Breves notas sobre protagonismos trans: agradecimentos, reconhecimentos, solidariedades

OAB - ao fim da SemanaSou bem caótica e desorganizada… mas não queria ficar sem falar — e, quem sabe, incitar mais conversas — sobre alguns acontecimentos recentes em minha vivência. Faz-se necessário agradecer por cada bom afeto, por cada sorriso e abraço, por cada disposição à redefinição+descolonização das ideias que temos sobre gêneros e identidades de gênero e diversidades corporais. Agradecer, e reconhecer as muitas lutas de resistência trans que me apoiam, e com as quais espero contribuir com meu melhor possível:

– quero dizer, em primeiro lugar, da alegria que foi ter participado da I Semana da Visibilidade Trans de Aracaju, este evento (entre tantos outros eventos bacanas Brasil afora) tão importante, e que para mim sinaliza um aspecto importante das lutas pelas diversidades corporais e de identidades de gênero, das lutas trans: a importância dos protagonismos intersecionais, de haver uma diversidade de pessoas trans, por ex., pensando questões trans. E com o desafio contínuo de ampliar a participação de pessoas trans racializadas, pobres, trabalhadoras do sexo, precarizadas, etc. Temos desafios a vencer (como a falta de recursos), mas podemos pensar em maiores autonomias trans e mais intersecionalidades nos movimentos sociais.

Astra (dia de visibilidade)– quero mencionar, também, a felicidade de ter me encontrado com algumas das pessoas que compõem a Astra (Associação de Travestis e Transgêneros de Aracaju – Direitos Humanos e Cidadania), e várias pessoas trans — transexuais, travestis, .. — dando entrada para acessar direitos fundamentais, como o nome nos documentos oficiais. São iniciativas importantes, e é importante que sempre pensemos em estratégias e possibilidades de despatologizar e desnormatizar este processo o mais possível, garantindo crescentemente a autonomia das pessoas trans no autorreconhecimento de suas identidades de gênero (o link é para uma apresentação que fiz sobre o tema). Este horizonte seria o da aprovação da Lei de Identidade de Gênero brasileira, lei João Nery.

Unidas– Conheci, também, várias pessoas que compõem a Unidas (Associação de Travestis Unidas na Luta Pela Cidadania), no dia da visibilidade trans, onde se conversou sobre algumas das questões e demandas políticas trans+travesti, como alteração de nomes e assessoria jurídica diante de violências institucionais, como as polícias militarizadas e o cistema prisional.

Roda vivencias trans (Centro LGBT)– Já de volta a Salvador, participei de uma roda de conversa sobre vivências trans no Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT da Bahia, em que pudemos conversar sobre violências policiais contra pessoas trans, sobre exclusões cissexistas dos cotidianos, sobre experiências e estratégias para ter acesso ao cistema de saúde, ao nome oficial correto, etc.

– Como não se emocionar com o manifesto de Maria Clara, aprovada na UFPE? Como não escutar cada história de resistência travesti, cada alteração de nome, cada respeito a nomes sociais, cada transformação existencial, como possibilidades descoloniais? Estes fortalecimentos internos são muito importantes, e um desafio imenso para as identidades de gênero dissidentes e inconformes à cisnormatividade: precisamos de criatividades para promover tais fortalecimentos.

– Nem sempre vencemos, é verdade: entretanto, ao conhecermos nossas histórias e as violências cissexistas+transfóbicas que as atravessam intersecionalmente, também podemos ir construindo solidariedades críticas às normatividades do cistema. Quando nos reunimos, quando compartilhamos experiências, quando damos risadas das situações de que escapamos, estamos resistindo. Espero que possamos ser agentes por solidariedades intersecionais trans, reconhecendo nossas limitações e as diversidades de estratégias e demandas políticas, e fortalecendo outras lutas através de contribuições críticas e sensíveis.

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Sobre a denúncia de assédio/abuso contra Idelber Avelar

Pimenta com Limão

tá todo mundo meio assim com essa história... tá todo mundo meio assim com essa história…

Está bem difícil ficar nas redes sociais sem se envolver, ler ou pelo menos saber da super-ultra-power-mega-plus-treta que envolve Idelber Avelar e duas mulheres que o acusam de assédio. Sim, é muito ruim chamar uma denúncia séria de assédio de “treta”, porque não é e é preciso tratar com respeito a questão, mas tudo que nas redes sociais ou plataformas digitais (oi, Dri) envolve discussão entre duas ou mais pessoas é chamado de treta, e essa envolve muitas pessoas, em pelo menos três dessas plataformas (twitter, facebook e tumblr) e já chegou à blogosfera (não toooooda a blogosfera, mas uma parte considerável dela, pelo menos a que eu frequento).

Se tu não sabes/entende muito bem o que é assédio e como isso se dá na internet ou ainda como as mulheres se sentem a respeito, passem antes pelo excelente e esclarecedor texto…

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Heresias não-binárias

por mais e mais heresias não-binárias!

Interferência Transmutante

sapatrrrans 1

Poderíamos pensar nossas crenças como espécies de lentes, através das quais se filtra nossa relação com a realidade (com corpos, afetos, o que se move em geral).

Existem crenças-lentes que nos limitam. Que recortam nossa possibilidade de discernir as diferentes nuances do que nos rodeia. Nos fazem agrupar corpos e pessoas em grupos uniformes dentro dos quais, muitas vezes, estas não cabem.

A crença de que as pessoas se dividem “naturalmente” e “biologicamente” entre Homens ou Mulheres é uma dessas crenças-lentes que nos limitam.

Através dessa crença, os discursos da medicina, da biologia, da psicologia, antropologia, etc, contruíram um conjunto de narrativas, que oferece sentido aos corpos (nossos e alheios).
A partir dessas narrativas da nossa sociedade, as pessoas são pressionadas a construírem entendimentos sobre si próprias e sobre as outras, com base nessa divisão.

Nossa cultura pressiona que a gente se entenda enquanto “indivíduos” (entidades que não podem ser…

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Cornel West Arrested as Protests Continue in Ferguson

TIME

Author, activist and academic Cornel West was arrested Monday in Ferguson, Mo., amid continued demonstrations demanding justice for Mike Brown, the unarmed black teenager who was killed by a white police officer on Aug. 9.

Boston-based minister, activist and author the Rev. Osagyefo Sekou was also arrested, MSNBC reports. Earlier in the day, more than 1,000 protestors took part in a sit-in at the campus of St. Louis University.

The events occurred during a “weekend of resistance,” organized to protest “the epidemic of police violence facing Black and Brown communities.” Earlier this month, another black teenager in the St. Louis area named Vonderrit Myers, Jr. was killed by a white police officer.

Although there were more than a dozen arrests over the weekend, as well as accusations that police used excessive force, overall the protests were mostly peaceful compared to the ones that gained national attention in August, where tear…

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Epistemologias feministas e queer

O texto a seguir foi elaborado para orientar minha fala no I Congresso de Diversidade Sexual e de Gênero da UFMG, feita na manhã do dia 03 de setembro de 2014, junto com Tayane Lino e Jaqueline Gomes de Jesus. Uma mesa que, creio, trouxe vários pontos críticos sobre como se estabelecem cistemas de produção de conhecimentos, e perspectivas sobre as possibilidades de sua transformação crítica.

Estou muito feliz pelas conversas e afetos desta semana. Tem sido muito lindo — apesar das resistências que seguem sendo necessárias (e não há surpresa, nisto).

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Selfcare as Warfare

autocuidado como arma.

feministkilljoys

“Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and that is an act of political warfare.”

This is a revolutionary, extraordinary sentence. It is a much loved, much cited sentence. It is an arrow, which acquires its sharpness from its own direction. It is from the epilogue to Audre Lorde’s A Burst of Light, a piece of writing so profound, so moving, that it never fails to teach me, often by leaving me undone, beside myself. This writing is made up of fragments or notes put together as Audre Lorde learns that she had liver cancer, that her death could only be arrested; as she comes to feel that diagnosis in her bones. The expression “a burst of light” is used for when she came to feel the fragility of her body’s situation: “that inescapable knowledge, in the bone, of my own physical limitation.”

A Burst of Light

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First-ever survey of trans* and intersex advocacy organizations reveals glaring need for support, partners

sobre a falta de apoio às organizações trans* mundo afora.

GATE

FIRST-EVER SURVEY OF TRANSGENDER AND INTERSEX ADVOCACY ORGANIZATIONS REVEALS GLARING NEED FOR SUPPORT 

Survey conducted by Global Action for Trans* Equality and American Jewish World Service shows groups face significant lack of funding

 

NEW YORK, NY / BUENOS AIRES, Argentina –Global Action for Trans* Equality (GATE) and American Jewish World Service (AJWS) released today the results of the first-ever survey of transgender and intersex groups around the world in a new report, The State of Trans* and Intersex Organizing. The report is being presented on January 28 during the International Human Rights Funders Group’s 2014 San Francisco Conference.

The survey of 340 organizations documents the deep discrimination and multiple challenges facing trans* and intersex people and the organizing that they are leading worldwide to win their human rights. It also shows the significant funding shortfall facing trans* and intersex groups and the challenges and obstacles they face in…

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Tornar-se cisgênero

Texto fundamental para pensarmos a cisgeneridade.

Transfeminismo

No ritual de passagem adolescente, alterações corporais irrefreáveis ganham espaço nas vidas de várias pessoas, agregando-se às suas subjetividades. Tornar-se cisgênero acaba sendo, então, um evento inevitável, nem sempre desejável, um modus operandi hormonal inesperado.

A partir daí, nossos corpos são (mais) veementemente simbolizados, nossas sexualidades mais fortemente evidenciadas (e/ou hipersexualizadas), nossos atos cistematicamente indesculpáveis; Não podemos mais, na presumida inocência infantil, perguntar por que não podemos usar/se associar a essa ou aquela coisa, agir dessa ou daquela maneira. Não que a coerção (e a correção) não viesse, de outras formas, enquanto crianças, mas há algo de agenciador no ritual de passagem cisgênero, que marca a nossa (i)responsabilidade em não sermos outra coisa que não cisgêneros. Após o ritual deixamos de ser crianças, e socialmente devemos responder por nossos atos que podem ou não tencionar nossa cisgeneridade.

Nossa memória do futuro é cisgênera, ao passo que o ritual já está…

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Porque eu assinei a carta contra Alex Castro na Revista Fórum

“Não é de hoje que existem críticas à falta de mulheres (feministas) na blogosfera de esquerda. Quando falamos de machismo, racismo e cissexismo estamos falando de toda uma estrutura social que nos mantem à margem, através da prevenção ou dificuldade de acesso de espaços comumente ocupados por homens brancos e cisgêneros. Então, a carta de repúdio se resumiu a antagonizar a ocupação de um espaço de esquerda por um homem branco e cisgênero que iria falar por nós. Falar POR mim é diferente de falar DE mim. Essa diferença é essencial.”

Gênero à Deriva

Espero conseguir explicar nessa postagem o objetivo da carta de repúdio, resultado da união de vários coletivos no que concerne o escritor Alex Castro ocupando um espaço na Fórum. Mas primeiro, devo dizer que embora pareça que as críticas estão direcionadas a ele como pessoa, o que se fala é dele enquanto ativista, ou seja, o conjunto de escritos e posturas que nós vemos através da rede. Não sejamos ingênuas, contudo, de achar que se pode separar pessoal e político, de forma completamente cristalina. É óbvio que criamos uma antipatia pela pessoa dele, em decorrência do que temos de contato com ele – que é seu ativismo. Embora não se possa dizer que ele é “tudo isso” – obviamente que não afinal só temos um acesso limitado a sua pessoa – o que nos interessa aqui é Alex enquanto ativista, o que escreve e publica, e sua participação…

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