Ninguém chegou lá ainda

Uma das maiores preocupações que tem estado nas cabeças que pensam as recentes manifestações Brasil afora se relaciona com os seus direcionamentos ‘futuros’ (tudo é muito intenso e rápido nestes últimos dias), em termos de pautas, estratégias políticas e inclusividade dos movimentos. Estes três aspectos, tentarei resumi-los da seguinte forma, na intenção de analisar possibilidades de conscientização política e de construção de movimentos políticos críticos — partindo das perspectivas que tenho sobre o que significariam ‘conscientização’ e ‘criticidade’:

01. Pautas políticas (quais são relevantes e desejáveis; a combinação ideal entre ‘foco’ e ‘amplitude’)

Os eventos recentes estiveram, inicialmente, centrados em questões mais relacionadas ao transporte público desde um ponto de vista das pessoas usuárias (faço ênfase no fato de as manifestações, ao menos até onde vi, não incluírem temas ligados aos ‘rodoviários’, um tema bastante presente na discussão de transporte público em Salvador, por exemplo). A partir de seu crescimento, e das respostas governamentais com brutalidade policial, as pautas se multiplicaram, associando-se a insatisfações mais gerais por parte de parcelas maiores das populações — incluindo-se, aí, pautas conservadoras e reacionárias também.

Em relação às pautas, creio que há duas questões principais a se debater: em primeiro lugar, evidentemente, devemos refletir profundamente sobre que pautas políticas são relevantes neste contexto histórico. Em segundo, deve-se também considerar qual seria o foco ‘ideal’ para que as manifestações maximizem seus potenciais de mudança política.

Meu entendimento sobre estas questões é o seguinte: creio que os movimentos cresceram a tal ponto que se torna fundamental a discussão de diversas outras pautas políticas. A relação do Estado com as pessoas — em especial, a brutalidade policial dentro e fora das manifestações, dentro e fora dos centros urbanos, incluindo-se aí periferias e territórios indígenas — a ampla questão do transporte público (para além do preço, condições de acesso e de trabalho, o seu incentivo em relação ao uso de carros, etc.), o sistema econômico em que vivemos — incluindo-se, aí, profundas críticas sobre as conceituações dominantes de esporte, o que nos leva ao questionamento da atuação de entidades como a fifa –, entre tantas outras.

Agora, uma ressalva que me parece importante fazer está no caráter crítico desta delimitação de pautas: demandas insossas e conservadoras devem ser desconstruídas neste processo (as formas para se alcançar isso são complexas, e podem ir de uma conversa entre amigxs a posicionamentos mais agressivos), que tampouco deve deixar em segundo plano a importância das questões mais prementes e que originaram as manifestações: o preço e as condições do transporte público, bem como a brutalidade policial em resposta a demandas legítimas das populações. Isso é bem resumido na ideia crítica que muitas pessoas levantaram: sim, isto é sim sobre 20 centavos. Pode ser sobre várias outras coisas também, mas os 20 centavos pesam nos bolsos de muita gente, e não devemos nos esquecer disso.

Neste sentido, me parece que a perspectiva ideal seja a de manter as questões que originaram os movimentos como centrais, incluindo também aquelas elaboradas de forma crítica e estratégica — e aqui somente espero que as pautas reacionárias (como a absurda defesa da pena de morte, por ex.) ou insossas (como a ‘demanda’ pelo fim da corrupção, problematizável em vários aspectos) saiam da agenda principal.

02. Estratégias políticas (pacifismo ou não pacifismo)

Sobre as estratégias possíveis, ao invés de me posicionar prontamente (se houver interesse, pode-se dialogar a respeito disso), farei uma breve reflexão: ser pacifista não necessariamente implica em ‘apanhar quieto’, e tampouco garante legitimidade e potência aos movimentos políticos que a adotam acriticamente. Compreendendo a dinâmica histórica das mudanças políticas — sim, quase sempre violentas em algum grau –, acredito que poucas frases resumem tão bem a forma como devemos encarar as lutas sociais quanto uma célebre frase de Malcolm X: “Por todos os meios necessários”. O que quero dizer com isso? Que, se demandas apresentadas de maneira pacífica são respondidas com brutalidade policial (que é o Estado, no fim das contas), o não pacifismo é, no mínimo, uma possibilidade legítima de luta.

Por outro lado, acredito ser necessário, também, um trabalho estratégico de conscientização por parte de quem acredita no não pacifismo, no sentido de defender esta legitimidade (algo tão complicado devido à facilidade do status quo em invalidar estes argumentos, especialmente em país tão ‘cordial’ quanto o nosso). Isso é importante até mesmo de um ponto de vista material: se o não pacifismo levar a uma diminuição de pessoas a protestar, as condições de luta se deterioram — e o Estado já está em vantagem enorme. Este trabalho inclui, assim, um esforço — às vezes enorme e até improdutivo, infelizmente — de mostrar que a brutalidade policial é uma realidade que limita a desejabilidade e validade do pacifismo, e mais que tudo de mostrar que as rodas da História não têm se movido a partir de narizes de palhaço, bandeiras e hinos nacionais, e de que é preciso cautela ao pensar que, ‘desta vez, tudo vai ser diferente’. “A estrada da sabedoria é sempre marcada por sangue” (“The road to wisdom is always marked by blood”), canta Groundation.

03. A inclusividade dos movimentos (partidos e não partidos)

Finalmente, precisamos compreender que estas são manifestações abertas, e que os seus significados políticos seguem em construção, a partir de vozes partidárias e de vozes apartidárias. Devemos questionar as perspectivas problemáticas e-ou limitadas de ‘ambos lados’ presentes nas manifestações sempre, sem porém trabalhar pela exclusão arbitrária de perspectivas. Pois afinal, é nesta construção conjunta — e, espero, solidária — que se definirão as possibilidades de mudança: temos de ser conscientes das sérias limitações em nossa formação política enquanto sociedade — uma das heranças nefastas da ditadura militar, entre tantos outros fatores –, e procurar diálogos solidários que avancem no sentido da promoção das dignidades e direitos humanos para todas pessoas. Sempre com a humildade de reconhecermos, para nós e para as demais pessoas, que ninguém chegou “lá” ainda — afinal, ou chegaremos todxs juntxs, ou ainda não estamos “lá”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s