Epistemologias feministas e queer

O texto a seguir foi elaborado para orientar minha fala no I Congresso de Diversidade Sexual e de Gênero da UFMG, feita na manhã do dia 03 de setembro de 2014, junto com Tayane Lino e Jaqueline Gomes de Jesus. Uma mesa que, creio, trouxe vários pontos críticos sobre como se estabelecem cistemas de produção de conhecimentos, e perspectivas sobre as possibilidades de sua transformação crítica.

Estou muito feliz pelas conversas e afetos desta semana. Tem sido muito lindo — apesar das resistências que seguem sendo necessárias (e não há surpresa, nisto).

* * * * * * *

Gostaria de agradecer, primeiramente, ao Coletivo Gisbertas e a toda Comissão Organizadora do Congresso, pelo convite feito a mim para compor esta mesa sobre perspectivas feministas e queer, bem como a todas as pessoas cujos afetos me acolheram e acolhem, viabilizando esta existência que aqui fala. Espero poder trazer algumas contribuições a partir desta mesa, e dizer que estou muito empolgada por conta das possibilidades de aprendizado e afeto que foram abertas para mim, a partir deste convite. Que possamos trocar muitas ideias durante estes dias aqui em BH.

Hoje, sou convidada para apresentar algumas reflexões sobre epistemologias feministas e queer. Considero, por um momento, a importância política e a responsabilidade de, enquanto uma mulher transfeminista afetada por perspectivas feministas e dos estudos queer, estar aqui, com minha voz, vivências e reflexões, pensando sobre estas epistemologias.

Penso, por outro lado, sobre como podem ser interpretadas, academicamente e em ativismos, estes processos epistemológicos que autoidentifico, de forma intersecional, como trans*feministas. Compreendo que os transfeminismos, estas perspectivas político-acadêmicas várias que vêm surgindo em alguns espaços (este congresso, o Desfazendo Gênero, entre outros espaços), conformam um entrelugar ou uma zona de fronteiras incertas em relação a perspectivas feministas e queer.

Se é fundamental reconhecer que as energias críticas dos transfeminismos vêm de históricas lutas feministas — em particular, dos feminismos das diferenças (o negro e lésbico, por ex.) — e de potentes reflexões dos estudos queer — como diversas problematizações de gênero –, também é necessário que as perspectivas críticas sobre identidades de gênero trazidas por transfeminismos transformem, em alguns graus e formas, as epistemologias feministas e queer.

Ressalto a importância deste projeto transfeminista de transformações epistemológicas por compreender que, de um lado, podemos reconsiderar epistemologias feministas que ativa ou indiretamente invisibilizam as vivências, corpos e especificidades políticas de pessoas trans* para que lutemos intersecionalmente pelo fim das violências e marginalizações de gênero; e, por outro lado, por perceber que devemos pensar criticamente certas epistemologias queer que pouco se importam com as realidades e dificuldades das vivências de gênero inconformes, enquanto nos utilizam como objeto de estudo para suas reflexões teóricas sobre gênero e sexualidade.

É a partir deste entrelugar transfeminista, deste corpo trans* branco-asiático que goza e gozou de vários privilégios de acesso no cistema, que proponho pensamentos sobre 3 aspectos relacionados com epistemologias feministas e queer:

– As economias políticas feministas e queer/acadêmicas
– Caminhos para transformação de epistemologias
– O conceito de cisgeneridade

Pensar a produção de conhecimentos exige pensar, entre outros fatores, sobre a economia política que sustenta esta produção. Esta economia política é entendida, aqui, para além de seu aspecto material: ela é feita de dispositivos e relações de poder, de processos intelectuais incentivados ou coibidos, de financiamentos e programas. Olhar as economias políticas feministas e queer nos permite, assim, compreender melhor seus caminhos epistemológicos, ao mesmo tempo em que nos permite ver que ‘divergências teóricas’ podem produzir, também, marginalizações e dificuldades no acesso a recursos, entre outras questões.

Em que medida a mulher trans* está contemplada em Secretarias de Políticas para as Mulheres, em que medida ela pode se enxergar em mensagens socioculturais do que seria uma mulher, ou nas bulas das substâncias que algumas utilizam em sua hormonização? Se há relatos de DEAMs onde não ‘souberam o que fazer’ com “um homem vestido de mulher” que por lá apareceu para fazer uma queixa; se Laverne Cox e Sojourner Truth se perguntam ‘Não sou uma mulher?’ em dois períodos aparentemente tão distintos das sociedades humanas; e se as bulas de anticoncepcionais falam exclusivamente de corpos diferentes do meu corpo de mulher trans* (e somente dizem que ‘homens’ não devem utilizá-lo, talvez seja relevante pensar se, e em que medida, epistemologias feministas possam contribuir (direta ou indiretamente) para a reificação e fortalecimento discursivo de uma ideia universalizante de mulher que dela exclui e excluiu mulheres trans* e mulheres racializadas.

Cabe enfatizar, aqui, que meu compromisso não é o de esquecer ou minimizar, em nenhum momento, das violências e marginalizações sofridas por mulheres cis — particularmente, aquelas situadas nas interseções de raça e classe social — ao procurarem exercer seus direitos à autonomia corporal, ou outros direitos. E não é, tampouco, de menosprezar as importantes lutas e conquistas realizadas no âmbito das resistências de gênero feministas. Compreendo meu compromisso enquanto acadêmica, entretanto, como o de fazer proposições conceituais e teóricas que contribuam para que estas importantes lutas não invisibilizem e normatizem as vivências, perspectivas de gênero e corpos de homens trans e pessoas não binárias, por exemplo.

Ou seja, busco epistemologias que estejam cada vez mais sensíveis às questões políticas relativas a identidades de gênero.

É esta sensibilidade que procuro catalisar e defender, também, dentro das epistemologias queer com que dialogo. Viviane Namaste, pesquisadora canadense, aponta como parte considerável da produção acadêmica queer (seu foco é o contexto Anglo-saxão norte-americano) demonstrou pouco interesse nas realidades cotidianas de pessoas trans*, mesmo quando se utiliza das vivências destas pessoas para a produção de artigos e currículos lattes. Quando pensamos o queer nos trópicos, penso que é fundamental analisarmos criticamente se não estamos reproduzindo dinâmicas semelhantes de exotização e colonização (no sentido amplo de uso econômico), assim como penso ser importante repensarmos criticamente as estruturações do poder acadêmico e nossos posicionamentos diante destes poderes aqui mesmo, neste sul global tão diverso e complexo (e criador incessante de capitanias hereditárias e panelas).

Neste sentido, uma das preocupações que tenho, enquanto acadêmica que pensa (também) a partir dos estudos queer, é no sentido de tentar tornar nossas reflexões motivadoras de processos de resistência descolonial. Isso inclui tornar nossos estudos (mais) relevantes às vidas, vivências e realidades daquelas pessoas que historicamente foram tidas como ‘objetos de estudo’ e ‘natives’, analisar criticamente as alocações de recursos para pesquisas e projetos, redesenhar estratégias e pensar para além dos lugares legitimados de saber. Cabe perguntar por que razão a academia não está pensando a partir (e não olhando de fora) das resistências de rua das travestis, dos ativismos transexuais e travestis, dos ativismos de homens trans, dos ativismos não binários, dos transfeminismos e tantas outras ações de resistência de gênero… aliás, onde estamos nas suas referências bibliográficas, já havendo tantas pessoas trans* mundo afora publicando academicamente também?

Dentre estas propostas de transformação epistemológica, vejo uma importante ilustração de várias destas questões ao pensar no conceito de cisgeneridade. A cisgeneridade, fundamentalmente, pode ser compreendida como a identidade de gênero ‘típica’, naturalizada: é aquilo que a heterossexualidade é para as orientações sexuais (apesar das frequentes confusões entre identidade de gênero e sexualidade), e que a branquitude é para as raças-etnias.

Conforme pretendo desenvolver em minha dissertação, a cisgeneridade pode ser um conceito útil para pensarmos identidades de gênero. Se a identidade de gênero é a experiência interna e individual de gênero das pessoas, a identidade cisgênera (que é naturalizada) pode ser simplificada como aquela em que esta experiência corresponde com aquilo que é designado ao nascer (pelo biopoder médico) para a pessoa.

Há, nesta conceituação, 3 traços ideológicos sobre o gênero se comunicando: (1) a ideia de que ele é pré-discursivo; (2) binário; e (3) permanente. Estes 3 traços, penso, podem ser pensados como produtores de cisnormatividades, quando se idealizam estes gêneros e se patologizam/inferiorizam outros.

Esta é uma proposta dentro de um campo de saber que, outrora, pensava em homens biológicos e mulheres cromossômicas, ou que ainda opõe vivências de identidades de gênero inconformes ao conceito de ‘heterossexualidade’. Ainda me esforço bastante para compreender as razões para a assimetria entre a não problematização do cis-centrismo destas categorias, em contraposição aos ceticismos e gracinhas para se desviar do uso da cisgeneridade como categoria — que nada mais é que a utilização do oposto latino ao prefixo ‘trans’. Sigo observando, e pensando como seria a dinâmica caso o conceito de cisgeneridade (e o uso de do termo ‘cis’) não tivesse sido cunhado a partir de ativismos trans*.

Precisamos, enfim, encontrar as questões que inquietam o cotidiano de nossas existências gênero-inconformes — dimensões materiais, existenciais, etc. Estas questões podem ser bem diferentes do que tem sido feito sobre nossas vidas, e às vezes encontrar outras questões requer desaprender o que nos colocam como “questões relevantes” e “candidaturas viáveis”. Precisamos desmascarar e investigar criticamente as economias psi e acadêmicas e militantes gggg que, em diferentes graus e formas, colonizam nossas experiências humanas com processos compulsórios e negociações políticas escorchantes para que tenhamos acesso precário e pouco transparente para nossas necessidades médicas específicas (Isso para não nos esquecermos das necessidades médicas não específicas, onde temos tratamento pouco sensível e, não raro, desumanizante, seja no SUS ou fora dele.), para nossa inserção social digna, para a legitimação e reconhecimento de nossos gêneros em rebeldia.

Precisamos também refletir se as questões que estão sendo postas pela academia são as mais relevantes para se pensarem nossas realidades, e se as alocações de recurso (financiamento de bolsas e eventos, etc.) são as mais interessantes para que as pensemos criticamente e com propósitos antiopressivos.

Nas palavras de Gloria Anzaldua, é preciso quebrar a dualidade sujeito-objeto, precisamos agir ao invés de reagir. É aí que encontraremos possibilidades diversas. Precisamos aprender e multiplicar truques, mandingas, estratégias de resistência, internalização de recursos, autogestão, debate público de ideias, entre tantas outras coisas para estes gêneros tão deslegitimados.

O quanto nossas epistemologias queer, feministas e trans*feministas estão contribuindo para estes processos? Devemos ampliar e aprofundar nossas contribuições? Estamos priorizando as pautas mais necessárias e urgentes, de forma crítica? Que estratégias estamos utilizando para questionar e enfrentar os musgos colonialistas sobre as ciências mais institucionalizadas e disciplinadas?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s