Duas notas sobre brutalidade policial e manifestações

Antes de estabelecer julgamentos cretinos sobre o que tá rolando nas ruas (aqui quero enfatizar Salvador, mas o raciocínio pode ser estendido proutras paragens), espero que muitas pessoas (re)pensem suas conivências e panos quentes — volta e meia cínicas — ao achar que a polícia brutal e criminosa está “””””respondendo””””” a “””””baderneirxs””””” e “””””vândalxs”””””.

Essa é a cronologia da porra:

01. Manifestantes chegam a um local que a polícia criminosa e vendida a interesses do capital (fifa e o que mais o valha) considera como limite — via de regra, algo que torna inócua a manifestação (pense em ficar a mais de 1KM do estádio). Estes limites, totalmente arbitrários e frequentemente estabelecidos com o interesse de brutalizar a galera — vide cercos covardes em alguns pontos do centro de Salvador.

02. Há uma pressão, com cantorias, com gritos, com palmas, para que a manifestação possa exercer seus direitos. NÃO HÁ QUEBRADEIRA, NÃO HÁ TUMULTO. Esse impasse seguiu, na última quinta e hoje, por uma meia hora (estimo aqui, mas não sou boa nisso).

03. A polícia criminosa intimida les manifestantes com movimentos crescentemente ameaçadores a todo o tempo: é a pm e seus penicos, é o choque que passa em sua marchinha covarde, é a cavalaria que faz seus passinhos doutrinados na academia — como se tenta fazer com a cabeça das pessoas humanas que dela fazem parte.

04. A tensão aumenta, as pessoas vão se frustrando. Até que uma ocorrência isolada — como o estouro de um rojão, ou a tentativa de espancar umx manifestante por parte de 5 policiais — leva à primeira granada de gás ser JOGADA PARA O ALTO.

05. TODXS XS MANIFESTANTES, DISPERSXS OU NÃO, SÃO CRIMINALIZADXS E SUJEITXS A ARBITRARIEDADES POLICIAIS E CERCOS COVARDES.

06. Eu estou pouco me fudendo se você não quebraria nada, se você não roubaria nada, se você não ia levantar sua bunda pra fazer algo porque ‘não sou otária de ir querer apanhar lá’, ‘isso não me representa’, ‘tá muito à esquerda’, ‘tá muito à direita’, ‘partido-não-partido’, ‘dilma boba e feia e sapatão e transexual’. Eu só quero levantar a seguinte pergunta-hipótese: A VIOLÊNCIA, ARBITRARIEDADE, E OS CRIMES COMETIDOS CONTRA UMA MANIFESTAÇÃO (e, mais amplamente e cotidianamente, contra boa parte da população marginalizada) TORNAM A DEPREDAÇÃO E REAPROPRIAÇÃO DO CAPITAL LEGÍTIMA?

07. Meu sim é inequívoco.

***

Mais um relato de brutalidade policial:

Após a dispersão dxs manifestantes que se dirigiram à entrada do dique com a velha brutalidade de sempre — brutalidade iniciada após a indignação da galera com a polícia (3 ou 4 policiais) tentando espancar um manifestante –, saímos em um pequeno grupo pela estação da Lapa, subindo aos Barris. Há interessantes e bonitas solidariedades e diversidades neste grupo de umas 20 pessoas, apesar de discordâncias e tensões sobre rumos e estratégias.

Após nos vermos cercadxs e mais dispersxs ainda nos Barris, umas 7 pessoas acabamos retornando em direção à estação da Lapa, onde encontramos com um grupo de uns 10 policiais. Havendo um bar por perto, caminhamos em direção a ele. Estxs policiais nos chamaram para revista. Estando um pouco distante, e tendo sido lida como mulher (eu era a única dentre estes 7), me deixaram de lado e ordenaram aos homens encostar na parede. Dois deles estavam à vista do bar; os outros, que se direcionaram à mesma parede, foram ordenados para irem a uma outra parede, fora da vista do bar, virando a esquina.

Eis que um deles se aproxima dos dois à vista do bar e lhes diz, bastante alto:

“Tá achando que aqui é Rio de Janeiro, São Paulo? Isso aqui é Bahia!”

E desfere dois ou três socos e tapas nos 2 homens à nossa vista (do bar). Ouvem-se alguns ruídos de detrás da outra parede, onde os demais estão; vinagre é confiscado e jogado ao chão, e me parece que outros socos são desferidos.

O policial criminoso, então, caminha em direção ao bar, retirando a sua pistola do coldre. Ele não usa identificação. Eu sou a pessoa mais próxima, e ele felizmente passa por mim. O criminoso entra no bar e aponta a arma para um dos clientes. Segue-se uma investigação ilegal e despropositada que, segundo relatos, consistiu em demandar que este cliente — e outrxs — mostrassem seus celulares, para ‘provar’ que não estavam filmando nada.

É mais ou menos nesse momento que pedem para que eu seja revistada. Após a brutalidade e arbitrariedade policial contra os homens, temo que me percebam como trans* — e aí, sabemos como a polícia brutal trata pessoas trans*, especialmente se pobres, pretas e no mercado do sexo. Chamam, então, a única ‘policial mulher’ (acho o termo péssimo) para ver meus pertences — os outros homens a chamam de ‘aspira’. E ela, de nome Carla (não consegui gravar muita coisa, eu meio que ‘travei’ nisso tudo), me leva à parede (próxima ao bar) e pede para eu mostrar a mochila. Ela foi respeitosa comigo inclusive após eu me declarar ‘transexual’ (fico indignada por ficar contente diante disso), me perguntando o que eu estava fazendo e tal — apesar de sua conivência criminosa com a brutalidade policial cometida pelo seu colega.

Um outro policial pergunta a Carla se está ‘tudo bem comigo’. Ele se aproxima e me pergunta se carrego pedras:

“Não tem pedra aí não, né mãe?’

Carla esvazia a garrafa de vinagre, espirrando um pouco em minha jaqueta. Ela sai. Vejo os outros policiais “ganhando” — qualquer presente a algum criminoso me parece coercivo em algum grau — garrafas de água do lojista da esquina (que era um bar, também, mas parecia fechado). Todos saem. Eu fico no bar pensando e as pessoas assistem ao jogo, também discutindo — de maneiras frequentemente problemáticas — a situação que ocorreu.

A sensação de impotência é imensa, imensa, talvez só não tão imensa quanto as conivências e ignorâncias disseminadas e reproduzidas pelas mídias e pelas pessoas.

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