Comentários ‘aos lucros da transfobia’

Estas foram algumas perguntas e colocações que surgiram a partir de um post meu no site do ibahia, sobre o vídeo ‘casal normal’ do ‘porta dos fundos’, e que respondo por aqui também:

* * *

01. O que significa GGGG?

É uma provocação ao autodenominado movimento LGBT, que historicamente (não somente no Brasil) prioriza uma agenda política focada em homens cis gays. ‘GGGG’ é uma forma de discurso que simboliza o apagamento ou marginalização das demandas e lutas políticas lésbicas, bissexuais e transgêneras — bem como outras resistências não hetero e não cisgêneras –, e inevitavelmente, também não deixa de ser uma crítica ao olhar bem pouco interseccional do movimento.

* * *

02. [Rodrigo]

Vivi, acho seu texto contundente, esclarecedor e necessário. Sou pesquisador e minha ‘praia’ são o teatro e as identidades sexuais contemporâneas. Tenho ‘alguma’ leitura ‘teórica’ sobre as identidades trans* por conta dos Estudos Queer e porque acompanho, com atenção e interesse, os debates sobre este tema. Sem questionar seu argumento, que acho absolutamente legítimo e fundamentado, penso que seria importante para ampliá-lo fazer uma aproximação da questão do “riso”. Do “que” se ri, “quem” ri e “como” ri são assuntos da ordem do dia.

Se a gente pensa com o Bakhtin no riso popular, não é possível imaginar ‘objetos’ que estejam a salvo do riso, que é ‘universal’ e, portanto, não diferencia seus ‘alvos’. No entanto, o riso moderno-burguês torna essa questão ainda mais complexa, porque é no palco das representações e dos jogos de poder que são estabelecidos os ‘alvos’ do riso, a partir de um entendimento sobre o que é ‘aceitável’ ou ‘não’ no território do humor (Bergson, por exemplo, fala num riso que ‘pune’, ‘castiga’ seus objetos). Meu limite, por exemplo, passa pela ‘doença’: não acho aceitável que alguém faça piada com qualquer tipo de enfermidade. No entanto, reconheço: é uma vertente do humor e há quem disto sorria. Os meios massivos tornaram esse debate ainda mais complicado, porque são um terreno permanente de embate sobre as representações e, penso eu, devem ser tensionados mesmo a fim de que não sejam perpetuadas as ‘dores’ de determinados grupos sociais. Porém, quando Bakhtin falava num riso universal, ele não falava de um efeito universal do riso (isso nunca vai ser possível), mas que o ‘universo’ podia ser todo ele alvo do riso. Isso quer dizer que nós não podemos perder de vista que o riso sempre implica uma visão de mundo (social, étnica, sexual, etc.) e que, enquanto houver diferenças neste mundo, haverá os que ‘riem’ enquanto outros ‘choram’. É lamentável, mas faz parte dessa ambiguidade do riso. Para não ficar em cima deste muro ‘conceitual’ , gosto de pensar que o ‘bom’ humor, para mim, é aquele que utiliza o riso para instaurar uma crise, para mostrar o que não estava “visível”, para ‘atingir’ os que se julgavam imunes a ele, para, enfim, questionar o ‘status quo’. Esse riso, no entanto e lamentavelmente, terá sempre de conviver com aquele outro, o que reforça o ‘status quo’ e adora deixar as coisas no exato lugar onde elas estavam. Esforcemo-nos (como seu texto faz) para que, pelo menos nos meios massivos, o riso que coloca o mundo em ‘movimento’ possa suplantar o riso que deixa o mundo ‘exatamente onde sempre esteve’. Espero ter contribuído um pouco. Abraços

[Juliano

Rodrigo e Viviane , excelente texto.
Riso em Bakhtin é um estudo super importante.
O riso como papel político, questionador.
É preciso rir de si.
“Aprendei a rir de vós mesmos, como é preciso”. Zaratustra
Rir de si mesmo só é possível se estamos abertos as transformações de si.
Rir das identidades colocadas a nós, absolutas… Rir de si. Torna-te o que és, rindo de si.

O riso pode mostrar muitas arbitrariedades.

[viviane]

Olá Rodrigo, Juliano,

Vou ser breve por questões de tempo, mas quero dialogar porque gostei das suas perguntas, bastante sofisticadas aliás.

Acho que o grande problema nos discursos ligados ao ‘precisamos rir de nós mesmos’ (algo com que concordo), é a pergunta: ‘como nós vamos rir de nós mesmos?’

Não quero dizer, assim, que o humor não possa ser um instrumento antiopressivo crítico, que não haja formas de sobreviver e resistir a este mundo com risos e o escárnio do poder. Aliás, isso independe do que eu diga: o humor foi, é e (imagino) sempre será um dos instrumentos de resistência antiopressiva. Pense nas cantorias populares, você verá humores de resistência (sem se eliminarem, necessariamente, pseudohumores de cunho sexista, por ex.).

A questão está, assim, em que existam humores que façam os grupos marginalizados rirem. Evidentemente, isso tenderá a se produzir com mais força *a partir* destes grupos, e não através de outras vozes — especialmente se são as vozes dominantes que ‘costumam’ inferiorizar estes grupos.

Pense-se, por exemplo, no que o pseudohumor transfóbico de um ‘zorra total’ (para ficar num exemplo mais óbvio) é diferente de um ‘RuPaul’s Drag Race’. E, talvez mais importante que tudo, devemos olhar se as pessoas-alvo das piadas estão ‘curtindo ou não’ a representação ‘delas’, e em que contexto histórico isso acontece. Escutar as perspectivas delas é importante, e muitas vezes as pessoas deixam de fazer isso e ficam minimizando transfobias, racismos, classismos, etc.

* * *

03. [Fernando]

Viviane,

Ótimo texto, mas quero deixar uma questão importante: O que nós queremos, de nossa postura anti-opressiva? Preferimos o mundo discutindo os transgêneros e entendendo os erros, como ocorreu e ainda ocorre com os direitos das mulheres, ou preferimos amedrontar e oprimir a cultura dominante, e acabar por intimidar outros eventuais humoristas que queiram, simplesmente, mostrar que existem pessoas e casais trans no mundo?

Em suma, você defende que os benefícios do vídeo são inferiores aos malefícios, por ele mostrar apenas um microcosmo estereotípico do mundo trans. Mas será que não falar nada é melhor? Ou será que, talvez, este seja um árduo caminho que, possível e infelizmente, tenha que ser percorrido até que o respeito a pessoas trans esteja mais difundido?

Só levanto a discussão porque eu acredito que tudo o que “gera discussões” gera um benefício grande por isso.

[viviane]

Fernando,

O que eu quero com minha postura antiopressiva é questionar as opressões (ou melhor, normatizações) até suas raízes mais profundas, desencavá-las como que extirpa um câncer social.

[adicionado neste post] ‘Amedrontar’ e ‘oprimir’ a cultura dominante é um pouco exagerado para quem tem tão poucas possibilidades de exercer poder, não acha? E, se pudesse, ‘amedrontaria’ a cultura dominante sim: questionar o que está errado na cultura dominante amedronta muito — não ‘oprime’, no entanto: “não confunda a resistência da pessoa oprimida com a violência do sistema opressor”. [/adicionado]

Em outras palavras, eu não quero uma negociação de gabinete em que eu tenha de escolher entre “vamos discutir suas demandas políticas, mas de formas toscas e problemáticas e inferiorizantes” e “não vamos discutir nada do que você quer, fique gritando no seu gueto”. Eu quero que as demandas políticas trans* sejam colocadas na ‘mesa social’ de maneira autônoma (isto é, com peso político maior para pessoas que são diretamente afetadas por elas) e sem corporativismos médicos, psis ou acadêmicos.

Eu enfatizo o ‘eu’ porque sou somente uma voz trans*. As vozes trans* são inúmeras, e pode ter muitas outras que concordem com uma maior aceitação destas violências em nome de alguma migalha do sistema. São possibilidades e perspectivas de luta válidas, e cabe a nós discutirmos e sofisticarmos nossas análises estratégicas.

Em suma, acredito que haveria formas muito simples de se fazer um vídeo engraçado e que lidasse com questões trans*. Bastaria (veja que genial!), talvez, conversar com alguma(s) pessoa(s) trans* e ver se o produto final é criticamente engraçado…ou algo do tipo.

Bem, acho que o ‘árduo caminho’ é feito justamente do diálogo entre essas manifestações transfóbicas, o grito de algumas pessoas trans* tidas como ‘exageradas’, a mudança de visão de algumas pessoas, mais manifestações transfóbicas, e por aí vai… mas eu sempre vou esperar que a humanidade seja capaz de algo melhor que isso (até porque se eu acreditar no contrário, a escolha por viver se torna irracional).

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