Tristezas repentinas e um sopro de descolonização possível

Tudo andava relativamente bem pelo meu dia: o trabalho já cumprido, o ponto já batido, umas poucas compras já feitas e as ideias já arejadas. Também havia sido um dia sem muitos ‘constrangimentos de gênero’, talvez somente os costumeiros olhares de estranhamento por parte do público; ao menos fora todo o percebido por mim em mais um dia.

Preparo-me para ir, então, celebrar o fechamento de um importante ciclo na vida de algunxs queridxs amigxs, formandxs de Ufba. Saio como geralmente venho saindo nos últimos tempos, sandália rasteira, short e blusinha, os cabelos amarrados e pouca elaboração na maquiagem, e apesar da maior frequência, ainda não posso evitar completamente o nervosismo e sensação de enfrentamento normativo ao expressar minha identidade de gênero (trans).

Caminho sozinha por um viaduto deserto. Carros passam indiferentes por mim, nos dois sentidos, e abaixo outros se espremem por vias de menos. A altura traz certa curiosidade a mim, e uma breve rajada de vento parece me convidar para um passeio. Talvez seja bom se abandonar ao ar, onde tudo é mais leve. Desço as escadas, entretanto, e o ponto de ônibus está vazio.

A solidão é algo que aprecio muito, no geral, mas quando me vejo naquele ponto de ônibus tão cotidiano, uma rajada mental me atinge repentinamente. Os erros em minha generificação (dos dolosos ou culposos ‘senhor’ às pressões familiares, corporativas e institucionais por uma identidade de gênero ‘cisgênera’), as mudanças de realidade socioeconômica, as mudanças corpóreas (químicas ou físicas), o meio acadêmico que se aproxima, a morte de minha avó paterna (e a posição social de meu pai nisso tudo, bastante paralela à minha enquanto filha mais velha), todos estes fatores parecem se mesclar em uma sensação triste de marginalização, de solidão forçada, e então não quero encarar nada, nenhum olhar potencialmente cissexista-transfóbico, nenhuma conversa em que minha voz seja lida como masculina, nenhum ambiente onde eu saiba que meus gestos e expressões estejam sendo avaliadas de acordo com critérios cis+sexistas, classistas, branco-supremacistas, etc. O ônibus surge lá embaixo, já se afastando da faixa da direita, quando começo a lhe fazer sinal.

Desço no campus de Ondina da Ufba, local que tem sido crucial na minha formação enquanto pessoa transgênera desde antes de minha mudança pra Salvador. Sexta-feira à noite, a portaria já quer fechar, mas algumas pessoas vão entrando: há sons ali para dentro. Vejo um movimento razoável de pessoas próximo à biblioteca, e aquele evento social que eu imaginava aconchegante e acolhedor é mais impessoal que isso — o que não é necessariamente ruim, porém situações como esta costumam me deixar mais defensiva e constrangida do que de costume. Passo pelas margens e me recolho aos pequenos resquícios de verde na universidade de concreto; queima-se um pouco da babilônia por lá, sob a (ótima) música do gramado ao lado. Vejo os galhos das árvores, suas folhas, e penso na serenidade de seu desenvolvimento. Dois moços se sentam ao lado.

Há conversas triviais entre nós, sem que eu saiba se fui ‘notada’ ou não — isto é, se perceberam que sou trans ou não. Imagino que tenham ficado em dúvida. A melancolia persiste, talvez exacerbada pelas reflexões criticamente realistas de que o mundo é um lugar complicado para pessoas que não estejam exatamente dentro daquilo que se espera do ‘gênero designado ao nascer’ delas. Ou talvez sejam algumas lembranças de minha avó, ou ainda a especulação sobre como seria participar das cerimônias em sua homenagem nas minhas ‘condições atuais’ — isto é, como é que seria a chegada da travesti da família nestas situações tão delicadas. Decido que não vou conseguir ou querer socializar por esta noite, de maneira a evitar potenciais constrangimentos ou exotificações — o que é bastante dolorido, dada a importância simbólica desta farra nas vidas de pessoas tão queridas. Vou conversar com uma destas pessoas, um pouco afastada do babado, para lhe explicar minha ausência ou, mais precisamente, breve presença.

Ela está notavelmente feliz e linda, com líquido caindo do copo, e já pressentindo que não estou bem. Nos abraçamos, eu sou capaz de verbalizar um pouco das minhas angústias, e ela me ouve pacientemente. E eu choro, como em uma tentativa desesperada por esvaziar o coração de dores, como em uma busca pelo alívio da compreensão destas dores por uma outra energia espiritual. Ela sabe o quanto isso me faz bem, e o quanto isso é significativo: mais um dia se termina e eu sigo resistindo. E ela, então, me conta de um episódio que ocorreu consigo:

Em um ônibus circular, entra uma mulher trans que (infiro) é percebida enquanto trans com relativa facilidade. Ela paga seu bilhete, e caminha pelo estreito corredor. As pessoas lhe viram os rostos em desgostos privilegiados, tão privilegiados que sequer se consideram violentos em suas ojerizas pelas diferenças das normalidades hipócritas. Ela, evidentemente notando a prepotência alheia, proclama “Vocês podem me virar a cara, mas não podem negar que eu existo”. Minha amiga, dada a fechações, sentenciou aquela microssociedade ao seu lugar de mediocridade com um efusivo “Sambou na cara da sociedade”.

A moça se virou para minha amiga e lhe enviou um beijo. Um beijo de descolonização.

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