Notas para um primeiro aniversário

Meu aniversário foi no dia 19, e como de costume só consigo terminar de escrever algo atrasada… desta vez, os movimentos sociais recentes também influenciaram o atraso. Foi um dia tranquilo, em oposição ao dia 18, que foi um dia de muita tristeza… me senti estranhada, alterizada, inferiorizada, exotificada, apesar de não ter recebido nenhum ataque direto dessas naturezas: estava muito sensível aos ambientes por que passei. Foi uma noite bastante tensa para mim, durante a qual decidi ser importante tentar algumas reflexões sobre este aniversário, que é o 29o de minha vida.

Não saberia dizer se consigo analisar razoavelmente os recentes processos pessoais por que tenho passado nos últimos tempos, tanto pela sua proximidade temporal quanto pela complexidade das relações e não relações (incluindo-se afastamentos de pessoas outrora mais próximas) que vêm sendo estabelecidas. A chegada de algumas datas convencionadas como importantes — como a data de nossos nascimentos — nos incita, com frequência, a fazer estas reflexões, apesar de sua potencial precariedade. E aqui, também é fundamental considerar uma particularidade desta data convencional no ano de 2013: é o primeiro aniversário em que eu me identifico, e busco ser socialmente identificada, como uma mulher transgênera.

É possível que uma das primeiras questões a me instigar neste dia, até mesmo devido a um sentimento embebido de um utilitarismo capitalista (de ‘maximização’ obsessiva de nossas vidas), seja o clássico “valeu a pena?” É uma avaliação feita constantemente, e que vai flutuando, em minha vivência, de forma significativa de acordo com meus humores e interações pessoais. E, sinceramente, apesar de todas as dores, de todos os estranhamentos e exclusões, hoje em dia costumo responder a mim mesma, com maior frequência, que sim, tem valido a pena.

Tem valido a pena me identificar como uma pessoa transgênera, apesar de todos os estranhamentos e curiosidades que isso implica, e do cissexismo que é estrutural na maioria das sociedades contemporâneas (mais um presentinho agradável de nossos colonizadores europeus, diga-se).

Tem valido a pena me identificar como mulher (é uma identificação mais fluida do que possa parecer, a bem da verdade), apesar de todo o sexismo que ainda é socialmente aceito.

Tem valido a pena ter abandonado (em algum grau) uma trajetória pessoal como economista e como auditora em uma mineradora, apesar da estabilidade (financeira, primordialmente) que isso me conferia.

Tem valido a pena, sobretudo, porque não ter seguido estes caminhos significaria deixar de lado uma parte importante de mim, em nome de uma sociedade que detesta a existência de pessoas cujos gêneros não lhe sejam inteligíveis — de acordo com uma estrutura bem tacanha, binária e biologicamente definida, de ‘ou é homem ou é mulher’. E eu vou tentar existir até o final, até o insuportável, nem que seja para ser o cisco no olho de uma sociedade supremacista em tantos sentidos, nem que seja para abalar os pensamentos simplistas que inferiorizam pessoas trans* como abjetas ou doentes.

Porque, afinal, ao sermos mais honestas conosco mesmas, nos tornamos mais abertas às pessoas que estão conosco nas diversas lutas necessárias. Minha identificação enquanto trans* tem me permitido interações maravilhosas com outras irmaxs trans* de uma humanidade incrível — apesar das dificuldades extremas por que muitas dessas pessoas passamos. Minha identificação enquanto mulher tem me permitido uma consciência política e uma aproximação muito maior a mulheres que, diariamente, tentam combater o sexismo de forma incisiva e solidária. Minha trajetória acadêmica recente, por sua vez, tem me permitido construir alianças e conhecimentos importantes para fundamentar minha inserção crítica no mundo.

E é por isso que eu agradeço a todas as pessoas que têm me apoiado, nas mais diferentes formas. Estar em uma posição de resistência contra uma sociedade hostil é complicado, e cada gesto de carinho, cada abraço, cada palavra de apoio é fundamental para que sigamos fortes. Em um contexto histórico que tenta construir o gênero como algo tão forte, carregado e restritivo, queria oferecer a todas as pessoas queridas uma breve possibilidade de compreender os gêneros com leveza, como uma doce brincadeira em que vamos construindo nossa humanidade.

Muito obrigada, de coração. Meu dia 19 de junho de 2013 foi um dia maravilhoso, ao perceber tantas boas energias de tantas pessoas. É muito bom compartilhar estas vivências com vocês.

***

No ano passado, inspirada por um blogue (que não me lembro qual era), iniciei algo que me interessou bastante como reflexão: um breve testamento. Acredito que devemos ter uma melhor relação com nossa temporalidade no mundo, uma relação que nos permita sempre refletir criticamente, e testamentos acabam por sintetizar esse processo de maneira interessante, a meu ver. Em contraposição ao texto do ano passado, mais longo e reflexivo, farei um testamento brevíssimo:

Testamento – viviane v. (2013)

01. Gostaria que, na eventualidade de minha morte neste ano, as pessoas pudessem se recordar de bons momentos que passaram comigo. Gostaria de deixar evidente neste testamento, também, o lamento por talvez não ter sido capaz de expressar todo meu carinho e amor pelas pessoas que são significativas para mim, e lhes desejar um caminho de muita felicidade adiante. Meus bens pessoais, que são poucos, espero que sejam divididos como pequenas simbologias destas recordações, carinhos e amores.

02. Gostaria de tornar explícitos meus posicionamentos críticos em relação às diversas normatividades deste mundo. Seguirei, até onde possa chegar a  potência proveniente destas palavras, ao lado das lutas anticis+sexistas, anticoloniais, antirracistas, anticapitalistas, antiheterossexistas, entre tantas outras às quais procurei me alinhar durante meu tempo de vida.

03. Em particular, gostaria de afirmar a minha soberania sobre meu próprio corpo, uma luta que esteve presente durante meu tempo de vida, e em particular nos últimos anos. Afirmar-se como uma mulher transgênera é contrariar projetos sociais de normatização de corpos em vários sentidos, e a vida não poderia ser diferente da morte neste aspecto: se morro, morre uma mulher chamada viviane.

04. No mesmo sentido de soberania, e contrariamente aos costumes culturalmente dominantes de meu entorno, gostaria de ser cremada sem quaisquer discursos de cunho religioso institucional. Rejeito, especialmente, que sejam utilizadas as tradições cristãs e católicas quando de minha morte, por enxergar nelas genocídios, colonizações e traumas, inclusive entre pessoas que, como eu, têm percepções de gênero por elas historicamente condenadas. Os usos posteriores de minhas cinzas, por sua vez, podem ficar a critério das pessoas de minha família mais próxima.

05. Finalmente, espero ter respeitada minha perspectiva existencial, muito relacionada ao zen-budismo: esta consciência que escreve este testamento se considera terminada na morte orgânica. Que não se imagine que algo além de minhas ideias e minhas recordações possam influenciar algo neste mundo. Caso minha perspectiva se prove equivocada, e minha consciência persista, procurarei avisá-lxs conforme possível (e sem alarde, de preferência).

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