Para as pessoas trans* que se utilizam de termos cis

Para toda pessoa trans* que queira usar ‘cisgeneridade’ e ‘cis’ para nomear a normatividade que literalmente mata muitas de nós (pessoas trans* e também gênero inconformes — este a incluir pessoas cis gênero inconformes, enfatize-se) e aquelas pessoas cujas identidades de gênero não sejam cultural+social+politicamente auto+compreendidas como trans*, gostaria de compartilhar algumas breves reflexões.

Eu nunca me utilizei destes termos para pensar que ‘agora só temos pessoas cis ou trans*, bora criar carteirinhas de duas cores, uma com nome social e outra sem’, ou para pensar que ‘toda pessoa cisgênera é 100% homem ou 100% mulher’ (ainda que eu ache que tem bastante gente que iria comprar umas camisetas disso), ou, ainda, para pensar que ‘ser cis é viver em um paraíso encantado, enquanto às pessoas trans* é reservado o inferno de uma vida doentia e triste’. Caso você pense assim, ou algo parecido com isso, favor reconsiderar suas posições, e espero despertar alguma provocação neste sentido em você.

Eu simplesmente acredito que ‘cis’, o prefixo latino oposto a ‘trans’ — utilizado também em outros contextos, como o da química orgânica –, pode ser uma melhor (e elegante) opção para nomear pessoas que não sejam trans* (trans* enquanto identificação político+social, não uma ontologia, não uma essência; uma ideia relativamente batida quando se pensa a teorização corrente sobre questões trans*, aliás). O curioso é que antes, muitas destas pessoas [cis] se sentiam confortáveis em se dizerem ‘mulher de verdade’, ‘homem biológico’, ‘mulher cromossômica’, ‘homem natural’, e quetais, termos considerados problemáticos e (minha opinião e também a de ‘outras pessoas trans*’) supremacistas. Agora parece que todo mundo é trans*… não deixa de ser um alívio saber que tem tanta gente trans* para seguir resistindo aos assassinatos e suicídios trans* deste mundo cis+sexista (minha opinião ateia) sem deus. 7 bilhões de pessoas trans*, iupi, quem sabe não rola uma ‘cura cisco’? Brinks, dscpa o transexismo ae.

Neste sentido, querida pessoa trans* (‘querida’ sem qualquer floreio retórico: toda pessoa trans* tem minha solidariedade resistente, mesmo que sujeita aos exercícios críticos intersecionais), espero que você reflita sobre as dinâmicas de poder deste mundo cis+sexista a partir do que diz Michel Foucault, em a História da Sexualidade, vol. 1 (p. 90 do pdf que encontrei, posso enviar se desejado):

“[…] o poder vem de baixo; isto é, não há, no princípio das relações de poder, e como matriz geral, uma oposição binária e global entre os dominadores e os dominados […]. Deve-se, ao contrário, supor que as correlações de força múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de produção, nas famílias, nos grupos restritos e instituições, servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social. Estes formam, então, uma linha de força geral que atravessa os afrontamentos locais e os liga entre si; evidentemente, em troca, procedem a redistribuições, alinhamentos, homogeneizações, arranjos de série, convergências desses afrontamentos locais. As grandes dominações são efeitos hegemônicos continuamente sustentados pela intensidade de todos estes afrontamentos”.

Ou seja, também somos parte no cis+sexismo do mundo. É evidente que queremos atentar para o fato de que o marcador trans* socialmente constituído nos foda com a vida praticamente toda, mas aqui quero somente apontar para o quanto um uso acrítico de termos pode prejudicar projetos políticos (sabendo, claro, que seu projeto político, mesmo que possivelmente se alinhe ao meu de formas várias, terá variações potenciais consideráveis em relação a este meu).

Porque, pessoa trans*, você está sendo utilizada para resistirem — de múltiplas formas foucaultianas — ao próprio uso do termo ‘cis’ na academia. E, imaginando que este não seja o seu objetivo final ao utilizar tais termos, gostaria de solicitar que você refletisse sobre o potencial naturalizante, biologizante e dicotômico dos eventuais usos que você faça deles. Os seguintes itens são possibilidades de reflexão:

– As críticas aos trabalhos sobre questões trans* feitos por pessoas cis não devem (idealmente) começar por ‘cala a boca’, ficando mais simples apontar os diversos cis+sexismos que possam aparecer neles, de forma muito objetiva, calma e na hora apropriada;

– Objetividade, calma e moderação parecem importantes no atual contexto histórico, já que assim o meio acadêmico se considera no máximo de sua efetividade anticolonial+antinormativa (isto é, quando tenha isto como objetivo, evidentemente). Mas, como lembra Michel Foucault, resistências podem ser “improváveis”, “selvagens” (termo meio colonial mas belê), “solitárias”, “violentas”, “necessárias” (ibid.:91). Sendo assim, muita calma nessa hora, ou não.

– Da mesma forma, porfa, não vamos propor e fazer passar nenhum projeto que pretenda criar uma carteirinha de ‘pessoa cis’, já que estas pessoas costumam ter em seus RGs os nomes com que se sentem melhor. Tampouco vamos propor barreiras para que estas pessoas possam mudar seus nomes, caso queiram.

– Não nos utilizemos de nossas posições de poder e de nossos vultosos recursos financeiros para silenciar as vozes cis que resistem em nossa defesa, que nos amam de paixão, e que querem somente o melhor para nós.

Grata pela sua atenção,
Uma acadêmica trans*.

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