Do infeliz vídeo (mais um) do ‘porta dos fundos’

Este foi um post escrito na correria de algumas discussões no facebook, mas que traz vários elementos importantes. Escrevi um texto um pouco mais analítico que será publicado em breve, mas deixo esta breve opinião (e recado) aqui no blog também.

***

reforco estereotipos genero

[Legenda: o casal trans* discute sob o olhar confuso de uma pessoa (cis) profissional]

Para quem achou legal o vídeo do porta dos fundos, ‘casal normal’, farei breves apontamentos:

01. Não, não gostei do vídeo.

02. O cissexismo e transfobia me parecem óbvios demais nele, e tudo que aprendi com ele foi que o ‘senso comum’ (mesmo aquele que supostamente estaria mais ‘antenado’ com as questões trans* — mas é gggg mesmo) ainda está bem longe de desconstruir e analisar criticamente estes vetores normativos e opressivos. E, pior, mesmo pessoas cujos gêneros sejam inconformes não se dão conta das violências discursivas presentes nele — e isso acaba comigo, de verdade: fico arrasada.

03. Basicamente, o vídeo apoia sua ‘graça’ sobre a ‘confusão’ que pessoas trans* supostamente causam. O que acontece é que as pessoas em geral não são sensíveis para o quanto essa ‘confusão’ é violenta com pessoas trans*, e isso passa despercebido. A ‘confusão’ — que é manifestação cissexista, ao considerar alguns gêneros mais ‘verdadeiros’ que outros — é naturalizada.

04. As personagens são meros ‘espantalhos’ de pessoas trans*. Nesse estereótipo criado pelo vídeo, ignora-se que o nome de registro é um constrangimento constante na vida de muitas dessas pessoas, o que o vídeo nem sonha em problematizar (de maneira bem-humorada; sim, é possível) e, de fato, até ridiculariza — com o personagem ‘profissional’ fazendo questão de saber nomes e as pessoas trans* ali retratadas, servindo de lembrança pra muitas de nós (pessoas trans*) de momentos **vividos de verdade** de raiva e constrangimento. Para ilustrar um pouco, um motivo forte para eu ter saído de meu último emprego foi isso, o desrespeito a meu nome.

esquema desenhado

[Legenda: o esquema problemático feito pelo personagem (cis) profissional]

05. Seguindo um pouco nesta linha, vamos falar de um pouco de realidade: este hipotético casal trans* muito provavelmente estaria muito mais fudido do que essa estética classe média branca sugere. Ou seja, imaginar um casal trans* de classe média que tenha uma criança e cuja grande preocupação seja ‘como falar de sexo’ para ela é um tapa na cara de um grupo social que, fundamentalmente, está marginalizado em desempregos, subempregos ou na prostituição em condições degradantes; que luta contra problemas psicológicos severos, incluindo-se suicídios, devido a uma sociedade que deslegitima suas identificações cotidianamente (e sim, esse vídeo faz parte desse discurso); que tem consideravelmente reduzidas suas expectativas devidas com assassinatos brutais que incluem tortura, apedrejamentos, espancamentos e quetais; e por aí vai.

06. Em suma: se você achou o vídeo engraçado, se você acha que o foco do vídeo é a ‘incompetência’ do profissional (dica: não é), se você pensa que esse vídeo é infimamente educativo sobre as vivências trans*, sugiro duas coisas: analisar um pouco mais criticamente o que consome, e conviver mais com realidades trans*. Garanto que você verá o pseudohumor modinha do porta dos fundos como o que é: uma versão ligeiramente mais sofisticada que o zorra total, revestindo-se de uma aura progressista mas que não consegue deixar de ser mais uma manifestação na infinita série que ridiculariza grupos marginalizados para o riso da sociedade dominante.

07. Consumindo meu estômago de raiva por perder tempo explicando obviedades que serão respondidas com ‘ai, que exagero’, ‘ai, mas tem gente trans na equipe deles’ (tem o cara do kibeloco também, e aí? foda-se), ‘ai, não se pode falar mais nada’, zzz zzz zzz. Se alguém aí quiser saber o que é transfobia, tente ir ‘montadx’ a um ambiente dominantemente hetero (halloween e festinhas do tipo não valem) e depois me diga como foi.

 

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