Pessoas ‘castrati’ e anticolonizações de gêneros não normativos

Hoje, tive uma aula na qual se tratou de pessoas denominadas ‘castrati’. Acredito que sejam vivências e fenômenos culturais interessantes para se pensarem questões intersexo e trans* — muito embora sinta que não haja muita informação que, epistemologicamente, não tenha sustentação cissexista colonizatória. Segundo relatado, eram pessoas (problematicamente definidas como ‘meninos’ pela pessoa docente) cujos testículos passavam por intervenções cirúrgicas, com o objetivo de que suas vozes tivessem determinadas habilidades e alcances — que fossem, digamos, mais próximas ao que se convenciona como ‘feminino’.

Segundo relatado, ainda, eram intervenções que necessitavam de consentimento por parte da pessoa a se tornar ‘castrati’ — consentimento de cujo efetividade podemos desconfiar, evidentemente, dada a posição das instituições religiosas nas relações de poder de então, bem como das precárias condições socioeconômicas gerais. Ainda assim, tal consentimento formal torna-se particularmente interessante quando notamos, na contemporaneidade, a existência de intervenções cirúrgicas sobre corpos não normativos (intersexo) sem qualquer tipo de consentimento da pessoa a passar por elas, o que não se torna tão fortemente problematizado, entre outros fatores, pela legitimidade de que gozam as instituições médicas dominantes. O fato de que, em tempos tão longínquos, uma instituição criminosa e arbitrária como a igreja católica demandasse tal consentimento nos diz muito sobre os crimes contemporâneos cometidos por pessoas médicas em corpos não normativos.

Por outro lado, nota-se a correlação da existência social das pessoas ‘castrati’ com sexismos presentes nestas sociedades, que impediam pessoas tidas como ‘mulheres’ de participar de certas funções musicais, trazendo, também, uma dimensão sexista para tais intervenções corporais sobre estas pessoas.

Tais reflexões críticas foram, sem dúvidas, instigadas pelo assunto trazido à sala de aula, mas não há como deixar de se perceber a profunda falta de sensibilidade em relação a pessoas intersexo e trans*, através da caracterização de certas modificações e processos corporais em direções não-cisnormativas como indesejáveis, ou como ‘deformidades’ ou ‘transtornos’. Para além de associar a pouca sensibilidade em relação ao tema com a ausência quase completa de pessoas intersexo e trans* em ambientes acadêmicos, cabe pensar que a generalização simplória das pessoas ‘castrati’ como psiquicamente transtornadas — caracterização atribuída pela pessoa docente às modificações corporais nelas efetuadas — não é somente sofrível enquanto qualquer generalização inferiorizante o é, mas também está em um problemático diálogo com epistemologias patologizantes muito conhecidas por diversas pessoas trans* e intersexo.

Para além disso, pode-se criticar, também, a falta de sensibilidade que ocorre na abjeção e condenação superficial a tais modificações corporais, lembrando que para muitas pessoas trans*, por exemplo, alterações como a ‘feminilização’ corporal em corpos como o meu, problematicamente definidas como ‘de homem’ pela pessoa docente, não são vistas como ‘deformidades’, mas como possibilidades corporais legítimas. Embora não me interesse especular se as pessoas ‘castrati’ tiveram tais percepções sobre seus corpos, preocupa-me somente apontar que não somos capazes de dizer, assim sem mais nem menos, que estas alterações corporais são *necessariamente* indesejadas e *necessariamente* realizadas por elas como um ‘sacrifício’ em busca da fama ou de dinheiro — algo que se inferiu sobre estas pessoas durante a aula.

Finalmente, não é preciso elaborar muito sobre a previsível exotificação e ridicularização (ainda que condescendente) destes corpos feita na aula, excitada inicialmente com certa cautela pela pessoa docente, mas rapidamente convertendo-se em merda degustada com gosto, conivência ou conveniência acríticas por parte do geral das pessoas discentes. Mesmo a superficial indignação com tais modificações corporais não deixa de carregar consigo uma ojeriza curiosa sobre corpos não normativos que, enfim, convenientemente ignora o consentimento declarado (segundo a pessoa docente) por estas pessoas — por mais questionáveis que fossem as condições sociais em que se tenham obtido tais consentimentos.

Para dialogar mais diretamente com o tema de meu projeto, ‘Pelas descolonizações de gêneros inconformes’, falar em descolonizações e anticolonizações de gêneros não está restrito aos pensamentos contemporâneos sobre as questões e demandas políticas trans* e gênero-diversas, mas também à desarticulação de epistemologias que considerem nossos corpos como abjetos, transtornados, bizarros e inferiores — ainda quando suspendam tais considerações por alguns instantes quando estes corpos sirvam para o consumo (sexual, musical ou o que for) de forças e grupos sociais cis-colonizatórios.

Fodam-se estas epistemologias, pois.

 

Anúncios

2 comentários em “Pessoas ‘castrati’ e anticolonizações de gêneros não normativos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s