O caminho transgênero (13) – Três mensagens

Uma mensagem de Joe Solmonese (presidente, Human Rights Campaign Foundation)

Obrigado por consultar e por ler o guia Transgender Visibility. [1]

Nós sabemos que todo e qualquer progresso em questões de igualdade se iniciam com o simples porém profundo gesto de compartilharmos nossas vidas com outras pessoas. Este é, de fato, a maior ação política que qualquer de nós podemos fazer. Quando as pessoas — e nisso se incluem eleitorxs e eleitxs — tomam conhecimento de nossas vidas, nossos anseios, nossas aspirações e, sem dúvidas, nossas lutas, nós começamos a vislumbrar uma mudança. Nós começamos a mudar corações e mentes.

Esta é a maneira através da qual avançamos em questões legais relacionadas à identidade e expressão de gênero, seja no âmbito municipal, estadual ou federal. É assim que continuamos a pressionar empresas a incluir a identidade e expressão de gênero em suas políticas de proteção e benefícios. Não se necessita somente de fatos e números para efetuar estas mudanças, mas fundamentalmente do trabalho árduo que é nos mostrarmos e contarmos nossas histórias.

Sabemos que, conforme mais pessoas [cisgêneras] passem a conhecer pessoas transgêneras norte-americanas, os mitos e temores em torno da identidade de gênero darão lugar a compreensão e apoio.

Por estas razões estou tão contente que a Human Rights Campaign Foundation tenha compilado este guia. Nós esperamos que o Transgender Visibility lhe traga orientações úteis nesta jornada.

Sinceramente,

Joe Solmonese

Uma mensagem de Allyson Robinson (diretora-associada de Diversidade, Human Rights Campaign Foundation)

Eu cheguei lá — e você também pode.

Levei muitos anos para compreender quem eu era e para aceitar esta parte de mim que sempre pareceu tão diferente de todas as outras pessoas. Olhar para mim mesma no espelho e dizer “Eu sou transgênera” foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida, e dizer estas mesmas palavras para minha família e amigxs foi ainda mais complicado. Eu tive tanto medo!

Talvez você se sinta da mesma forma. Neste caso, permita-me oferecer estas palavras de incentivo desde ‘o outro lado’: eu me sinto tão bem por ter feito isso.

Hoje, tenho um sentimento de satisfação e paz mais intenso do que poderia imaginar. Todos os dias, experimento a alegria de viver uma vida aberta e honesta e de me relacionar socialmente de maneira integral e autêntica — orgulhosa de quem eu sou e da comunidade transgênera de que faço parte. Se sofri perdas pelo caminho? Sem dúvidas — mas ao final, as coisas que ganhei fizeram tudo valer a pena.

Não importando se você recentemente passou a se compreender como pessoa transgênera, ou se você esperou por anos para compartilhar com pessoas próximas algo que já sabia sobre sua identidade de gênero, minha esperança é que este guia possa lhe ajudar a dar o próximo passo em direção a essa sensação de completude que eu e tantas outras pessoas transgêneras descobriram.

Sua companheira na jornada,

Allyson Robinson

Uma mensagem minha

A ideia de fazer esta adaptação surgiu no momento em que peguei este guia na pequena loja da Human Rights Campaign Foundation, no histórico local onde Harvey Milk tinha sua loja de fotografia no Castro, em San Francisco. Era um momento intenso de introspecção, viajando só, embora as ruas da cidade estivessem cheias e queers pela parada que se aproximava: encontrar-se consigo mesmx é um exercício imenso, em especial neste nosso mundo cisgênero.

Naquele momento, já havia várias pessoas que sabiam de minha identidade de gênero (que ‘sabiam de viviane’, como digo às vezes), algumas delas fundamentais para mim. Mas persistia — e ainda resiste um pouco, infelizmente — uma certa vergonha e um certo temor em compartilhar minha identidade de gênero. Este guia, entre tantas outras conversas e vivências, serviu para que eu fosse percebendo, apesar de todas as mensagens confusas e problemáticas que nos traz esta sociedade dominante (cisgênera), que havia uma dignidade inerente a nossas identidades de gênero (independentemente de quais sejam elas), que havia uma luta importante por essa dignidade, e que houve, há e haverá um grande número de pessoas cujas identidades de gênero sejam similares às nossas — sejam elas oprimidas ou não pelas sociedades em que estejam.

Neste sentido, escrever esta adaptação foi uma tentativa de compartilhar essas percepções com outras pessoas, de forma que elas possam ter uma melhor compreensão de si mesmas e também de outras pessoas. Afinal, compreender a dignidade de identidades de gênero não-cisgêneras não é nada mais que reconhecer e respeitar a humanidade em todxs nós. No entanto, o que foi mais interessante, e até inesperado, para mim, foi o caminho transformador que o ato de trabalhar com este guia me trouxe: os agradecimentos, as conversas, as revisões, foram todas oportunidades de fortalecimento e aprendizado, e agradeço sinceramente a todxs que participaram desse processo. Fiquei verdadeiramente feliz com a possibilidade de haver contribuído um pouco para aprimorar as visões das pessoas sobre as transgeneridades, em particular, e sobre a humanidade, em um sentido mais geral.

É também um processo que se encerra em um contexto pessoal particularmente interessante, e que se relaciona de maneira muito forte com a temática deste guia: recentemente, meus pais passaram a saber de minha identidade de gênero inconforme. E acredito que isso foi positivo, apesar de todas as dificuldades que surgiram e ainda seguem: a sensação de não haver mais segredos com pessoas tão importantes em nossas vidas é enorme, e, no meu caso, a evolução na aceitação e respeito delxs foi incrível. Talvez sejam nossas lutas surtindo efeito, quem sabe. Porém, não se deve descansar, que muitas outras pessoas ainda são expulsas de casa e violentadas nas mais diversas formas devido às suas identidades e expressões de gênero.

Desejo, enfim,  perseverança a todxs para seguir seus caminhos de maneira crítica e feliz, tomando-se a felicidade como definida neste trecho de um bonito poema escrito pela juventude rebelde zapatista:

“No es necesario todo para hacer un mundo,

es necesaria la felicidad y nada más.

Para ser feliz es necesario simplemente ver claro


y luchar.”

beijos transgêneros fraternos,

viviane v

Human Rights Campaign Foundation acredita que todxs norte-americanxs devem ter a oportunidade de cuidar de suas famílias, de ter uma renda, de servir seu país e de viver vidas abertas, honestas e seguras em suas casas, locais de trabalho e comunidades. Através de pesquisas pioneiras, luta por direitos e educação, a HRC Foundation promove práticas e políticas que apoiem e protejam pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneras e suas famílias em organizações educacionais, de saúde, corporativas, públicas e privadas por todo o país [EUA]. Visite www.hrc.org para mais informações.

Notas

[1]- esta série é baseada no guia da Human Rights Campaign Foundation chamado ‘Transgender Visibility – A guide to being you‘ (‘Visibilidade Transgênera – Um guia para você ser você’, numa tradução livre do inglês).

O caminho transgênero (12) – Mitos e fatos

Nota: este não é, de maneira alguma, um guia completo para todos os conceitos relacionados às transgeneridades. O guia é voltado para aquelas pessoas que estão iniciando seu aprendizado em questões de gênero, especialmente as relacionadas às transgeneridades.

A seguir, alguns mitos e fatos a respeito de pessoas transgêneras:

Mito 1: Pessoas transgêneras são-estão confusas.

Fato: Pessoas transgêneras não são nem mais nem menos confusas que qualquer outra pessoa possa ser a respeito de sua individualidade, ou de seu ‘lugar no mundo’ [1]. Os gêneros constituem, em boa parte das sociedades contemporâneas dominantes, um tópico bastante complicado, em especial para aquelas pessoas que subvertem suas normas e ideologias; lidar com essas questões pode ser um desafio enorme. No entanto, quando uma pessoa está pronta para ‘se assumir’ como transgênera, em geral ela pensou bastante a respeito e está segura sobre sua decisão.

Mito 2: Ser transgênerx é uma ‘escolha’.

Fato: Ser transgênerx não pode ser considerado uma escolha [2], no mesmo sentido em que ser hetero ou homossexual, ter olhos castanhos ou azuis, ou ser canhoto ou destro não são. A escolha que existe é relativa à decisão de viver abertamente consigo próprix e com outras pessoas relevantes.

Mito 3: Pessoas transgêneras são, na verdade, homossexuais.

Fato: Identidade de gênero(s) e orientações sexuais são dois tópicos separados. Algumas pessoas transgêneras são lésbicas, gays, hetero, assexuais ou bissexuais em suas orientações sexuais [3].

Mito 4: Pessoas transgêneras são pecadoras.

Fato: Muitas pessoas transgêneras são pessoas de fé, ou não compartilham da ideia de pecado apresentada pelas religiões, sendo independentes e-ou ateias. Sendo assim, a afirmação não lhes faz qualquer sentido. Por outro lado, muitas pessoas transgêneras de fé encontram solidariedade e apoio espiritual em boas instituições religiosas, ainda que haja muita hostilidade e opressões (micro e institucionais) na maioria das igrejas, sinagogas, templos, mesquitas e comunidades religiosas.

Mito 5: Pessoas transgêneras não podem ter famílias.

Fato: Inúmeras pessoas transgêneras encontram amor e felicidade em suas vidas, acompanhadas ou não de umx parceirx, com ou sem filhxs. Um dos maiores problemas enfrentados pelas pessoas transgêneras são as microagressões sociais e as opressões institucionais a que estão sujeitas. Ainda assim, uma parcela significativa dessas pessoas dirá que, após ‘sair do armário’, surge um forte sentimento de felicidade e completude que, ao final, lhes permite uma vida mais leve e interessante, apesar destas dificuldades sociais.

Mito 6: Pessoas transgêneras podem ‘ser curadas’ — isto é, ‘convertidas’ à cisgeneridade.

Fato: O conceito de uma suposta ‘cura’ à transgeneridade é uma falácia, geralmente associada a premissas pseudo-religiosas e-ou pseudo-científicas. Embora muitas pessoas, devido à internalização de discursos problemáticos, tentem reprimir sua verdadeira identidade de gênero, os grupos médicos e psicoterapêuticos mais respeitáveis recomendam que não se deve reprimi-la. Nesse sentido, dizem que o ideal é procurar maneiras de alcançar uma maior auto-compreensão e de compartilhar sua vida abertamente com aquelas pessoas que se ama.

Mito 7: Todas as pessoas transgêneras passam por cirurgia.

Fato: Muitas pessoas transgêneras não têm o desejo de passar por intervenções cirúrgicas ou outros procedimentos médicos. Por outro lado, muitas outras não têm condições econômicas e-ou não se encaixam nos atuais padrões de atendimento médico [4], não tendo como realizar mudanças que consideram necessárias para si. Considerando estes fatos, é fundamental que direitos civis sejam conquistados para todas as pessoas transgêneras de maneira equânime, conforme suas necessidades e independentemente de seus históricos médicos.

Mito 8: Há mais pessoas transgêneras no espectro MtF (do inglês male-to-female, homem-para-mulher) que no FtM (female-to-male, mulher-para-homem) [5].

Fato: Não há estatísticas confiáveis sobre quantas pessoas transgêneras ou gênero-inconformes existem no mundo, e tampouco quantas delas se identificam mais com o espectro MtF ou FtM. Entretanto, mesmo as melhores estimativas mostram que há um número aproximadamente igual de pessoas transgêneras nos espectros MtF e FtM.

Notas

[1]- vide o enorme fluxo de livros de auto-ajuda e as religiões que abundam.

[2]- esta é a perspectiva atualmente mais aceita, a de que fatores dissociados da agência-vontade pessoal estão mais fortemente relacionados a individualidades transgêneras (em especial às indiv. transexuais). Mas não há consenso científico, como discute este post.

[3]- logicamente, respeitando aqui a perspectiva da qual a pessoa transgênera parte: se se trata de uma mulher trans, ela é lésbica, caso se interesse por mulheres. E assim por diante.

[4]- o acesso a recursos para ‘transição’ é problematizado neste post, bem como no artigo ‘Desdiagnosticando o gênero‘, de Judith Butler. A existência de restrições e controles sobre a autonomia de pessoas transgêneras sobre seus corpos é especialmente perversa com aquelas pessoas sem recursos financeiros para recorrer ao sistema privado, ou que estão fora dos padrões médicos correntemente aceitos. A luta pela despatologização das identidades trans* representa, fundamentalmente, a demanda política para que estas identidades não sejam mais consideradas patologias médicas e que esta retirada dos livros médicos (similar à retirada da homossexualidade nos anos 90 — no Brasil) acarrete na perda de direitos adquiridos.

[5]- a terminologia corrente é, por vezes, ainda limitada a conceitos binários de gênero. Utilizo a palavra ‘espectro’ para trazer um pouco de fluidez a ela, lembrando também que existem diversas individualidades que não sentem a necessidade de se identificar dentro de nenhum destes espectros.

O caminho transgênero (11) – Glossário

[atualização (01-mar): após comentários ótimos de S.L. — obrigada!]

[atualização (02-mar): adicionando referência sobre a questão das ‘categorias’ travesti e transexual, após comentário de A.R. — obrigada!]

Muitas pessoas evitam conversar a respeito de identidades e expressões de gênero por acreditarem se tratar de um tabu ou por estarem com medo de dizer algo ofensivo ou incorreto. Este glossário tem o objetivo de trazer uma primeira compreensão das palavras e conceitos bastante comuns, para que conversas fluam mais facilmente [1].

identidade de gênero – o(s) gênero(s) que uma pessoa reivindica ou percebe em si mesma, e que pode(m) ou não estar de acordo com as premissas pênis-homem e vagina-mulher, incluindo aí pessoas cuja genitália não se restringe ao binário de pênis e vagina.

expressões de gênero – as formas através das quais uma pessoa se comporta ou se apresenta em relação a expectativas sociais de gênero.

orientação sexual – refere-se à atração emocional, romântica, sexual e afetiva que uma pessoa possa ter por outra. As diferentes orientações sexuais se referem, geralmente, ao sexo desta pessoa-desejada (homo, hetero, bi, ou assexuais) [2]. A orientação sexual é independente da identidade de gênero que uma pessoa pode ter — embora possa haver interações entre elas.

transição – o nome corrente para um conjunto de mudanças sociais e corporais através de que pessoas transgêneras passam a viver o(s) gênero(s) com que se identificam, ao invés do que lhes fora imposto desde o nascimento. Este processo pode ou não incluir terapia hormonal, cirurgia de redesignação sexual e outros procedimentos médicos.

pessoa transgênera – um conceito amplo que é utilizado para reconhecer diversos tipos de vivência, tendo em comum o fato de que suas experiências e-ou expressões de gênero são distintas daquilo que a sociedade dominante espera dessas pessoas [3]. Ver ‘pessoa cisgênera’.

pessoa cisgênera – um conceito utilizado para definir pessoas cujas experiências e expressões de gênero estão de acordo com as expectativas sociais, ou seja, para a pessoa com pênis, a identificação como homem masculino, para a pessoa com vagina, a identificação como mulher feminina [4 e 5]. O prefixo de origem latina cis- é utilizado em oposição ao prefixo trans-, sendo utilizada em outros contextos que não o de gênero — por exemplo, na química (ver isomeria geométrica).

pessoa transexual – uma pessoa que, com ou sem tratamentos médicos, identifica-se e vive sua vida como pertencente a gênero(s) que não seja(m) aquele(s) imposto(s) no nascimento.

homem transexual/trans ou transexual FtM (do inglês female-to-male, mulher-para-homem) – alguém que foi considerado como mulher no nascimento e-ou socialização e transiciona para uma identidade de gênero de homem, com expressões de gênero masculinas, femininas, ou em qualquer ponto entre essas duas possibilidades.

mulher transexual/trans ou transexual MtF (do inglês male-to-female, homem-para-mulher) – alguém que foi considerada como homem no nascimento e-ou socialização e transiciona para uma identidade de gênero de mulher, com expressões de gênero masculinas, femininas, ou em qualquer ponto entre essas duas possibilidades.

travesti – uma pessoa transgênera que tem uma identidade de gênero como mulher, e que, de acordo com entendimentos correntes de várias delas, se distingue da mulher transexual por uma questão ligada a preceitos médicos (como a decisão de não buscar fazer a cirurgia de redesignação sexual) e-ou associada a uma dimensão político-social (em que se reconhecem demandas, sociabilidades e subjetividades específicas às travestis). É um termo com formação histórica significativa no Brasil — sendo mais relevante na análise de transgeneridades que em outros países –, o que torna sua compreensão muito mais complexa que uma mera transposição de conceitos internacionais (o que ocorre com mais tranquilidade com termos como ‘gay’ e ‘lésbica’). [6]

cross-dresser – pessoas transgêneras que se utilizam das vestimentas e expressões do gênero socialmente constituído como ‘oposto’ ao seu, de maneira temporária e, em muitos casos, privada.

gênero-variante, gênero-diversx, ou genderqueer – termos utilizados por várias pessoas para descrever suas identidades e expressões de gênero(s) inconformes, em desacordo com padrões estabelecidos.

LGBTIAQ-queer – sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgênerxs, Intersex, Assexuadxs, Pessoas em Questionamento, e Queer.

Outro glossário mais detalhado pode ser encontrado na ‘Gay and Lesbian Alliance Against Defamation‘, voltado à divulgação midiática porém também útil para pessoas que gostariam de aprender mais.

Uma nota sobre pronomes

Pessoas transgêneras devem ser sempre tratadas com os pronomes correspondentes ao(s) gênero(s) com que se identificam (por exemplo, uma mulher trans deve ser tratada como mulher). Caso você esteja em dúvidas sobre o(s) gênero(s) de alguém, é apropriado perguntar-lhe respeitosamente seu nome e, se necessário, que pronomes elx gostaria que fossem utilizados por você. Em geral, é considerado ofensivo referir-se a alguém pelos pronomes incorretos a partir do momento que se saiba quais pronomes essa pessoa prefere.

Notas

[1]- como o guia da Human Rights Campaign Foundation, ‘Transgender Visibility – A guide to being you’ (‘Visibilidade Transgênera – Um guia para você ser você mesmx’, numa tradução livre do inglês), é voltado à realidade norte-americana, alguns termos e conceitos variam em relação à perspectiva brasileira. Tentei adaptar o que considerei necessário, tendo em mente a dignidade das pessoas transgêneras (ou seja, buscando a perspectiva mais inclusiva possível) e o reconhecimento de lutas políticas específicas (reconsiderando, por exemplo, a luta pela ressignificação das travestis). Por outro lado, este glossário pretende apresentar  uma visão inicial sobre os termos mais comuns, reconhecendo que eles nasceram, frequentemente, como respostas a discriminações ou dentro de contextos médicos e legais limitados-limitantes, e também vão se alterando no tempo conforme as lutas avançam (ou, infelizmente, retrocedem).

[2]- embora as suas limitações conceituais possam ser problemáticas e desestabilizadas quando esta pessoa-desejada não se encaixe em definições claras de sexo-gênero.

[3]- e o que infelizmente ainda se espera das pessoas em geral? Fundamentalmente, que respeitem as associações cisgêneras dominantes de pênis-masculino e vagina-feminino. E, para a realidade das pessoas intersexo, que essas pessoas ‘escolham um lado’ — ou melhor, que familiares e médicxs ‘escolham um lado’ por elas –, e que o lado escolhido seja o mais adequado aos padrões estéticos cisgêneros (i.e., que a pessoa mulher seja feminina, delicada, e a pessoa homem seja masculina, viril).

[4]- mais informações podem ser encontradas em http://en.wikipedia.org/wiki/Cisgender e http://queerdictionary.tumblr.com/post/9264228131/cisgender-adj. A importância de se utilizar e se enfatizar a cisgeneridade como categoria analítica está em tirar a condição cisgênera de seu conforto, de sua suposta naturalidade. A partir daí, fica mais fácil perceber como a sociedade trata, considera, monitora e pune pessoas transgêneras de maneira assimetricamente desigual em relação às pessoas cisgêneras. Este texto é esclarecedor neste sentido.

[5]- pessoas cujas genitálias sejam distintas desse binário restrito pênis-vagina são, ocasionalmente, sujeitas a procedimentos médicos sem seu consentimento, de maneira a se adequar a esses padrões cisgêneros. Que procedimentos médicos de tamanha relevância para a individualidade das pessoas sejam realizados sem consentimento delas é uma importante crítica política feita pelas pessoas intersexo, que demandam uma reconstrução das perspectivas que norteiam estes procedimentos (quando é realmente necessário alterar a genitália de uma pessoa, afinal, se não por sua vontade? há preocupações relacionadas à saúde-sobrevivência destas pessoas, ou meramente à manutenção da normalidade social cisgênera?).

[6]- há diversos trabalhos que problematizam a conceituação da travesti (sem lhe negar legitimidade, diga-se). Apresento três deles aqui, de onde se pode obter outras referências: ‘Nossos corpos também mudam: Sexo, gênero e a invenção das categorias ‘travesti’ e ‘transexual’ no discurso científico‘, de Jorge Leite Jr, ‘Do casulo à borboleta: uma compreensão fenomenológica da travestilidade‘, de Juliana Coelho; e ‘Nomes e diferenças: uma etnografia dos usos das categorias travesti e transexual‘, de Bruno Cesar Barbosa.

O caminho transgênero (10) – Dez coisas que todx norte-americanx deveria saber

Embora as informações abaixo façam referência à realidade dos Estados Unidos, acredito que sejam interessantes, até mesmo para se fazer um contraste e problematização da realidade brasileira [1]. Diversas questões surgem de sua leitura: ‘em se tratando do país mais rico e poderoso do mundo, o que a existência de tantos crimes e discriminações contra pessoas transgêneras nos pode revelar?’, ou ‘como a realidade brasileira se compara à realidade norte-americana, e quais nossas possibilidades específicas de avanço?’, entre tantas outras.

1. Mais de 75% dxs votantes nos Estados Unidos acreditam que deveria ser ilegal demitir alguém somente porque essa pessoa é transgênera. (pesquisa da Human Rights Campaign / Hart Research, 2005)

2. Aproximadamente 65% das empresas da Fortune 100 — lista que engloba as empresas norte-americanas mais rentáveis — oferecem políticas não-discriminatórias que incluem identidade de gênero. Mais e mais empresas adicionam esta proteção específica a cada ano. (Human Rights Campaign, 2010)

3. Enquanto isso, 26% de trabalhadorxs transgênerxs relatam ter perdido seus empregos devido à sua identidade de gênero e 97% relatam outras experiências negativas no ambiente de trabalho (variando de agressão verbal a abusos). (National Gay and Lesbian Task Force / National Center for Transgender Equality, 2009)

4. Em 2009, identidade de gênero foi adicionada à lei federal sobre crimes de ódio, explicitamente protegendo pessoas transgêneras pela primeira vez sob leis federais de direitos civis [2- federal civil rights law, no original]. Crimes de ódio contra norte-americanxs LGBTIAQ-queer [3], no entanto, continuam a ser um problema significativo, e os esforços para acabar com tais crimes devem continuar.

5. Regulamentos militares negam às pessoas transgêneras norte-americanas o direito a servir abertamente em relação à sua identidade de gênero, e veteranxs transgênerxs enfrentam discriminações significativas perpetradas pelo sistema médico voltado axs veteranxs [4- Veterans Administration medical system, no original]. (estudo da Transgender American Veterans Association / Palm Center, agosto de 2008)

6. Na maioria dos estados norte-americanos, ainda é considerado legalmente aceitável demitir alguém de seu trabalho simplesmente por essa pessoa ser transgênera.

7. Ainda que desafios ainda existam, há diversas comunidades e vertentes religiosas lideradas por pessoas transgêneras e-ou receptivas à diversidade de gêneros por todos os Estados Unidos e além.

8. Através da História e das mais diferentes culturas, pessoas se expressaram de maneiras que, de acordo com conceituações contemporâneas, poderíamos considerar transgêneras. Várias culturas nativas norte-americanas têm as pessoas ‘dois-espíritos’ [5- two-spirited, no original] como um grupo reverenciado.

9. De acordo com algumas estimativas, 0,25 a 1,00% da população norte-americana é composta de pessoas transexuais. Entretanto, considera-se que a porcentagem de pessoas que estejam dentro das margens mais amplas da identidade transgênera seja muito maior.

10. Proteções relacionadas à luta contra a discriminação de pessoas transgêneras estão sendo ampliadas em faculdades e universidades, com crescente foco na universalização destas proteções para todas as instituições de ensino superior e para estudantes, corpo docente e trabalhadorxs. Isso inclui todas as instituições da Ivy League. Diversas faculdades e universidades já oferecem opções de moradia gênero-neutras para estudantes vivendo no campus.

Notas

[1]- esta série é baseada no guia da Human Rights Campaign Foundation chamado ‘Transgender Visibility – A guide to being you’ (‘Visibilidade Transgênera – Um guia para você ser você mesmx’, numa tradução livre do inglês), que é voltado principalmente à população transgênera dos Estados Unidos da América do Norte. Pretendo buscar alguns dados sobre a realidade brasileira para adicionar à série.

[2]- inserida no texto.

[3]- utilizei-me do mesmo princípio do artigo número 06 da série, considerando que a mudança em nomenclatura — do original LGBT para LGBTIAQ-queer — não interfere no conteúdo da sentença — o que poderia ser o caso, se houvesse questões metodológicas incluídas.

[4]- inserida no texto.

[5]- inserida no texto.

O caminho transgênero (09) – A evolução dos caminhos possíveis

Você está em uma jornada de auto-descoberta que é contínua. Ela se desenrola de acordo com seu fluxo particular e se torna exponencialmente mais tranquila com o tempo.

O mundo não é o mesmo para as pessoas transgêneras, hoje, em comparação com o que foi há 20, 10, ou até 5 anos.

Para aquelas pessoas que fizeram suas ‘transições’ há vários anos, poderia ser perigoso fazer qualquer coisa que não se mudar para outro lugar e começar novas vidas, ocultando o passado [1]. A pressão para se manter no ‘armário’ sobre um processo de transição de gênero era tão intensa como as pressões que existiam para esconder sua verdadeira identidade de gênero. Porém, com um senso crescente de comunidade, mais e mais pessoas transgêneras estão decidindo viver abertamente e contar a outras pessoas suas histórias tão singulares e especiais.

No passado, havia menos opções seguras para pessoas que se sentissem confinadas, restringidas por conceitos antiquados de gênero, estes necessariamente cisgêneros e binários. Hoje, há um número crescente de pessoas que não se identificam nem como homens ou mulheres, ou que o fazem de maneiras ininteligíveis para visões antiquadas [2- como pessoas que nascem com genitália antiquadamente considerada de ‘homem’, e se identificam como mulheres, e vice-versa].

Não importando onde você se encontre no espectro de identidades de gênero — mesmo que esteja indefinidx em relação a isso –, você está trilhando um caminho que é unicamente seu e que está fluindo. É um processo que se desenrola de acordo com seu ritmo e que vai se tornando mais fácil com o tempo.

Viver de maneira aberta e autêntica não significa que o único, ou mesmo o principal, aspecto de sua identidade seja sua identidade ou expressão de gênero. Somente significa que esta parte de sua vida é tão natural, aceitável e legítima quanto a cor de seus olhos, sua altura ou sua personalidade.

Entretanto, não se trata somente de você. Viver abertamente também ensina a outras pessoas que há mais complexidade nos gêneros que elas poderiam imaginar, e facilita os caminhos para gerações futuras de pessoas transgêneras viverem vidas melhores. E, ademais, mostra a algumas pessoas, em especial as que têm suas distorções ideológico-filosóficas ou se sentem no privilégio de emitir julgamentos, que suas atitudes e pensamentos deploráveis são restritas a elas.

Quase todos os dias, você enfrentará decisões sobre onde, quando e como se apresentar como pessoa transgênera — ou onde, quando e como não fazê-lo. Sempre se lembre de que essa é a sua jornada. Você decide como seguir por ela.

 —

Notas

[1]- esta realidade segue, ainda, para muitas pessoas transgêneras.

[2]- inserida no texto.

O caminho transgênero (08) – Para a família e amigxs

Se umx amigx ou parente lhe contou ser uma pessoa transgênera, você pode estar pensando em como reagir. Todas as pessoas o fazem à sua maneira, de acordo com seus conhecimentos e experiências. Muitas ficam confusas e têm questões, outras se sentem aliviadas por saber o que se passava pela cabeça de alguém queridx, e algumas se magoam por não terem sabido disso antes. É possível que você sinta uma mescla de todas essas emoções, ou outras mais. Ou, ainda, você pode sequer compreender exatamente o que está sentindo.

Independentemente de como você esteja se sentindo, é importante, caso possível, assegurar à pessoa que lhe contou algo tão íntimo que seus sentimentos por ela não desapareceram repentinamente. Deixe claro que você tentará seu melhor para apoiá-la durante o processo adiante. Não há problemas, tampouco, em dizer que levará um certo tempo para se ajustar. Seja honestx com ela se tiver questões que gostaria de lhe perguntar, sabendo que ela também teve suas dúvidas internas a esclarecer durante o processo de descoberta.

Caso você se sinta constrangidx em fazer certas perguntas, poderá encontrar recursos e informações em outros lugares. Grupos de apoio — online ou em várias cidades pelo país — podem lhe ajudar a encontrar as respostas. Há, também, diversos livros e sites com informações variadas, e ao final desta série alguns recursos e respostas a perguntas frequentes são apresentadas.

Em última instância, saber que você se importa é uma das coisas mais valiosas para a pessoa que decide lhe contar algo tão íntimo e invisibilizado pela sociedade.

Uma nota para pais de crianças transgêneras ou em processo de questionamento de gênero [1]

Se por um lado várias pessoas transgêneras só compreendem sua identidade de gênero quando adultas, há muitas que lidam com esta questão desde a infância. Se você está lendo esta série, significa que já está a caminho de criar um ambiente positivo e de apoio à seua filhx.

É importante permitir às crianças que explorem seus gêneros sem tentativas de mudar ou influenciar suas expressões de gênero em determinada direção. Pode haver circunstâncias em que isso será uma tarefa difícil — se, por exemplo, seua filhx se recusa a vestir o uniforme escolar designado ao seu sexo socialmente percebido-inferido.

Mesmo que você não tenha condições de realizar o desejo de seua filhx em todos os momentos, é possível ir além de negações simplistas: converse com a criança para avaliar o quanto estas questões lhe são importantes. Pode ser interessante conversar com a diretoria escolar para encontrar soluções.

Muitos pais também buscam acompanhamento psicológico com suas crianças. Porém, é fundamental dizer a elas que não há nada de errado com elas, caso se decida que o acompanhamento é necessário. Procurar por umx terapeuta com experiência em questões de gênero na infância também é recomendável.

Acima de tudo, reitere a seua filhx que as diferenças devem ser celebradas e que x ama independentemente de qualquer coisa. A aceitação da diversidade é um valor importante para todas as crianças — e para pessoas adultas também.

Há, também, recursos específicos e grupos de apoio para pais de pessoas transgêneras à disposição [2]. Um grupo que pode servir de apoio, embora direcionado principalmente às questões das sexualidades, é o Grupo de Pais de Homossexuais (dica do simpaticíssimo Tatá).

Notas

[1]- não seríamos todxs, cis e transgênerxs, sujeitxs ao processo de questionar-constituir gênero? Ou seriam as pessoas cisgêneras ligadas a seus carrinhos e bonecas e bolas de gude e casinhas a partir do nascimento, e de maneira 100% cis-adequada? E quando mudam as expectativas sociais de gênero, mudam estas ligações ‘naturais’?

[2]- desconheço tais recursos ou grupos de apoio específico a pessoas transgêneras no Brasil, ou em português. Caso saibam de algum, avisem que adiciono. (vou pesquisar também)

O caminho transgênero (07) – Tendo ‘a’ conversa

É comum desejar e esperar que as pessoas reajam de maneira positiva à ‘novidade’ de que você não se identifica com um gênero cis e normativo [1- você espera isso porque, afinal, não há nada de mais ou de mal nisso], mas é possível que esta reação não aconteça imediatamente [2- se acontecer]. Busque se colocar na situação da pessoa que recebe a informação para tentar compreender suas reações, questões que possam surgir e os próximos passos a seguir, para cenários positivos e negativos.

A pessoa a quem você conte ser transgênerx pode se sentir:

  • Surpresa
  • Honrada
  • Desconfortável
  • Temerosa
  • Insegura sobre como reagir
  • Desconfiada
  • Empática
  • Cética
  • Aliviada
  • Curiosa
  • Confusa
  • Nervosa

Você pode tentar dizer para a pessoa que essas são reações naturais, e que ela pode fazer questões se tiver dúvidas. Em geral, as pessoas buscarão sinais em você que lhes indiquem como lidar com o tema; sendo assim, caso você seja honestx e abertx, as probabilidades de receber honestidade e abertura são maiores.

O humor, se utilizado de maneira adequada e gentil, também pode ajudar todas pessoas envolvidas, reduzindo a ansiedade da conversa. Sempre se lembre de lhes dar tempo para absorver as informações, pensando em quanto tempo você mesmx levou para chegar ao ponto em que está. Elxs também podem precisar de certo tempo para lhe alcançar nos conhecimentos sobre gêneros.

A decisão de quando e onde ‘sair do armário’ é sua e somente sua. Esta ‘saída do armário’ é somente um passo no caminho em direção a uma vida livre.

Contando aos pais

Independentemente de sua idade, você pode temer que seus pais x rejeitarão caso você lhes diga que é uma pessoa transgênera. A boa notícia é que a maioria dos pais é capaz de chegar a um ponto de entendimento que seja razoável. É possível que alguns realmente não entendam muito sobre o tema, mas outros podem surpreender e até se tornarem ativistas. Entretanto, se você tem menos de 18 anos ou é financeiramente dependente de seus pais, considere a decisão de lhes contar sobre sua transgeneridade com bastante cuidado.

Algumas reações para as quais é bom estar preparadx:

  • Pais podem reagir de maneiras que machucam bastante. Eles podem chorar, se irritar ou se sentirem envergonhados.
  • Alguns pais precisarão se desapegar dos sonhos que tinham para você antes de conhecerem esta individualidade nova e mais genuína que você está construindo.
  • Alguns pais podem dizer coisas como, ‘Bem, você será sempre uma filha para mim — nunca um filho’. Ou eles poderão ser resistentes às maneiras que você expressa seu gênero. Pode levar tempo até que eles se acostumem a lhe ver como você sabe que realmente é.
  • Alguns pais podem se perguntar sobre ‘o que houve de errado’ ou sobre ‘o que causou isso’. Assegure a eles que eles não fizeram nada de errado, e que não ‘causaram’ a sua transgeneridade.
  • Algumas pessoas podem considerar a individualidade transgênera como pecado ou tentar lhe enviar a umx terapeuta ou ‘profissional’ com a expectativa de lhe mudar [3].
  • Alguns pais ou parentes podem já ter desconfiado de que você seja uma pessoa transgênera. Para algumas dessas pessoas, ouvir você dizê-lo pode até trazer uma sensação de alívio.
  • Positivas ou não, as reações iniciais de seus pais podem não refletir os sentimentos deles no longo prazo. Tenha em mente que estas são informações importantes e profundas e não há uma temporalidade definida para o ajuste em que seus pais podem precisar trabalhar.

Contando axs companheirxs

Um dos maiores motivos que levam pessoas transgêneras a não ‘saírem do armário’ é o medo da reação de umx companheirx. Elas se perguntam se seua companheirx pediria o divórcio ou, de repente, as deixariam de amar.

A boa notícia é que o amor dificilmente cessa de maneira abrupta. Entretanto, mesmo um relacionamento construído com um amor bastante forte pode ser desafiado e desestabilizado quando uma das pessoas se apresenta como transgênera. Em vários casos, a separação pode ser inevitável: x companheirx pode ter dificuldades em confiar nx outrx que manteve parte importante de sua individualidade em segredo, ou não serem mais capazes de manter um relacionamento romântico com uma pessoa em transição [4]. No entanto, há muitas outras pessoas que se decidem por manter seus relacionamentos: cada vez mais casais e famílias seguem juntas durante a ‘transição’, e dizer-se transgênerx àquelxs que mais lhe importam não necessariamente significará separação.

Antes de contar a umx companheirx, é importante ter em mente que elx precisará de tempo e paciência — da mesma forma que você precisaria de tempo e paciência para compreender seus próprios sentimentos. Aconselhamento pode ser algo útil para muitos casais, bem como conversas com outros casais que passaram por situações similares.

Contando a crianças

Não há uma maneira correta ou incorreta de se ter essa conversa. ‘Sair do armário’ com crianças pode ser uma tarefa apavorante. Dependendo de sua(s) idade(s), você pode estar preocupadx com uma possível rejeição por parte delas ou com sua segurança caso elas contem a amigxs.

Se você tiver umx companheirx ou ex que está envolvidx na vida de sua(s) criança(s), pode ser interessante ter uma conversa junto a elx, se possível. Ou talvez seja uma boa ideia envolver um avô ou avó na conversa. A(s) criança(s) podem ter questões que ela(s) somente se sinta(m) bem em fazer a terceirxs, por medo de machucá-lx. Crianças mais velhas, especialmente, podem precisar de mais tempo para digerir as novas informações antes que consigam conversar a respeito.

Também pode ser positivo procurar uma terapia familiar para trabalhar os sentimentos dxs envolvidxs. Dar a oportunidade a suas crianças de conversar com filhxs de outras pessoas transgêneras pode ajudá-las enormemente.

Notas

[1 e 2]- inseridas no texto.

[3]- uma das lutas importantes a serem travadas pelas pessoas transgêneras (e, de diferentes maneiras, por outros grupos marginalizados) é contra estes conceitos religiosos equivocados e intelectualmente pobres, bem como contra supostos ‘profissionais’ de premissas falaciosas e simplistas, com receitas de conserto do que não se conserta, mas se celebra: as múltiplas possibilidades de existências individuais.

[4]- no entanto, considero importante ressaltar que você, como pessoa que se abre como transgênera, deve pensar criticamente sobre este ‘segredo’ que fora guardado dx companheirx: é comum atribuir-se uma culpa e uma traição a esse segredo que, em minha opinião, precisa levar em conta outros elementos, como a abertura apresentada pelx companheirx a realidades de gênero inconformes (porque tantas vezes é notória a opressão cisgênera em relacionamentos), bem como o peso que é socialmente colocado sobre nossas individualidades de gênero. A partir daí, pode-se tomar o compartilhar desse segredo de maneira mais complexa e empática, percebendo como, em geral, há fortes mecanismos sociais levando ao segredo como alternativa.

Por outro lado, em relação a relacionamentos amorosos durante a ‘transição’, acredito que estar neste processo não deve significar estar em reparo, como numa oficina mecânica, indesejável, abjetx. É legítimo pensar que algumas pessoas não irão querer se relacionar com alguém em ‘transição’, ou com alguém trans, bem como é legítimo pensar que outras pessoas vão, sim, querer se relacionar com essa pessoa.

O processo de transição pode também ser visto como um período de grande elevação espiritual e de crescimento pessoal. Mesmo as marginalizações sociais — que vão se tornando mais frequentes conforme se esteja mais ‘out’ — podem servir ao esclarecimento da realidade do mundo, suja e indignamente cruel. A partir dessa nova perspectiva, há o potencial de geração de uma consciência crítica, e uma atuação mais iluminada no mundo (se se permite o uso mais coloquial da ‘iluminação’). E passar por este processo, creio, nos torna pessoas muito mais atraentes, em todos seus sentidos — desde que, no olhar dx outrx, haja uma compreensão e uma superação dos estereótipos e pré-conceitos em relação às pessoas trans.

O caminho transgênero (06) – Planejando as ‘saídas do armário’

Quando você estiver prontx para contar sobre sua identidade de gênero para a primeira pessoa – ou para as primeiras pessoas –, tome tempo para se preparar. Pense nas opções disponíveis e estabeleça um plano que defina com quem compartilhar essa parte de sua vida, e o tempo e maneira mais adequados para fazê-lo [1]. Considere as seguintes questões:

01. Eu sei o que quero contar?

Especialmente no começo do processo de ‘saída do armário’, muitas pessoas ainda estão trabalhando questões internas muito complexas e não se sentem prontas para se identificar como transgêneras. Ou se percebem como transgêneras sem saber exatamente o que isso signifique para si ou outras pessoas [2].

Tudo bem, não há problemas. Talvez você somente queira contar a alguém que você está começando a se colocar estas questões. Mesmo que não disponha de todas as respostas, seus sentimentos e sua segurança são o mais importante [- e essa ‘perda de peso’ faz um bem danado]. Para explorar aquilo que você deseja comunicar a outras pessoas, pode ser interessante escrever no papel para organizar os pensamentos. [3]

02. A quem eu devo contar primeiro?

Essa pode ser uma decisão bastante crítica. Você pode tentar selecionar pessoas que acredite que serão mais compreensivas e aliadas, para que estas lhe tragam mais força para compartilhar com outras. Caso seja uma ‘saída’ no trabalho, quem pode ser um ‘porto seguro’, uma pessoa de confiança? Alguém de Recursos Humanos? Umx supervisorx ou colega? Alguém em outra organização LGBT, trans, ou de outro movimento social?

Desenhe uma estratégia antes de decidir. Ademais, tenha em mente que este tipo de ‘notícia’ pode correr rápido. Caso prefira que as pessoas com quem você compartilhe sua identidade de gênero mantenham esta informação confidencial, assegure-se de solicitar isso a elas, e esteja preparadx para a eventualidade de ter esta solicitação desrespeitada. Não se surpreenda se alguém, de maneira intencional ou não, compartilhe algo sobre você antes de que você tenha a oportunidade de fazê-lo pessoalmente.

03. Que tipo de sinais posso obter?

Algumas vezes é possível ter uma ideia da aceitação potencial de outras pessoas a partir do que elas dizem. Um filme de temática trans ou programas de tv que tenham umx personagem transgênerx, por exemplo, podem iniciar discussões e comentários que lhe permitam fazer essa análise [4]. Ou é possível que alguma pessoa próxima a você tenha se associado a uma organização de defesa dos direitos LGBTIAQ-queer [5]. No entanto, tenha sempre cuidado ao tirar conclusões a partir destes sinais: é possível que a pessoa aparentemente mais receptiva a questões LGBTIAQ-queer reaja negativamente ao saber de sua individualidade, e que a pessoa que em dado momento fez comentários ofensivos sobre pessoas transgêneras se torne seua mais forte aliadx.

04. Estou bem informadx e abertx para responder perguntas?

As reações das pessoas à ‘novidade’ de que você é transgênerx dependem bastante de quanto e como elas estão informadas sobre transgeneridades [e suas lutas políticas] e também do nível de conforto delas para fazer perguntas a respeito do tema. Ainda que a familiaridade com aspectos relacionados a sexualidades não-dominantes (lésbicas, gays e bissexuais) seja crescente, questões relativas às identidades e expressões de gênero ainda não têm a mesma visibilidade [6]. Se você estiver bem informadx e se sentir confortável em responder perguntas, pode ser de grande ajuda na disseminação de informações sobre realidades de gênero mais amplas que as cisgêneras e binárias. Adiante nesta série, alguns fatos e questões frequentes serão apresentadas. O site www.hrc.org e outras referências podem lhe servir de apoio também.

05. É o momento certo?

Esta é uma questão fundamental, e somente você pode ser capaz de tomar a melhor decisão quanto a isso. E, como em toda decisão, obter e analisar mais e melhores informações permite melhores análises e, potencialmente, resultados mais positivos (ou menos negativos). Esteja alerta para perceber humores, prioridades, problemas, limitações e vulnerabilidades daquelas pessoas para quem você pensa em contar sobre sua identidade de gênero. Caso alguém esteja lidando com acontecimentos importantes na vida, pode ter problemas em reagir a uma conversa aberta sobre sua identidade de gênero de maneira construtiva [7].

06. Posso ser paciente?

Da mesma forma que você levou um certo tempo para compreender sua transgeneridade, algumas pessoas precisarão de tempo para absorver as informações sobre sua individualidade de gênero depois que você converse com elxs sobre isso. A razão pela qual você decidiu se abrir com essas pessoas provavelmente passa pela sua consideração afetiva por elas, ou pela necessidade de ser abertx com elas. Caso elas reajam de maneira enérgica, provavelmente é porque elas se importam com você também. Esteja preparadx para dar-lhes tempo e espaço para ajustar-se, e ao invés de esperar compreensão imediata, faça um esforço para estabelecer um diálogo constante e respeitoso [8].

07. É seguro sair do armário?

Caso você tenha qualquer dúvida sobre sua segurança, tenha cuidado ao analisar seus riscos e opções. Pessoas transgêneras enfrentam a ameaça real de abusos e violência, e algumas delas decidem contar sobre sua identidade de gênero em um espaço seguro, com amigxs ao redor, para evitar problemas.

Além disso, ainda que mais e mais localidades estejam aprovando e implementando leis que condenam a discriminação contra pessoas transgêneras [9], grande parte das pessoas transgêneras nos Estados Unidos não estão legalmente protegidas de discriminação no ambiente de trabalho [10]. Como consequência, falar sobre sua identidade de gênero com alguém no trabalho pode lhe custar o emprego e, potencialmente, a estabilidade financeira. Visite o site www.hrc.org/workplace/transgender para informações sobre como lutar pela sua identidade transgênera no ambiente profissional.

Notas:

[1]- embora o estabelecimento de um plano para ‘sair do armário’ possa aumentar a probabilidade de uma ‘saída’ mais segura e confortável, não há por que se sentir culpadx por uma saída impensada ou por ter sido descobertx. Lembre-se de que a razão do ‘segredo’ está nas normas cisgêneras que regem grande parte das sociedades contemporâneas, e nas pessoas que perpetuam as opressões que violentam existências de gênero inconformes, de maneira mais ou menos consciente. E isso pode incluir pessoas muito próximas a nós, como pais, parentes e amigxs.

Sendo assim, não há culpa numa saída impensada do armário, mas é preciso ter cuidados e estratégias para evitar repercussões negativas e-ou violentas contra nós.

[2]- ou qualquer outra identidade igualmente válida, como queergênerx, travesti, transexual, etc. O guia trabalha principalmente com a identidade transgênera, porém não acredito que seja no sentido de torná-la uma identidade ideal, ou aquela que todas pessoas gênero-inconformes têm para si. Faço esta nota para enfatizar este meu entendimento.

[3]- meu caso pessoal talvez sirva para ilustrar um pouco. Embora tenha usado o telefone para contar à primeira pessoa, usualmente preferi escrever para falar de minha identidade de gênero. E, ainda que considere a escrita minha melhor forma de expressão, é preciso ter cautela com a aparente facilidade que e-mails e mensagens trazem: pode-se rapidamente enviar algo a pessoas que não serão aliadas, ou a pessoas que não estejam tão próximas de você, e tampouco é possível receber uma resposta instantânea, como numa situação ‘ao vivo’.

[4]- é preciso ter em mente que as representações feitas na mídia sobre gêneros e sexualidades inconformes (como a transgeneridade e a bissexualidade) é, no geral, problemática em diferentes graus, especialmente em veículos mais comerciais e dominantes, como grandes emissoras de tv e filmes comerciais. Nesse sentido, as discussões inspiradas por estas representações de mídia podem partir de um ponto que sequer permita uma conversa construtiva, potencialmente desgastando-x. Minha sugestão pessoal é de utilizar estas oportunidades com cautela e de maneira estratégica, evitando conflitos infrutíferos.

[5]- procuro utilizar a sigla LGBTIAQ-queer ao invés da sigla LGBT no original para evidenciar pessoas intersexo, assexuais e em questionamento sobre seu gênero e-ou sexualidade (I, A e Q, respectivamente, este do inglês questioning), bem como individualidades que não se identificam com nenhum dos termos LGBTIAQ, porém estão expostas a discriminações de gênero e sexualidade devido a suas preferências pessoais. Para estas individualidades, utilizo a nomenclatura queer, em uma referência à Teoria Queer, que tem como um de seus focos a análise crítica de normatividades de gênero e sexualidade que restringem e monitoram todas as pessoas, punindo em diversos graus desvios delas, independentemente de suas identidades e preferências pessoais.

[6]- é inegável que a visibilidade de identidades de gênero não-dominantes (transgeneridades, pessoas intersexo, ou outras inconformidades de gênero) tem aumentado, em especial ligadas à ascensão de pessoas públicas como Laerte, Claudia Wonder, João Nery, Lea T, entre tantxs outrxs. Entretanto, a dimensão política específica das identidades de gênero marginalizadas ainda é pouco destacada na sociedade dominante em comparação às demandas políticas de, por exemplo, gays e lésbicas: ainda que haja claros benefícios diretos e indiretos advindos destas lutas e conquistas ligadas às sexualidades, há uma dificuldade em se conseguir uma visibilidade semelhante às demandas específicas de pessoas cujos gêneros resistam a conceitos de gênero binários e cisgênero-dominantes (como, por exemplo, em relação ao acesso a tratamentos de ‘transição’).

[7]- entretanto, problemas pessoais ou outras dificuldades não seriam justificativas suficientes, em minha opinião, para uma reação negativa ou mesmo violenta à sua iniciativa de lhes contar sobre sua individualidade de gênero. Creio que estes fatores podem explicar certas reações, e me parece importante compreendê-los para elaborar estratégias pessoais, mas não para perdoar ou minimizar desrespeitos. Devemos sempre ter em mente que nossa identidade de gênero é algo indissociável de nossos direitos humanos, e daí a certeza de que não estamos cometendo nenhum erro ao compartilhar estas identidades com outras pessoas; as angústias, aflições, decepções, raivas ou outros sentimentos possíveis em decorrência de havermos contado sobre nós devem ser associadas aos conceitos limitados de gênero que dominam a maioria de nossas sociedades humanas contemporâneas.

[8]- em minha opinião, ainda que possa ser necessária bastante compreensão ao lidar com as reações das pessoas, também é fundamental colocar limites a partir dos quais não se possa aceitar desrespeitos e violências. O fato de que as pessoas não entendam as realidades de gênero de pessoas transgêneras é fruto de uma sociedade que traz conceitos restritos sobre o assunto; sendo assim, aceitemos certas ignorâncias com compaixão, mas sem perder a dignidade.

[9]- no contexto brasileiro, a PEC 122 ainda está para ser aprovada, e esta inclui discriminações relacionadas às identidades de gênero. Por outro lado, há ocorrências de acesso a leis gênero-específicas (como a Lei Maria da Penha) por parte de pessoas transgêneras em seus gêneros verdadeiros.

[10]- não tenho informações específicas ao Brasil, mas até onde sei as proteções legais a pessoas trans não são presentes de maneira explícita (i.e., estariam atreladas a prerrogativas universalizantes, ‘toda pessoa tem o direito de ir e vir’, etc). O que apresenta uma inequidade grave, tomando-se em conta as tantas violências, muitas fatais, sofridas por pessoas trans, especialmente as que sejam marginalizadas noutros aspectos também (penso em classe social, raça, educação, etc).

O caminho transgênero (05) – Mudanças corporais e sociais (ou: transição)

É importante sempre ter em mente que o termo ‘transgênerx’ é amplo e utilizado para descrever e aglutinar politicamente pessoas que expressam seus gêneros de maneiras diversas, cada uma tão autêntica quanto as demais.

Para muitas pessoas transgêneras ou gênero-inconformes, o processo de mudanças sociais e corporais, frequentemente denominado transição, traz uma forte sensação de exposição pessoal, e a decisão de se abrir com outras pessoas se torna especialmente crítica em nossas vidas.

Este processo de mudanças não necessariamente envolve tratamentos médicos. Através do uso de vestuário e acessórios preferidos (e socialmente associados a gêneros cujas possibilidades estão restritas a todas as pessoas, cis ou trans), de exercícios físicos, de performances de gênero desejadas, ou de negociações com amigxs e familiares para um tratamento respeituoso de autonomias individuais, pessoas transgêneras se utilizam de saídas independentes do poder institucional da medicina, psicologia ou justiça para viver suas identidades e expressões de gênero [1].

Há muitas pessoas transgêneras que recorrem a tratamentos para tornar sua estética corporal mais próxima do que consideram ser seu gênero. Estes tratamentos podem incluir terapias hormonais e cirurgias [2].

Em diversos lugares no mundo, as diretrizes clínicas aceitas para pessoas transgêneras que desejam realizar a ‘transição’ são conhecidas como ‘Padrões de Cuidados’ (Standards of Care), desenvolvidos pela Associação Mundial Profissional para a Saúde Transgênera (no inglês, WPATH, previamente conhecida como Associação Internacional de Disforia de Gênero Harry Benjamin), uma organização profissional amplamente reconhecida dedicada ao entendimento e tratamento de ‘desordens de identidade do gênero’ [3]. Mais informações sobre os ‘Padrões de Cuidados’ da WPATH podem ser encontrados online no site www.wpath.org .

Uma outro protocolo utilizado para tratamento que tem se tornado crescentemente comum é o ‘Consentimento Informado’ (Informed Consent, fiz uma tradução livre que não sei se correta). Através deste protocolo, pessoas transgêneras são informadas dos efeitos e riscos relacionados ao(s) tratamento(s) médico(s) e então afirmam formalmente seu consentimento, em um processo similar ao de outros procedimentos médicos. Outrxs médicxs supervisam ‘transições’ através de uma combinação de ambos protocolos.

[alguém saberia dizer da situação no Brasil?]

Independentemente de como uma pessoa vive sua identidade de gênero, o processo de ‘transição’ pode significar uma exposição bastante pública, envolvendo o contar para família, amigxs, empregadorxs e profissionais da área médica. Para a maioria das pessoas transgêneras, a ‘transição’ não é algo que se possa ocultar de todas as pessoas devido à própria natureza do processo.

Processo que pode envolver a consulta a uma diversidade grande de pessoas da área psicológico-médica — de psicólogxs a psiquiatras, cirurgiãxs, endocrinologistas e fonoaudiólogxs [4]. Se possível, é essencial encontrar profissionais próximos ao lugar onde se vive que tenham experiência na orientação a pessoas transgêneras. Caso não haja ninguém próximo — o que é provável, dada a escassez destes profissionais no Brasil –, é possível, ainda que arriscado, tentar encontrar umx profissional que esteja disposto a aprender e estudar sobre as necessidades das pessoas transgêneras [5].

Algumas questões possíveis para serem feitas a umx profissional da saúde:

– Você já orientou pessoas transgêneras antes?

– Você tem experiência e conhecimento em tratamentos hormonais apropriados para pessoas transgêneras?

– Qual protocolo de tratamento você utiliza na orientação a pessoas transgêneras?

Lembre-se de fazer uma pesquisa antes de confiar em umx profissional. Mesmo médicxs que assessoraram pessoas transgêneras no passado podem não ser versadas no processo de ‘transição’ — ou nem mesmo terem visões adequadas sobre gênero e sexualidade. Há diversos grupos e organizações que podem oferecer ajuda nesta pesquisa. É fundamental atuar como sua-seu próprix advogadx no que se refere à sua saúde.

Ainda que este guia seja destinado primariamente para pessoas transgêneras que estejam nas fases iniciais do contar e compartilhar sobre sua identidade de gênero, algumas delas podem enfrentar este processo outra vez após a ‘transição’, diante de novxs amigxs, família e colegas de trabalho.

Algumas pessoas transgêneras optam por viverem sem compartilhar, ou compartilhando de maneira bastante restrita, sua identidade de gênero.  Outras pessoas transgêneras acreditam que serem abertas sobre suas vidas e estórias pode lhes trazer segurança e auto-afirmação, similarmente ao que fazem diversas pessoas lésbicas, gays e bissexuais. Algumas até decidem se tornar ativistas pelas transgeneridades, compartilhando suas vidas e experiências em entrevistas, escolas e grupos.

Os próximos posts pretendem ajudá-lx a decidir quais são caminhos desejáveis ou possíveis para você, não importando em que ponto de sua jornada você está.

“Você tem o direito e a responsabilidade de decidir como, onde, quando e mesmo se você vai compartilhar sua identidade de gênero com outras pessoas, fundamentadx naquilo que é correto para você.”

.

Notas.

[1]- a proposição de que é possível viver o próprio gênero independentemente das instituições citadas não é incompatível com o importante papel que estas possam cumprir: caso não busquem impor esquemas cisgênero-binários e-ou patologizantes a pessoas cujo gênero lhes seja inconforme, tais instituições podem cumprir um fundamental papel de defesa de direitos e assessoria a essas pessoas. As condições atuais, entretanto, seguem eivadas de pressupostos cisgênero-supremacistas, ainda que haja lutas importantes de gentes dentro e fora dessas instituições.

[2]- faz-se necessário enfatizar, no entanto, que muitas pessoas cisgêneras também recorrem a tratamentos que alterem sua estética corporal, notando ainda as diferenças existentes na consideração social destes tratamentos para pessoas transgêneras e cisgêneras: para aquelas, impõe-se a necessidade de laudos e autorizações, enquanto para estas o acesso a tratamentos se dá com assessoria de profissionais médicos, mantendo-se sua autonomia na decisão por realizá-los ou não.

[3]- o uso do termo desordem implica uma ordem, uma ordem que em minha opinião somente pode ser a cisgênera. Como a percepção de senso comum é de que a ordem é preferível-desejável em relação à desordem, decorre daí uma lógica cisgênero-supremacista que inferioriza aquelas pessoas que, de acordo com preceitos médicos, são consideradas ‘desordenadas’, ‘transtornadas’. Por isso evito ou ao menos matizo criticamente o uso do termo desordem, embora o manual da HRC em que a série se baseia o utilize. Para mais informações sobre os usos que faço do manual, favor ler o início da série.

[4]- consultas que não vejo necessariamente como problemáticas. A crítica fundamental que tenho, no entanto, é em relação à dominação, ao controle detido por um dos lados na determinação-autorização do desejo individual, algo que ainda persiste de maneira mais, ou menos, velada.

[5]- espero que você sempre tenha em mente que a sua existência é de uma dignidade inviolável, e que é consagrada pelos Direitos Humanos, mesmo que tantas pessoas se sintam com o poder e o direito de pisotear estes Direitos conforme suas percepções religiosas, médicas, ideológicas. A luta segue.

O caminho transgênero (04) – A decisão de contar para outras pessoas

Algumas pessoas transgêneras que decidem compartilhar suas percepções de gênero com outrxs chegaram a um ponto crítico em suas vidas em que é muito difícil, provavelmente doloroso, seguir escondendo (mesmo que estrategicamente) quem elas são.

Seja para uma crossdresser que se sinta carregando um imenso fardo ao esconder este aspecto individual dx companheirx ou filhx, seja para uma jovem lésbica que não se veja contemplada em nenhuma identidade de gênero, frequentemente pessoas cujos gêneros são inconformes-discordantes sentem a necessidade de compartilhar esse aspecto de suas vidas, de maneira a construir relações mais fortes e autênticas com aquelxs mais próximxs.

Há uma série de sentimentos envolvidos nesse compartilhar, e eles oscilam entre o medo, insegurança, culpa, vergonha, e o orgulho, alívio, coragem. É preciso muita serenidade para lidar com a intensidade e a potencial simultaneidade destas sensações, e esta tomada de consciência crítica pode levar tempo.

Depois deste processo, é comum haver um sentimento de grande alívio, pela quebra da necessidade de ocultação de individualidades e de outras barreiras a uma vida mais aberta e sincera. Entretanto, ainda que existam vários benefícios potenciais no contar, há também sérios riscos e consequências, resultado das opressões executadas pela sociedade dominante (diretamente associadas ou articuladas com gêneros: transfobia, sexismo, classismo, racismo).

Portanto, a decisão de contar para outras pessoas é sua, e somente sua. Lembre-se que não há uma maneira certa ou errada de compartilhar essa parte tão importante de você, ou de viver abertamente (por serem coisas tão controladas e restringidas pela sociedade dominante). Você tem o direito e a responsabilidade de decidir como, onde, quando e mesmo se você vai falar de suas identidades com outras pessoas, e para isto é fundamental ter conhecimento dos riscos e benefícios associados a essas decisões. Alguns deles são listados abaixo para referência:

. possíveis benefícios ao ‘sair do armário’:

  • uma vida mais autêntica e completa
  • relacionamentos mais próximos e genuínos
  • auto-estima elevada ao sermos reconhecidxs e amadxs pelo que somos
  • redução no estresse ligado ao esconder de individualidades
  • desenvolvimento de relações com pessoas de vivências similares às nossas
  • possibilidade de se tornar um exemplo para outras pessoas
  • construção de uma sociedade menos opressora para as próximas gerações

. possíveis riscos ao ‘sair do armário’:

  • incompreensão por parte de alguxs, inclusive próximxs
  • reações de choque, confusão e hostilidade
  • mudanças permanentes em relacionamentos
  • potenciais abusos, discriminações e violência
  • expulsão de casa
  • perda de emprego e-ou ocupação
  • perda de suporte financeiro da família

Finalmente, um outro conhecimento fundamental é saber que a luta política pela dignidade e autonomia de gênero (que a luta trans traz consigo) está do seu lado, e que toda e qualquer percepção e desejo de gênero que você tenha são um aspecto fundamental de nossos direitos humanos. Não há nada de errado, patológico, ou imoral nisso — por mais que tentem nos convencer do contrário. E, se compreendemos este apoio, nossos direitos soberanos e nossa força política, já estaremos de mãos dadas em direção a uma sociedade mais justa, mesmo que as forças contrárias nos tentem afastar dela.