digressão maior (ainda) –, que ocasiona críticas ácidas a textos cujas ideias centrais se mantêm intactas (a exclusão de mulheres trans* por ‘certos feminismos’), é construtiva ou propositiva? Desejamos que surja o ‘post perfeito’, ou desejamos, em verdade, que este post perfeito seja de nossa autoria, ou de alguém de nossa simpatia?

Por outro lado, é preciso ter em mente que textos possuem um escopo definido. O título escolhido por Daniela me parece autoevidente: ‘Por um feminismo que pense na condição da mulher trans*’. Ou seja, não houve negação de que o feminismo deva também considerar homens trans* em seus debates, em suas lutas políticas; Daniela sequer se propõe a discussão deste tema — que é inquestionavelmente importante, e provavelmente necessitaremos de muitos textos que problematizem a exclusão-invisibilização de homens trans* nos feminismos, e na sociedade em geral. Ou seja, dizer que o texto em questão ‘anulou’ homens trans* é tão falacioso quanto dizer que ele ‘anulou’ as questões raciais-étnicas: existia um escopo, e se as ideias do texto (de exclusão das mulheres trans* e suas questões políticas pelo feminismo) não são abaladas pela complexificação trazida pela ‘adição’ de homens trans* ou do fator raça-etnia, não se pode falar em ‘anulação’. Escopo é isso, é falar de um assunto e não falar de outro, porque o universo é deveras complexo.

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