Uma mensagem familiar

Achei relevante transcrever neste blog uma mensagem que recebi recentemente de uma pessoa da família. Me parece que ela traz um pouco das inquietações de algumas pessoas sobre minha ‘transição’, ou minhas mudanças, ou o que seja que eles achem estranho em mim agora — penso isso porque essas linhas discursivas não são trilhadas pela primeira vez por pessoas próximas a mim. E quem sabe outras pessoas trans* não recebam questionamentos semelhantes…

[28-jan, 22:16: mensagem dx familiar]

Oi [meu nome de registro], gostaria de saber se está tudo bem com você.

Na última vez que falamos, na formatura [de outrx familiar; fora uma ocasião em que conversamos brevemente], notei que não quer a aproximação de ninguém. Sei que você foi moldad[x] a não “dar espaço” para não encherem sua paciência, mas não custa nada tentar ser flexível, caso queira, evidentemente. Abraços. [título e nome dx familiar].

[28-jan, 23:31: mensagem dx familiar, após minha ‘tardança’ em responder sua primeira mensagem]:

Oi [meu nome de registro], nem precisa responder à mensagem anterior: já entendi. Você está “levantando a bandeira” dos marginalizados por causa da opção sexual não convencional, né? Com todo o respeito, não dá para você se preocupar com coisas mais relevantes para a sociedade? O seu nível cultural poderia ser bem aproveitado com causas mais nobres, você não acha? Até eu, que sou mais bob[x], não perderia tempo com essas questões. Desculpe-me por não compreender a importância que você está dando para essa causa e para essa categoria (minoria) que significa tão pouco para os outros mortais, sim? Eu imaginava que você estivesse envolvido com coisa séria, a julgar pela sua capacidade. Inteligência é uma coisa, sabedoria é outra. Esta adquire-se com maturidade, vivência e objetividade. Mas desejo-lhe boa sorte nessa empreitada, e faço votos para que possa recuperar, no futuro (quando cair sua ficha), o seu tempo perdido. Cada um curte a sua rebeldia num momento da vida. Vá firme nessa “bobagem”. Um grande abraço de seua [título dx familiar] chamada “[pseudônimo que desconhecia até então]”, [título e nome dx familiar].

—–

[31-01, 20:33, minha resposta]

bom, [título dx familiar], desculpe a demora na resposta, estou um pouco lenta pra responder mensagens; o trabalho anda cansativo.

quanto às suas hipóteses caracterizadas como supostas compreensões sobre mim (‘já entendi’):

(1) sobre ‘levantar bandeiras’: levanto todas as bandeiras que considere minhas, quando me convier, quando considerar apropriado. minha avaliação sobre que bandeiras são ‘relevantes’ ou ‘irrelevantes’ pode ser bastante diferente das de outras pessoas (para mim, não há hierarquias; em verdade, aliás, fico muito curiosa sobre como são hierarquizadas estas coisas, caso queira contribuir com um exemplo).

(2) ‘opção sexual’: deve haver uma confusão aqui, já que acredito que a dimensão de minha personalidade que tem causado mais estranhamento seja minha identidade de gênero, e não minha sexualidade. Creio nisso porque praticamente não falo das pessoas com quem me relaciono sexual ou afetivamente com familiares (incluindo-se meuas pais e irmãs), e também porque todos meus relacionamentos que se tornaram sociais (namoradxs, fundamentalmente) foram socializados como relacionamentos heterossexuais (em que eu seria visto como homem e minha parceira como mulher). [Vejo a recente inquietação das pessoas nas coisas que utilizo e em minhas expressões de gênero, e isto, ainda que se relacione com sexualidade, passa primeiramente pela dimensão de gênero, que na praticamente totalidade das sociedades humanas define parte significativa das funções sociais e estereótipos sobre as pessoas —– trecho adicionado para este post, fora da mensagem ax familiar].

(3) de ‘tempos perdidos’ e ‘recuperações’: minhas avaliações sobre se há algo a se ‘recuperar’ na vida, e que se perde tempo ao ‘sermos nós mesmxs’ e lutarmos por isso sempre que consideremos necessário, são profundamente divergentes das suas. E, havendo considerado a sustentação de sua argumentação bastante frágil, permito-me continuar com as minhas percepções e análises por enquanto. Minhas ‘bobagens’ têm-me feito muito bem, nos últimos tempos.

Um abraço de sua [título familiar] viviane.

v.

Anúncios

7 comentários em “Uma mensagem familiar

  1. Viviane! Que coisa. Não sei se vou encontrar tal resistência (talvez encontre), mas bem, estamos na vida pra isso mesmo. Se fosse pela “facilidade”… Um monte de gente vai por ela. Não é fácil descobrir quem nós somos de verdade. Mas é muito encantador! Porque crescer dói… Mas é bom.

    Um beijo!
    Carolina*

      1. E as resistências podem ser usadas para outra coisa: assim a gente tem mais certeza do que quer. Mais ainda!

        Beijo! 🙂

    1. Obrigada pela mensagem, Cristal! 🙂
      Ai, tenho momentos e momentos, sabe… teve uma outra mensagem depois destas do post, e esta não tive paciência nenhuma pra responder…

      Beijo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s