Sobre a denúncia de assédio/abuso contra Idelber Avelar

Pimenta com Limão

tá todo mundo meio assim com essa história... tá todo mundo meio assim com essa história…

Está bem difícil ficar nas redes sociais sem se envolver, ler ou pelo menos saber da super-ultra-power-mega-plus-treta que envolve Idelber Avelar e duas mulheres que o acusam de assédio. Sim, é muito ruim chamar uma denúncia séria de assédio de “treta”, porque não é e é preciso tratar com respeito a questão, mas tudo que nas redes sociais ou plataformas digitais (oi, Dri) envolve discussão entre duas ou mais pessoas é chamado de treta, e essa envolve muitas pessoas, em pelo menos três dessas plataformas (twitter, facebook e tumblr) e já chegou à blogosfera (não toooooda a blogosfera, mas uma parte considerável dela, pelo menos a que eu frequento).

Se tu não sabes/entende muito bem o que é assédio e como isso se dá na internet ou ainda como as mulheres se sentem a respeito, passem antes pelo excelente e esclarecedor texto…

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Pensando a zorra

Bom, já faz tempo que não assito tv com consistência. Enfim. Mas minha família assiste. novela, jornal, qualquer coisa depois que chegam em casa do trabalho.

E nos finais de semana também. À noite, principalmente. E então se assiste ao zorra total, pelo menos uma parte quase todo final de semana.

Acontece que o programa não é só uma merda, ele é ofensivo. Ele é, fundamentalmente, o opressor ou mentes colonizadas fazendo pirraça dxs oprimidxs. E não posso pensar em outra coisa que não uma obsessão (sem a intenção de patologizar ninguém ; ) para explicar as supostas (palavra de moda entre jornalistas cuidadosxs) piadas com as transgeneridades.

Primeiro quadro: o ator que representa uma mulher transx e é acompanhado por uma atriz que se utiliza de artefatos para supostamente torná-la feia. Não sei se preciso necessariamente explicar os problemas dele (posso desenhar); talvez baste o fato de a namorada, estrangeira e não-falante do português, ter achado o quadro sem qualquer nexo, e eu ficar com vergonha de explicar.

Segundo quadro: há dois homens, supostamente cisgêneros, conversando em um metrô — espaço público e parte fundamental do direito insuficientemente coberto de transporte em áreas urbanas — com um ator representando uma pessoa queergênera (dado o contexto). O genial enredo é uma série de perguntas gênero-estereotipantes de parte dos homens — gentil e acriticamente respondidas pela pessoa queer — no intuito de desvendar seu supostamente verdadeiro gênero-sexo (nessa ligação dominantemente aceitável).

Terceiro quadro (é sério): duas mulheres supostamente cisgêneras conversam. (o resto acho que foi assim, vi de relance) Uma delas chora, e diz que seu marido gosta de se vestir de mulher. A outra diz algo no sentido de que é normal, as pessoas andam fazendo ‘essas coisas’ hoje em dia. E a que chora adiciona que agora elx foi além (pelo que entendi, que elx deve ter ‘mudado de sexo’). E aí vem a marotice infantil do quadro, um cara com ombros artificialmente alongados oferecendo-o para consolar a (ex-?) exposa.

Enfim, pode-se dizer que são somente piadas, que são personagens, blabla. Isso não muda o fato de que são pessoas vistas, percebidas, lidas de maneiras semelhantes às personagens da mulher transx, da queergênera, dx (ex-?)marido-esposa, que no mundo real não tem empregos compatíveis com suas qualificações, que têm na prostituição uma proporção muito maior de pessoas que a proporção de pessoas cisgêneras, que são assassinadas por suas sexualidades ou identidades de gênero proibidas-censuráveis por valores cristãos ou cristão-inspired. Ou seja, fodam-se suas desculpas jocosas e sem caráter; estou falando destas, e principalmente para estas pessoas, que podem ou não estar longe de suas (é, você mesmx) próprias famílias (palavra de moda em propagandas de bancos, supermercados e igrejas de hoje), e sofreram, sofrem ou potencialmente sofrerão com as consequências das opressões da sociedade dominante.

Gosto de quando a teoria queer faz uma crítica dos exageros identitários (essa coisa de ‘quem é verdadeiramente trans ou whatever’, ‘quem representa e quem não representa’, etc, ou seja, questões que simplificadamente chamaria internas). Eu tenho uma ligeira impressão, e quero estudar mais para verificar, que falta explicitar um aspecto na geração social das identidades: elas são criadas, de maneira frequentemente violentas, pelxs opressores. São eles (uso ‘e’ porque a sociedade é patriarcal) quem geram a exclusão e a diferença, que nos chamam de desviados, queers, fags, bichonas ou bichinhas, putos, paneleiros, maricones. Muitxs lutam contra (e são mortxs por) isso, tantas vezes reapropriando  e recriando terminologias que permitam uma luta de resistência. E às vezes os termos são praticamente o máximo que se obtém, em muitos lugares, esta perspectiva de um nome que não traga uma conotação negativa, o que só parece pouco para quem não precisa lidar ou já esqueceu de como lidou (se é que lidou) com o problema de não se identificar com dignidade.

Por isso meu ceticismo e cautela na hora de criticar aliadxs que se encontram debaixo das identidades. Eu mesma tenho dificuldades em encontrar uma — talvez transgênera, por seu uso contemporâneo abrangente –, mas minha escolha sempre será junto àquelas pessoas que são chamadas de bicha, de viadinho, de sapatona, e os etcs que conhecemos. É claro que eu espero que meninas trans não tenham portas fechadas em locais feministas, e que o meio queer-lgbttiq (intersex-questioning, acho que li isso n’algum lugar) não tenha o foco tão forte para o homem gay branco classe-média (critico o foco, não a luta), mas acho que isso é feito melhor numa conversa amigável (espero) que na animosidade política. Não precisamos replicar a sociedade dominante na maneira que resolvemos nossos problemas.

Mas divago. Pensei na teoria queer porque é essa sociedade dominante representada no zorra total que nos traz estas identidades limitadas e limitantes, não somos nós próprixs queers-lgbttqi. E então as críticas feitas pela teoria queer em prol de uma maior fluidez na sexualidade e no gênero ficaram muito mais fortes, com esta consideração de que as limitações identitárias residem nos opressores, não nxs oprimidxs (uma consideração, aliás, de inspiração anti-colonial, algo que quero pensar noutro post).

Mas foi bem amarga essa percepção. Espero não precisar assistir ao zorra total de novo para reaprendê-la.

Que bom estar ouvindo esta música hoje.

O BBB enquanto pauta política LGBTT

Hoje li um ótimo post (via Paulo Candido) sobre as aberturas proporcionadas às lutas anti-discriminação LGBTT por um programa que, ainda que não prime por nenhuma sofisticação crítica, é assistido por muita gente, o Big Brother.

Fiquei feliz em saber que há uma mulher trans concorrendo na casa, e que ela não esteja ‘out’ ali, ao menos por enquanto. Para quem, do alto de seu privilégio cissexual, sente-se confortável em dizer que ‘ela não pode ludibriar os homens incautos’, ou que ‘ela nunca será mulher‘, que ao menos tenha a decência de admitir a existência desse privilégio, afinal ninguém sai por aí nas ruas checando genitais e cromossomos para dizer se alguém é mulher ou homem; se fazemos a relação ‘parece mulher, então é mulher geneticamente’, é devido a padrões sociais (o que dizer, então, daquel@s que são intersexo?).

Mas parece ser mais fácil sair bradando a própria ignorância e fazer troça de uma pessoa que, como tod@ transsexual, passa por conflitos incríveis devido, em parte significativa, à incapacidade das ‘modernas’ sociedades em entendê-l@s.

Divago, entretanto.

O post ao qual fiz referência é importante por salientar os méritos do programa em matizar e diversificar os queers participantes. Isso é fundamental para irmos além dos estereótipos fáceis e problemáticos (sempre que limitantes de possibilidades). Por outro lado, levanta bem o aspecto das alianças que, em tese, devem nortear toda pessoa que defenda as lutas LGBTT — e, em dimensão maior, tod@ humanista –, qual seja, a defesa igual de direitos daqueles que lhe sejam diferentes. Isso vale para gays que tenham preconceito de classe e gênero em relação a@s transgêner@s, para crossdressers que desdenhem travestis, transsexuais que desconsiderem o feminismo, etc — deixo alguns exemplos, somente. É triste que, muitas vezes, grupos oprimidos tenham comportamentos opressores em relação a outros grupos, ou mesmo a outros membros de seu próprio grupo.

Estamos nos tornando uma sociedade melhor porque há mais diversidade no BBB? Não necessariamente. O que um programa desses faz é abrir uma porta, imperfeita e intere$$ada, para discussão, através da qual podem entrar tanto idiotas quanto ativistas; cabem a est@s as tarefas de (1) não deixar a porta fechar; e (2) conquistar novos terrenos e novas portas.