Abraço (19-jan-2010)

Caminhava por ruas já conhecidas, e poderia até mesmo reconhecer alguns desconhecidos que com ele partilhavam um ou outro trecho em seus trajetos casa-trabalho ou trabalho-casa, dá quase no mesmo. Já era tarde daquela noite, no entanto, e este andar se fazia quase solitário, com suas poucas moedas a tilintar em um ou outro bolso. Jovens em seus vinte e poucos anos voltavam para casa, sós ou acompanhados, e se acompanhados estivessem, de amigos, amigas ou amantes; uns mais, outros menos embriagados. Talvez houvesse uns mais jovens, outros bem mais velhos, mas nestes e também em quase todos os demais existia uma tal indiferença em relação a ele que em uma reciprocidade inconsciente já não havia nele qualquer esforço em captar definições, fossem elas objetivas ou subjetivas, sobre quem quer que fosse. Alguém mais cínico os chamaria simplesmente de clientes quando lhes era oferecida a oportunidade da caridade, mas este homem somente se referia a eles como pessoas.

Passando ou sendo ultrapassado por carros e gentes, pedia trocados a quem lhe parecesse mais disposto, em uma avaliação praticamente instantânea – e não raras vezes equivocada – de poder aquisitivo, generosidade, disponibilidade de moedas, entre outros importantes fatores. Este exercício, entretanto, não implicava qualquer intimidade, como já implícito em sua resposta à generalizada indiferença alheia; eram negócios cujo sucesso era crítico na satisfação de suas parcas necessidades fisiológicas, restritas tanto pela escassez quanto por mero desconhecimento dos luxos limitadamente possíveis daquela sociedade.

Imaginou ter aproximadamente um dólar e trinta centavos a lhe pesar o bolso em alguns nickels, dimes e quarters quando sentiu fome. Nada intolerável àquele corpo tão calejado pelas faltas, porém a proximidade daquele fast-food vinte e quatro horas acionou-lhe o senso de oportunidade, posto que eram já quatro da manhã. Olhos para os lados, esperou o abrir do semáforo e caminhou arrastando os pés pelo asfalto escuro e empoeirado. Haveria de subir ainda mais uma quadra até a lanchonete, trajeto que lhe permitiu tentar incrementar o pouco dinheiro de que dispunha ao passar por um casal que descia a rua a passos lentos e quietos. O não indiferente e familiar foi tudo que conseguiu até abrir a porta de emes amarelos na entrada daquele recinto de luzes brancas.

Os olhos ainda se acostumavam à claridade repentina enquanto suas mãos e boca já trabalhavam, numa última esperança de chegar ao caixa com algo além daquelas poucas moedas. Os olhares altivos ou medrosos, já poucos devido ao horário, davam o tom de seu insucesso, em grande parte explicável pelo forte odor de álcool e sujeira impregnada que se tornava ainda mais marcante naquele ambiente fechado. Chegava à curta fila do caixa com os mesmos um dólar e trinta e oito centavos – errara por pouco a estimativa –, havendo ainda à sua frente três chances, a se apresentarem num homem alto de jaqueta preta, duas garotas em trajes curtos e um outro jovem de jeans e camiseta, respectivamente.

Desta vez, para além do rotineiro afastamento que causou – sem nenhum centavo conquistado –, recebeu uma advertência seca e direta da pequena moça do caixa quando estendeu a mão ao jovem que já fazia seu pedido, o que não lhe deixou sequer tentar argumentar, algo que sinceramente seria improvável mesmo que houvesse uma chance. A moça, provavelmente nascida no leste asiático e de feições que lhe dariam em torno de dezoito anos, rapidamente retirou os olhos do homem e seguiu seu trabalho, como se a atenção que merecesse já houvesse sido dada, restando-lhe somente o retorno ao final da fila. Uma senhora havia ficado com a posição que outrora fora sua, tendo dado dois passos à esquerda ao vê-lo se aproximar. Já um pouco abatido, quedou-se a uma distância segura daquela mulher até que chegasse sua vez.

Next, já chamava de maneira quase instintiva e carregada de sotaque a senhora a trabalhar no caixa à esquerda da menina asiática. Aparentando seus quarenta anos, já se notavam o cansaço e a desolação da necessidade daquele trabalho em sua fisionomia, e em seu olhar o aborrecimento em atender aquele cliente que se aproximava sujo e arrastado.

Olhou o cardápio colorido e iluminado a luzes brancas como quem vai a restaurante mais caro que de costume, fazendo contas a analisando opções. Frente ao desapontamento que lhe causou notar que seus poucos trocados não seriam capazes de adquirir um simples sanduíche, olhou a caixa com seus olhos mais coitados, sendo recebido com crua indiferença pela senhora – em parte compreensível, diga-se a verdade, pelo já mencionado estado de espírito da mulher e pela frequência com que lhe lançavam estes olhares clementes. Já sem muitas alternativas à mão, recolheu lentamente as moedas aos bolsos, e olhou para trás a buscar por alguma compaixão ao redor, não a encontrando sequer no casal que há pouco entrara e esperava pelo desfecho daquela vergonhosa pechincha para que pudessem pedir seus lanches.

Tomado pela desilusão, sentou-se em uma das várias mesas disponíveis do local, esparramando-se sem qualquer elegância pela cadeira dura. A fome, intensificada pela expectativa da iminente saciedade – ainda que parcial –, fazia com que persistisse de alguma forma, entretanto: ao passar de alguém a levar seu lixo, a entrar ou a sair, resmungava impaciente por qualquer quantia que lhe permitisse comer. Evidentemente, tal aproximação era ainda menos apreciada pelos passantes, que através de seus olhares consideravam a atitude do mendigo de insolente e imperdoável arrogância, o que em nada lhe ajudou.

Dando-se conta de seu próprio descontrole, e de sua ineficácia na arrecadação, resolveu esperar alguma calma e encostou um pouco no assento. Olhou as unhas, umas roídas, outras de pontas pretas, e a pele gordurosa; sentiu a grossa barba, e inutilmente pensou que necessitava banhar-se, uma sensação intensificada quando tocou os cabelos duros e poeirentos. Não seguiu neste exercício mental, em um primeiro momento porque não levaria a nada, e em um segundo porque sentiu um toque em suas costas. Já preparado para ser expulso do recinto por algum funcionário impaciente, surpreendeu-se ao virar-se e encontrar o jovem de jeans e camiseta, que em um movimento rápido lhe estendeu uma nota de cinco dólares.

Ainda surpreso com o ato, e com mãos pouco acostumadas a lidar com notas, o pobre homem somente fez sorrir um sorriso aberto e sincero, ainda que levemente encabulado, manejando cuidadosamente seu novo patrimônio. O jovem o fitou feliz, sentindo haver ajudado de alguma pequena forma, e estranhou a pergunta do homem sobre o sanduíche que tinha à mão direita; desejava saber se aquela seria uma boa opção. Depois de dois segundos de surpresa, o jovem apenas sorriu e acenou positivamente com a cabeça, o que já foi razão suficiente – mais pelos cinco dólares que pela dica – para que o homem estendesse seus braços e escancarasse um sorriso quase infantil.

Já com seu sanduíche às mãos, o homem abrandava sua ordinária fome, porém um triste pensamento não lhe abandonava ao recordar a imagem daquele jovem a lhe recusar de maneira educada o abraço, sem que pudesse entretanto disfarçar um ligeiro olhar de repulsa. Após alguns poucos minutos, havia sido reconduzido, sutil e inequivocamente, a sua familiar condição animal.

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