Breves notas sobre protagonismos trans: agradecimentos, reconhecimentos, solidariedades

OAB - ao fim da SemanaSou bem caótica e desorganizada… mas não queria ficar sem falar — e, quem sabe, incitar mais conversas — sobre alguns acontecimentos recentes em minha vivência. Faz-se necessário agradecer por cada bom afeto, por cada sorriso e abraço, por cada disposição à redefinição+descolonização das ideias que temos sobre gêneros e identidades de gênero e diversidades corporais. Agradecer, e reconhecer as muitas lutas de resistência trans que me apoiam, e com as quais espero contribuir com meu melhor possível:

– quero dizer, em primeiro lugar, da alegria que foi ter participado da I Semana da Visibilidade Trans de Aracaju, este evento (entre tantos outros eventos bacanas Brasil afora) tão importante, e que para mim sinaliza um aspecto importante das lutas pelas diversidades corporais e de identidades de gênero, das lutas trans: a importância dos protagonismos intersecionais, de haver uma diversidade de pessoas trans, por ex., pensando questões trans. E com o desafio contínuo de ampliar a participação de pessoas trans racializadas, pobres, trabalhadoras do sexo, precarizadas, etc. Temos desafios a vencer (como a falta de recursos), mas podemos pensar em maiores autonomias trans e mais intersecionalidades nos movimentos sociais.

Astra (dia de visibilidade)– quero mencionar, também, a felicidade de ter me encontrado com algumas das pessoas que compõem a Astra (Associação de Travestis e Transgêneros de Aracaju – Direitos Humanos e Cidadania), e várias pessoas trans — transexuais, travestis, .. — dando entrada para acessar direitos fundamentais, como o nome nos documentos oficiais. São iniciativas importantes, e é importante que sempre pensemos em estratégias e possibilidades de despatologizar e desnormatizar este processo o mais possível, garantindo crescentemente a autonomia das pessoas trans no autorreconhecimento de suas identidades de gênero (o link é para uma apresentação que fiz sobre o tema). Este horizonte seria o da aprovação da Lei de Identidade de Gênero brasileira, lei João Nery.

Unidas– Conheci, também, várias pessoas que compõem a Unidas (Associação de Travestis Unidas na Luta Pela Cidadania), no dia da visibilidade trans, onde se conversou sobre algumas das questões e demandas políticas trans+travesti, como alteração de nomes e assessoria jurídica diante de violências institucionais, como as polícias militarizadas e o cistema prisional.

Roda vivencias trans (Centro LGBT)– Já de volta a Salvador, participei de uma roda de conversa sobre vivências trans no Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT da Bahia, em que pudemos conversar sobre violências policiais contra pessoas trans, sobre exclusões cissexistas dos cotidianos, sobre experiências e estratégias para ter acesso ao cistema de saúde, ao nome oficial correto, etc.

– Como não se emocionar com o manifesto de Maria Clara, aprovada na UFPE? Como não escutar cada história de resistência travesti, cada alteração de nome, cada respeito a nomes sociais, cada transformação existencial, como possibilidades descoloniais? Estes fortalecimentos internos são muito importantes, e um desafio imenso para as identidades de gênero dissidentes e inconformes à cisnormatividade: precisamos de criatividades para promover tais fortalecimentos.

– Nem sempre vencemos, é verdade: entretanto, ao conhecermos nossas histórias e as violências cissexistas+transfóbicas que as atravessam intersecionalmente, também podemos ir construindo solidariedades críticas às normatividades do cistema. Quando nos reunimos, quando compartilhamos experiências, quando damos risadas das situações de que escapamos, estamos resistindo. Espero que possamos ser agentes por solidariedades intersecionais trans, reconhecendo nossas limitações e as diversidades de estratégias e demandas políticas, e fortalecendo outras lutas através de contribuições críticas e sensíveis.

O cissexismo está mais perto do que pensamos

Há uma conversa sobre a despatologização da transexualidade: as supostas dificuldades em se estabelecerem procedimentos de atendimento às pessoas transgêneras (e não cisgêneras) fora da estrutura patologizante (que existem em vários sentidos, em especial se mantemos intacto o pressuposto de que a normalidade é cisgênera), situações hipotéticas de pessoas apresentando demandas nos serviços de saúde, as funções e possibilidades do Estado, os pressupostos ridículos do diagnóstico de ‘transexualismo’, a potência e prestígio dos discursos médicos (e das pessoas que lhe são porta-vozes). Entre outros pontos, questões e observações bacanas.

As mesas são de bar, as garrafas se empilham sobre elas e formam uma espécie de fogueira ao redor da qual as ideias se atravessam. Seus conteúdos já ingeridos dão tons amistosos, talvez enfáticos, aos argumentos que se levantam e procuram compreensões nas outras pessoas presentes.

Inicia-se um relato. Relato de alguém atrelado (não saberia especificar em que nível) à instituição médica, relato de alguém que, autodeclaradamente, ‘tem considerado essas questões’. Há curiosidade generalizada circundando as mesas.

“Em um acompanhamento de procedimento cirúrgico, havia um travesti sendo operado..”

Observa-se brevemente, ‘uma’. Há um olhar que parece considerar a observação pedante e desnecessária, um olhar que diz ‘enfim’.

“E então ele estava ali..”

‘Ela’, observa-se novamente. O olhar se repete, talvez um pouco mais intenso, e já aliado a outros, curiosos que estavam pela história que mal principiava e já era interrompida por observações, quiçá, secundárias.

‘Mas é que ela é ela. De maneira geral [e aqui não havia qualquer fator no relato que pudesse fazer inferir de outra maneira], travestis demandam tratamento no gênero feminino’. Talvez tenham as observações — quiçá óbvias, certamente alinhadas com compreensões consagradas pelas Nações Unidas — crescido tanto que demandavam resposta para além de olhares de reprovação. A mimimização por conta de uns bobos artigos levou à cartada médico-mágica:

“A pessoa que tem um pênis é homem, tecnicamente falando: tem cromossomos xy, etc etc [saber-se-á de que se quis tratar, suponho]”

A cartada pareceu concebida como definitiva. O olhar era de quem fala de algo inacessível, ou acessível somente às pessoas que dominam ‘A TÉCNICA’. Acalmavam-se aquelxs que ansiavam pelo relato, julgando que se arrefeceriam observações enfadonhas como aquelas.

‘Suponho que algum teste para determinar os cromossomos da pessoa tenha sido feito, então’. A observação, agora de menor contundência (visto que, ainda que todos os testes possíveis tivessem sido feitos, a autoidentificação de gênero da pessoa prevaleceria), procurou desestabilizar a comum averiguação cromossômica realizada por pessoas com títulos médicos, uma espécie de ‘cara-crachá’ que se resume a ‘genital parece pinto -> homem’, ‘genital parece vagina -> mulher’ (que é problemático em todos seus 4 termos). Evadir-se da observação sem enfrentar a desestabilização foi fácil, entretanto: bastou um ‘não sei’.

‘Não sei -> não’, inferiu-se sem que se verbalizasse a inferência.

Para o bem e o mal, multiplicou-se a conversa, com o relato continuando entre as pessoas fisicamente mais próximas ao relator, e uma ponderação (bem construída) de que determinadas áreas do conhecimento podem exigir a utilização de termos técnicos, de maneira que haja compreensões comuns e necessárias em procedimentos e outras relações de trabalho. Ainda que estes termos possam ser problemáticos (e devam ser questionados), eles seriam necessários em alguma medida para estas instâncias de comunicação — seguimos a ponderação, aqui.

A observação, agora direcionada à ponderação, é de que é possível utilizar uma linguagem distinta — e respeitadora de direitos humanos — sem que haja perdas de comunicação e erros decorrentes destas mudanças de vocabulário e flexão de gênero. Exemplificando, não seria necessária a palavra ‘homem’, mesmo quando seja em um contexto de cirurgia peniana em uma pessoa que se identifique enquanto mulher: dizer ‘operemos o pênis desta mulher’ não leva a nada mais que o desconforto da desestabilização do que significa ser homem ou mulher neste mundo — um desconforto que parece inaceitável em um mundo cissexista. Operemo-la, e se necessário verifiquemos suas taxas hormonais, sua carga cromossômica, e o que mais pareça relevante: tratá-la enquanto mulher independe disso — e, repete-se, configura um direito humano.

A ponderação e a observação se repetem e se mantêm em tons de discordância relativa. Além da suposta necessidade dos técnicos termos ‘homem’ e ‘mulher’, agregam-se a não intencionalidade de ofensa por parte do relator (que é crível, por mais comuns que sejam evasivas do tipo) e a implícita ideia de que a flexão incorreta de gênero e a denominação da pessoa como ‘homem’ não seriam ofensas-desrespeitos que se sobreporiam à tal necessidade — que inclui, tudo indica, este relato mesmo, objeto primeiro das primeiras observações.

O relato prossegue como concebido, para todas as pessoas às mesas. Agora utilizando os corretos ‘ela’ e ‘as’ correspondentes — a contragosto e com risotas de canto de boca — foi fundamentalmente o relato de como foram cissexistas os comentários da equipe médica em relação à pessoa (travesti) que era ali submetida aos seus cuidados ditos ‘profissionais’. Evidentemente, como facilmente se depreenderá dos rechaços feitos anteriormente às observações (olhares e cartada médica), sem se utilizar do vocábulo ‘cissexista’; ‘preconceituoso’ e ‘discriminatório’ estão mais à mão, ou à boca no caso.

E então, transborda do relato somente uma novidade: o cissexismo está entre nós, e quando não o analisamos com inteligência (crítica), poderemos até mesmo sentir uma indignação qualquer em relação aos ‘preconceitos’ cometidos por outras pessoas, mas dificilmente teremos os instrumentos e a potência crítica para enfrentá-los efetivamente, e muito menos para atentar aos nossos eventuais deslizes — nem se diga corrigi-los. Ignorar ou minimizar tentativas (realizadas gratuitamente e de boa fé, com vistas a possibilidades de existência digna às pessoas trans*) de ensinamento, de desconstrução de verdades supostamente ‘técnicas’ ou ‘científicas’ como meros caprichos não significa nada mais que a geração de mais um relato de cissexismo em nosso agradável e gostosinho mundo.

Aguarda-se ansiosamente pela humildade em aprender, desconstruir e modificar (tão raros em meios considerados tão ‘inteligentes’ e prestigiosos), e não por relatos que gerem novos relatos do cissexismo (e de outros ‘ismos’, sem dúvidas) na sociedade.

Ir+relevâncias de gênero — série fotográfica (proposta em guardanapo de avião)

A proposta desta série fotográfica é desestabilizar conceitos e narrativas históricas e contemporâneas a respeito dos gêneros [1]. A partir do entendimento de que a História não se limita a uma (re)contagem factual ou imparcial do passado, mas também engloba um exercício dialético entre indivíduxs e entre grupos sociais na busca de hegemonia sobre a perspectiva que publicará mais papers, anais, livretos, que fará mais e melhores congressos  nas mais belas praias (divago), ‘Ir+relevâncias de gênero’ procura questionar discursos, narrativas, estruturas institucionais e não-institucionais de poder que invisibilizaram e brutalizaram, bem como invisibilizam e brutalizam, individualidades ininteligíveis (com mais ou menos cinismo, com mais ou menos masturbações) a padrões dominantes de gênero, frequentemente articulados a movimentos opressores coloniais, religiosos, branco-macho-cis-hetero-eficiente-jovem supremacistas.

Neste sentido, a desarticulação do conforto cisgênero em imagens históricas sugere essa desconstrução simultânea de outras opressões mais, ou menos, visíveis, exercício em que o gênero pode fluir — inclusive dentro de uma mesma imagem –, entre a irrelevância e a relevância como categoria analítica de movimentos históricos. Indubitavelmente colocando em questão nossos próprios olhos, mirantes de um passado que conhecemos, para sermos já exageradxs, de maneira incompleta: olhamos o suficiente para gêneros quando estudamos nossas Histórias? olhamos, Nela, o suficiente para os horrores brancos das escravidões negras? olhamos colonialismos portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, norte-americanos, com a força que deveríamos (especialmente nosotrxs sujeitxs coloniais)?

Ficam as perguntas. As respostas contêm sangue.

Voluntárixs?

Notas

[1]- uso ‘respeito’ deliberadamente, no intuito de evidenciar como esta ideia tão complexa e preponderante permeia nossas percepções de gêneros. Por que devotamos (todxs nós, cis e trans) tanta consideração ao fato de que um vestido seja utilizado por pessoa que, presume-se, tenha nascido com pênis?

Estudos da cisgeneridade?

Em um pensamento aleatório (dos muitos que tenho, rs), tentei avaliar até que ponto as construções e premissas cisgêneras afetam as existências não-normativas. E nesta, me pareceram interessantes algumas consequências desta inversão de ângulo, entre o pensar a transgeneridade em direção ao considerar da cisgeneridade, tais como:

– esta inversão tornaria desnecessária qualquer definição precisa do quanto o termo ‘transgeneridade’ abarca ou exclui, algo que me parece gerar alguns problemas.

– a inversão coloca o opressor (ou seu sistema de dominação) sob os holofotes, não a(s) vítima(s), amenizando a culpabilização da vítima tão comum em formas mais ou menos sutis.

– também permite a possibilidade de analisar interações com outras normatividades, como a heterosexualidade, a branquitude (mais sobre esta a seguir), a religiosidade, etc., auxiliando na desconstrução de dilemas no sentido de ‘quem é o mais oprimido’.

É claro que por trás dessa ideia estavam os estudos da branquitude (whiteness studies, no inglês), que me parecem, pelo pouquíssimo que li, muito interessantes, por problematizar os privilégios e as consequências opressivas de se ter @ branc@ como normativ@. Por que, afinal, ao ler este trecho de artigo (obrigada google!) a respeito da branquitude no Brasil, não consigo evitar uma substituição (qualificada, considerando-se dimensões e diferenças) por cisgeneridade?

Para Guerreiro Ramos, a multiplicação de estudos do negro por “brancos” brasileiros, sobretudo do Norte e do Nordeste – Sylvio Romero, Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Thales de Azevedo, por exemplo – é sintoma da patologia do “branco” na sociedade brasileira. Na colonização escravagista,

‘a minoria dominante de origem européia recorria não somente à força, à violência, mas a um sistema de pseudo justificações, de estereótipos, ou a processos de domesticação psicológica. A afirmação dogmática da excelência da brancura ou a degradação estética da cor negra era um dos suportes psicológicos da espoliação. (1995: 220) [ênfase minha]

A partir deste paralelo, acabei pensando também nas tantas coisas que se poderiam estudar dentro destes estudos da cisgeneridade:

– como as construções médico-psicológicas das transgeneridades são fundadas em normatizações cisgêneras, em um processo de domesticação psicológica perverso, afinal muit@s trans necessitam ‘comprar’ os discursos relacionados para ter acesso a mudanças corporais desejadas. (pois é, ainda tô pensando naquele post)

– como as construções estéticas cisgêneras afetam identidades de gênero não-normativas, e vice-versa. Tomar em consideração as reações de oprimidos (no ‘tentar passar’, algo que ainda faço, ou ‘genderfuck‘ mermo) e opressores (no espanto, marginalização ou violência pura e simples)

– o papel da instituição legal no controle da normatividade cisgênera, como por exemplo na questão do nome social — um caso interessante devido ao seu ridículo, afinal se o número do rg não se altera, um dos poucos riscos, o de fraude, é bastante diminuído.

– a mídia em defesa da normatividade cisgênera. Os retratos de pessoas gênero-inconformes são sexualizadas (quer-se ver como se esconde o pinto, quando e como foi a operação, etc), tornadas parte do bizarro (conforme constituído pela normatividade), des- ou super-erotizadas, e quando em enredos de fantasia, como novelas, apresentados por atores-atrizes cisgêneros, para quem a existência gênero-inconforme é mero papel, e portanto menos questionadora da ordem cis.

– algo bastante relacionado ao primeiro tópico seria pensar como o sofrimento decorrente de uma não-conformidade de gênero é causada pelas constantes e fortes premissas cisgêneras. Pois que há sofrimento pra muit@s de nós, isso há, mas precisamos localizar a causa com muito mais precisão.

Nossa, acho que dá pano pra manga isso, hein… 🙂

Campanha?

Quando se fala na carga cromossômica para se inferir a (ou uma maior) legitimidade de se denominar ou tratar alguém por homem ou mulher — ai, vocês sabem quem vocês são, né –, eu fico imaginando quant@s de nós realmente sabemos de nossa carga cromossômica.

Eu nunca chequei, e como não procurei ter filh@s não tenho certeza de ser xy ou xx. E creio que a esmagadora maioria adolescente não tem nem ideia — e talvez ainda não possa inferir com certeza através das características secundárias.

Acho que uma campanha no sentido de “Você sabe qual seu cromossomo?” poderia desconstruir um pouco a inferência sem suporte objetivo da carga cromossômica das pessoas, em especial cisgêneras. É aquele lance, de se jogar a pergunta de volta (do tipo, a uma indagação sobre origens da homossexualidade, lançar a mesma indagação para a heterossexualidade).

A patologização-psiquiatrização e seus amiguinhos

Neste domingo, participei do seminário ‘Transexualidade e Saúde Pública no Brasil: Um olhar para o diagnóstico das identidades trans’, na faculdade de medicina da usp. Houve apresentações interessantes, sendo que o primeiro aspecto a se notar foi a presença minoritária das vozes trans nas mesas, o que tornou evidente a necessidade de que a luta por dignidade trans é fundamental e dificílima, considerando que divers@s supostos aliad@s parecem mais investidos em suas teses e carreiras do que propriamente em escutar as vozes daquelas pessoas que, afinal, trazem sentido a seu trabalho — pois é, as pessoas trans. Por outro lado, notam-se os avanços e as dificuldades para o tratamento adequado das pessoas transgêneras, em especial as travestis, marginalizadas também em relação à instituição médica.

Imers@s em powerpoints recheados de fotos cuja intenção semiótica é explicitar o caráter ‘excêntrico’ — outr@s diriam patológico, ou até engraçado, talvez — dos supostos desvios de gênero, e em citações que buscam dar algum verniz respeitável a ideias simplórias, est@s supost@s aliad@s não fazem qualquer esforço de desconstrução de suas ‘ciências’, nem mesmo quando estudiosos e leigos enxergam a obviedade das limitações do binário de gênero e suas origens sociais (que devem, portanto, ser desconstruídas, e não aceitas de maneira acrítica), passando despercebidos pelas formas como este binário se torna um elemento de suporte a muitas das perspectivas médicas. Como cordeiros das instituições que lhes afagam com títulos e status, tornam-se míopes aos condicionantes sociais que definem, ainda que sutilmente, as supostas verdades médicas; em sendo um problema que lhes traz prestígio, e não sofrimento, obviamente não há nesta incapacidade crítica necessidade de tratamento. Resta, portanto, à luta política a função de denunciá-la e demonstrar como esta enfermidade  é danosa não à pessoa portadora, mas a tantas pessoas trans que infelizmente se sujeitam às limitações destas pessoas para ter acesso a recursos controlados pela instituição médica.

Tais profissionais agarram-se, assim, tal qual antigos senhores de escravos e médicos de III Reich, a suas ideologias fundadas sobre premissas antigas, a necessidades econômicas, à suposta autoridade das instituições, às normalidades dos tempos em que vivem, e cegamente nem notam seu anacronismo — sequer reconhecendo suas ‘visões’ como ideologias, muitas vezes. E, como não poderia deixar de ser, do alto de sua calvície de bom senso, fazem brincadeirinhas acerca de termos cuja validade era o tema mesmo do seminário (foram recorrentes termos como ‘transexual masculino’ a uma mulher trans e ‘os travestis’).

Não nos deixemos revoltar, entretanto. Lembro aqui algumas palavras do irmão Malcolm X, que, diante de mais um episódio racista por que passou, utilizou da inteligência e das ideias para lutar: “Eu nunca me esqueceria daquilo — que eu não poderia haver acertado aquele homem branco tão fortemente com um pedaço de pau quanto eu havia feito com minha mente” (tradução livre). Esta deve ser a atitude das pessoas trans, em minha opinião: a da luta incessante por nossas verdades contra a imposição de supostas verdades cisgêneras e binaristas. Assim é a luta d@s negr@s, assim é a luta d@s indígenas, assim é a luta das mulheres, assim é, enfim, a luta de todas pessoas oprimidas no mundo, frequentemente em mais de uma destas esferas.

Neste sentido, além da nossa luta constante contra a transfobia ignorante (que também se alimenta de discursos médicos, para a surpresa de algumas pessoas: ‘oh, mas eu só tinha feito um diagnóstico!’), temos de atentar com cuidado aos discursos de supost@s aliad@s que não escutam perspectivas distintas das do binário de gênero, escondendo-se no fatalismo preguiçoso de ‘vivemos no mundo ocidental (vivemos quem, cara pálida, em uma sociedade primordialmente negra?), o binário é assim mesmo, too bad‘ de que cert@s profissionais não parecem querer abrir mão.

Discursos estes que lançam, sem questionamentos críticos à sociedade vigente, a ideia de ‘normalidade’, e a de que certos ‘anormais’ que sofrem psiquicamente devem ser diagnosticados e tratados. A falha destes está, acima de tudo, em não perceber a opressão social que sofrem est@s ‘anormais’, não para simplesmente consolar o paciente, e sim para problematizar o quanto deste sofrimento é condicionado socialmente, e mais que diagnosticar, também gerar nestas pessoas uma consciência de luta e de dignidade que, afinal, é emancipatória. Os diagnósticos atuais não ajudam em nada neste ganho de consciência, culpando a vítima pela opressão sofrida como faziam supostos profissionais médicos (todos, ou quase, homens à época) que viam na inferioridade negra a razão da escravidão.

Em um caminho paralelo, e importantíssimo, também devemos lutar para que haja mais pessoas trans em posições de poder, em especial em instituições médicas e legais. Porque, lembrando Nelson Mandela, que expressava sua inquietação sobre a possibilidade de um julgamento justo em uma corte e um judiciário integralmente controlados por pessoas brancas e onde negr@s não têm representação, somente haverá alguma possibilidade de avanço efetivo para as pessoas trans quando estas tiverem voz, poder e representação nas instituições médicas e legais, evitando a situação atual de vítimas ignoradas ou maltratadas por instituições dominadas por pessoas cisgêneras. E este será um caminho difícil, de luta contra um sistema que nos marginaliza mesmo quando são óbvias nossas capacidades técnicas e intelectuais. Mas devemos ter a consciência de que, enquanto as classes médicas e legais forem dominadas por pessoas cisgêneras, suas visões nos serão impostas e seguiremos tendo est@s supost@s aliad@s a nos afagar condescendentemente. Contudo, a luta avança, e isto inclui aliad@s verdadeir@s também — o foco n@s supost@s é devido ao seminário de ontem.

Referindo-se mais diretamente à luta pela despatologização, o fundamental é abrir os olhos de profissionais para considerar o caráter social do eventual sofrimento psíquico de pessoas trans, incorporando esta consideração em seus trabalhos. É necessário demonstrar que o sentimento de inadequação provém de uma sociedade que, desde o nascimento de suas crianças, reduz gênero a uma dualidade artificial, muitas vezes impondo esta dualidade de maneira violenta, através de cirurgias involuntárias em pessoas intersex. E, para est@s profissionais, é importante que tenham humildade no repensar suas próprias ‘ciências’, e analisar até que ponto suas supostas verdades não estejam embebidas da ignorância gênero-binária e transfóbica também.

Finalmente, compreendo que muitas pessoas trans vejam nos atuais caminhos médicos a possibilidade de alcançar algo que desejam. Porém, a estas pessoas peço que se façam a seguinte pergunta: devemos aceitar de forma acrítica as premissas e supostas verdades daquelas pessoas que detêm as chaves de nossos sonhos, ou sermos pragmáticos e usarmos estas pessoas estrategicamente, sem abdicar da perspectiva crítica de que a emancipação e autonomia somente são possíveis quando as chaves estão em nossas mãos? E que, afinal, elas podem estar em nossas mãos, sem que logicamente isso não impeça que profissionais da saúde atuem com seus conhecimentos de maneira consultiva e tratando-nos como seres human@s autônom@s e plen@s?

Não esqueçamos que os senhores das chaves serão capazes das maiores peripécias lógicas para mantê-las em suas mãos, sob seu controle. Não nos iludamos.

Algumas observações ao texto acima que considero importantes:

1. recuso-me a utilizar denominações de suposto respeito, como doutora, por entender que este suposto respeito confere uma validade indevida aos argumentos de pessoas, para além do que são, argumentos. A força destes deve ser medida por seus fundamentos, sua coesão, e sua consideração de acordo com contextos sociais. Que não se transtornem com isso; e, caso se transtornem, procure-se, pois, uma opinião médica, que nada mais é que isso, opinião — que deve ser analisada e desconstruída sempre que necessário.

2. ao utilizar paralelos e ilustrações que remetem a outras lutas históricas, não pretendo de forma alguma hierarquizá-las, muito menos minimizá-las. A intenção, aqui, é tão somente demonstrar que as óbvias injustiças e atrocidades cometidas no passado também trouxeram, em seu tempo histórico, defensores e outr@s aliad@s suspeit@s, seja por ignorância, interesses próprios, ou má-fé. No caso em questão, identifico tais aliad@s como aquelas pessoas que, por não questionarem suas próprias ‘ciências’ a fundo, por defenderem suas teses e carreiras, ou por sentimentos que levem a desconsiderar as vozes trans para além de ‘pacientes-com-sintomas-a-tratar’, que em outras circunstâncias existem(iram) de maneira semelhante, como mulheres que se negam a enxergar o persistente sexismo nas sociedades e ‘uncle toms‘ que aceitam os paradigmas brancos.

Finalmente, gostaria de fazer algumas considerações específicas sobre a fala de Alexandre Saadeh, uma colocação sua que encontrei na internet, e posteriormente fechar com um trecho do Manifesto pela Despatologização Trans:

– Alexandre Saadeh, em sua fala no seminário, reiteradamente defendeu que o transtorno de gênero não tem qualquer conotação negativa, e que não quer dizer que ‘transtornados de gênero’ sejam loucos ou coisa que o valha. Se a sociedade ou @ própri@ “paciente” enxergam a conotação negativa, isso é algo a ser trabalhado.

Sequer entrarei no caráter discriminatório que Saadeh traz sobre a loucura, e que a luta antimanicomial critica com tanto esforço, por uma questão de brevidade. Mais que tudo, é preciso evidenciar o caráter evasivo desta posição, que marotamente minimiza o efeito das ‘palavras do especialista’ sobre as percepções sociais, tirando o corpo da responsabilidade de rever conceitos. A psiquiatrização desnecessária de existências não-normativas é um agente da opressão por que passam pessoas trans, quer Alexandre concorde com a transfobia ou não, e é necessário que ele tome consciência disso.

– ao final, ao ser questionado (por mim) sobre até que ponto interesses pessoais de profissionais (como ele) não interferem em um debate claro sobre a patologização trans, Alexandre, após mencionar sua tese de doutorado e seu histórico com transexuais, diz que o trabalho com este público é extremamente difícil, que poderia ter escolhido outra atividade, e que o atendimento que faz às pessoas transexuais é pelo SUS, ou seja, gratuito e fora de sua prática privada.

De fato, com todo seu histórico e tese de doutorado, Alexandre reforça meu questionamento crítico: de que maneira alguém tão investido na estrutura patologizante atual (com uma tese e toda uma carreira fundadas em suas premissas) poderia ser neutro na discussão sobre a despatologização das identidades trans? De que maneira Alexandre propõe um auto-questionamento que possa evitar um viés exagerado em prol de um dos lados?

Neste sentido, meu ponto não era questionar a validade ou não do que Alexandre fez ou deixou de fazer, e simplesmente problematizar sua posição como não necessariamente ‘ciência’ pura. Ainda mais tomando em conta a força argumentativa e política que a despatologização vem ganhando.

Por outro lado, a dificuldade de trabalho com as pessoas trans (que, repito, existe por condicionantes sociais mais que qualquer fator inerente a nós), apontada por Alexandre em tom quase auto-coitadista — que ele negou retoricamente, sem ser convincente (eu pelo menos estive a ponto de verter uma lágrima por ele) — é mero malabarismo retórico. Ser uma pessoa trans nesta sociedade é uma dificuldade muito maior, e não esperava tal insensibilidade por parte de quem trabalhou por tantos anos com algumas destas pessoas. Sinceramente, não se esperem agradecimentos muito efusivos de minha parte, afinal percebo como danosa, desde um ponto de vista da dignidade das pessoas trans, a perspectiva de alguém como Alexandre Saadeh.

– em um blog atribuído a Alexandre Saadeh, é possível perceber que nem tudo está perdido, e que Alexandre tem alguma consciência de que há constituição social nas discriminações e opressões sexuais:

“A Organização Mundial de Saúde nos diz que é normal a sexualidade exercida em plenitude entre dois adultos humanos vivos. Agora o que eles fazem entre si só é da conta deles e, portanto, normal para eles. Excitar-se com pés, gostar de sexo oral, preferir mulheres ou homens gordos, tudo isso só poderia ser considerado “anormal” se impedisse a vivência de plenitude do indivíduo ou o fizesse sofrer. O grande problema é que nossa moral, cultura e religiões penalizam, culpabilizam e condenam muitas formas de expressão da sexualidade por pura tradição, ignorância e preconceito.”

Faltam-lhe somente dois aspectos para se pensar adequadamente as pessoas trans: (1) o fato de que são estas instituições sociais (moral, cultura, religiões, medicina) que frequentemente causam a “anormalidade” que impede uma vivência individual plena e leva ao sofrimento, e (2) o pensar o gênero como algo que é somente da conta da pessoa humana, e que ela deve ter autonomia plena sobre ele, sendo independente do controle compulsório da ‘ciência’ médica — o que, repito, não é incongruente com uma assessoria médica adequada, que em minha opinião é importantíssima.

Que Alexandre possa repensar todas estas questões, até mesmo para evitar que seu trabalho vá para o lixo da História onde se encontram defensores das diferenças raciais e do homossexualismo.

– finalmente, um trecho do Manifesto pela Despatologização Trans, que espero Alexandre possa vir a ler (e entender). É um alento saber que há aliad@s de verdade nesta luta:

“Por “psiquiatrização” nomeamos a prática de definir e tratar a transexualidade sob o estatuto de transtorno mental. Referimo-nos, também, à confusão de identidades e corpos não normativos (situados fora da ordem cultural dominante) com identidades e corpos patológicos. A psiquiatrização relega às instituições médico-psiquiátricas o controle sobre as identidades de gênero. A prática oficial de tais instituições, motivada por interesses estatais, religiosos, econômicos e políticos, trabalha sobre os corpos das pessoas amparando e reproduzindo o binômio homem e mulher, fazendo com que esta postura excludente passe por uma realidade natural e “verdadeira”. Tal binômio, pressupõe a existência única de dois corpos (homem ou mulher) e associa um comportamento específico a cada um deles (masculino ou feminino) ao par que, tradicionalmente, tem-se considerado a heterossexualidade como a única relação possível entre eles. Hoje, denunciando este paradigma, que tem utilizado o argumento da biologia e da natureza como justificativa da ordem social vigente, evidenciamos seus efeitos sociais para por fim a suas pretensões políticas.”