Resenhas (01): Beatriz Preciado – Testo Yonqui, cap. 06, ‘Tecnogénero’

Pretendo começar a postar, aqui, algumas das resenhas que tenho feito ultimamente… acredito que, a partir delas, possam surgir discussões e trocas de ideia interessantes, o que é bem melhor que deixá-las arquivadas por aí.

Em várias das resenhas, faço uma leitura específica de um capítulo, o que torna algumas eventuais críticas menos potentes e, talvez, irrelevantes. No entanto, acredito que algumas delas possam ser pertinentes, se não para a obra como um todo, ao menos como reflexão sobre algum aspecto mais específico ou pontual.

A primeira destas resenhas é do capítulo 6 do livro ‘Testo Yonqui’ de Beatriz Preciado, chamado ‘Tecnogénero’. Ele foi escrito para a disciplina ‘Cultura e Identidade’ do programa de mestrado Pós-Cultura da Ufba, ministrada pelos professores Leandro Colling e Djalma Thürler.

Resenha de artigo: PRECIADO, Beatriz. Testo Yonqui, cap 6: Tecnogénero.

24-abril-2012

O capítulo ‘Tecnogénero’ do ‘Testo Yonqui’ de Beatriz Preciado se inicia com a localização do conceito de gênero dentro de um regime ‘farmacopornográfico’, relacionado tanto à prevalência do poder médico na determinação das normalidades e ‘anormalidades’ de gênero (pensando-se aqui no exemplo das pessoas intersexo, presentes ao início do capítulo), bem como às possibilidades químico-farmacêuticas de construção de gêneros (como tratamentos hormonais e cirurgias estéticas). Este regime, adverte Preciado, não pode ser dissociado da dinâmica do tecno-capitalismo avançado [1], produtor de estéticas pornográficas desejáveis – e frequentemente inalcançáveis – e vendedor de fármacos e artefatos que sirvam a estes ideais.

A partir da localização de suas origens como conceito, Preciado passa à análise de como o gênero surge dentro do feminismo. Neste contexto, ele perde essa dimensão de produção técnica, passando a designar uma forma de construtivismo cultural light (p.82), isto é, o gênero seria resultado da construção social e cultural da diferença sexual. Uma conceituação que, ao entender o sexo como natural (portanto, independente de construções sociais) e o gênero como construção, teria levado, segundo a autora, o feminismo a um ponto sem saída nos debates entre essencialismo e construtivismo, e a consequentes problemas no âmbito de políticas ligadas a gênero.

Nos anos 80, surgirão críticas ao feminismo que desestabilizarão alguns de seus discursos e fundamentos, como por exemplo o sujeito político de que trata o feminismo: reduzir este sujeito à categoria ‘mulheres’ tem um potencial negativo de normalização e controle político, bem como de desconsideração dos diversos outros vetores que produzem as subjetividades (como raça, classe, idade, etc.). Por outro lado, destacam-se outras críticas relativas ao papel desempenhado pelos sistemas farmacopornográficos na construção dos gêneros: não se pode aceitar acriticamente a hipótese de que o gênero se constitui como mero derivado de um sexo biológico dado. Na própria definição do que sejam os sexos biológicos há interferências destes sistemas [2].

[Aqui me surgiu uma pequena inquietação: em certo ponto do texto, a substituição de ‘opressão’ por ‘tecnologia’ indicada por De Lauretis, ainda que compreensível ao se considerar a importância de meios ‘tecnológicos’ [3] na construção social dos gêneros, me parece ‘descarregar’ os sofrimentos oriundos desta construção. Ainda que concorde com a validade da crítica à equivocada dicotomia mulher-vítima e homem-opressor, a existência das múltiplas micro e macroagressões relacionadas a gênero me fazem crer na validade do uso teórico de ‘opressões’ – ‘opressões tecnológicas’, inclusive.]

Desde uma perspectiva que analisa as ‘tecnologias de gênero’ propostas por De Lauretis, Preciado identifica, em meio à guerra fria, uma distinção possível entre homens e mulheres ‘bio’ e homens e mulheres ‘trans’ ou ‘tecno’. O surgimento de diversas possibilidades de manipulação de gênero, mediadas pelo sistema farmacopornográfico, não se dá sem contradições, no entanto: à faceta supostamente real e visível da definição dos sexos ao nascimento se reúne a possibilidade da definição supostamente real mas invisível de um sexo psicológico, não havendo, em ambas, realidade material, somente ideais normativos, ficções políticas (p. 85).

[Aqui, outra consideração: há dois aspectos que me deixam céticx na utilização da terminologia ‘bio’ e ‘trans’-‘tecno’. O primeiro deles, mais político, seria relacionado ao potencial desumanizador que a oposição das individualidades trans às ‘bio’ tem: se as pessoas trans são ‘não-bio’, será possível evitar o ocultamento do caráter orgânico – e humano, em última análise – das pessoas trans quando se reificam, terminologicamente, seus aspectos ‘artificiais’, ‘tecnológicos’?

O segundo se relacionaria ao fato da preponderância do aspecto tecnológico na construção de gêneros trazer uma divisão que potencialmente invisibilize opressões específicas às individualidades trans. Neste sentido, apontaria para a assimetria existente entre as possibilidades e consequências sociais da utilização das tecnologias hormonais, cirúrgicas ou legais por parte de uma pessoa trans vis-à-vis uma pessoa cisgênera. Seria esta pessoa cisgênera vista como trans, a partir desta definição proposta por Preciado? A partir de que ‘ponto’ na gama de alterações possíveis? Definir pessoas cisgêneras que passem por procedimentos gênero-tecnológicos como ‘trans’-‘tecno’ nos permite estruturar teoricamente as opressões decorrentes da normatividade cisgênera com mais clareza? Ou faria mais sentido pensar que pessoas cisgêneras que recorrem a tais tecnologias passam por monitoramentos sociais bastante distintos daqueles por que passam as pessoas trans?]

A autora passa, então, a analisar a dimensão ‘semiótico-técnica’ da produção performativa de gênero, a partir da definição butleriana de gênero como performatividade, afinal o gênero, desde suas origens médicas, se constitui como base para o surgimento de uma gama de técnicas de normalização e transformação de seres vivos. Estas técnicas se diferenciarão de métodos de controle anteriores por sua flexibilidade e internalidade, tendo como subprodutos um suposto saber sobre si mesmo (p. 89) [4] e a inserção individual dócil ao sistema de (re)produção de capitais. E, assim, através da propagação dos códigos semiótico-técnicos de masculinidade e feminilidade – ideais majoritariamente inatingíveis e produtores de necessidades-demandas por tecnologias e comportamentos –, estamos todxs fodidxs.

[sobre a parte final do texto a respeito do ‘crepúsculo da heterossexualidade’, ficou uma dúvida: não me pareceu claro o processo através do qual a heterossexualidade estaria fadada a desaparecer, ou estaria desaparecendo (p. 96). O fato de pessoas heterossexuais e-ou bio (cisgêneras) estarem sujeitas aos mesmos processos de produção tecnobiopolítica, e até mesmo se utilizando de tecnologias de gênero para alterar seus corpos [5], não significa que as opressões sobre aquelas pessoas cujas alterações corporais sejam vistas como subversivas (as transgeneridades, por exemplo) deixem de existir, por mera camaraderie farmacopornográfica. Não sei se consigo perceber a dissolução automática da diferença nas percepções sociais de uma mulher cisgênera e uma mulher transgênera que optem por colocar próteses de silicone nos seios.]

Notas.

[1]- Esta dinâmica, embora frequentemente evoque noções de liberdade e independência individual (na linha de ‘seja o que você quiser ser’), me parece apontar de forma inequívoca para a frustração e a dependência, afinal o ciclo [criação de necessidades > provimento temporário de necessidades > criação-manutenção de necessidades …] encontrou nestes sentimentos um grande potencial de reprodução do capital.

[2]- Um texto que apresenta a complexidade existente no exercício de se definirem homens e mulheres é ‘The roads less traveled: the problem with binary sex categories‘, de Julie Greenberg. A partir dele é possível notar que a suposta facilidade destas definições é ilusória e relacionada diretamente com instituições médicas e legais.

[3]- Me parece difícil, tampouco, traçar uma linha que divida o ‘tecnológico’ do ‘não-tecnológico’. Essa definição me parece complicada, porque a vejo sempre associada ao seu respectivo contexto histórico. Uma pedra afiada, um martelo, um tear, um microprocessador ou uma cartela de hormônios poderiam ser erguidxs como ‘tecnológicos’ em determinados contextos. Neste sentido, utilizar ‘tecnologia’ como chave analítica pode implicar em um risco constante de reificação das possibilidades materiais contemporâneas em detrimento das pretéritas, bem como o risco de obsolescência argumentativa (no sentido de a ‘tecnologia’ já não ser mais vista como tão ‘tecnológica’). Este último, talvez inevitável em última instância, mas possivelmente redutível.

[4]- Não me parece tão clara a ideia de que as tecnologias de gênero produzam este saber interior: acredito que, em algumas circunstâncias, elas tenham, em realidade, explicitado a impossibilidade de que este saber seja tão evidente. Tais tecnologias, em que pese seu caráter normalizador de origem, enfraquecem a visão dominante de que o binômio sexo-gênero seria permanente, tornando um pouco mais inteligíveis (além de ‘passáveis’) as individualidades transgêneras. Neste sentido, não seria o suposto auto-conhecimento de gênero prévio às tecnologias, sendo que estas, ao final, desestabilizariam este saber? É este o significado através do qual penso o seguinte trecho: “o descobrimento […]dos hormônios sexuais […] modificará o caráter irreversível das formações identitárias” (p. 96).

[5]- Manipulações cujos objetivos não me parecem necessariamente ligados aos gêneros inconformes: muitos tratamentos hormonais utilizados por pessoas trans são baseados em medicamentos pensados para pessoas cisgêneras (por exemplo, hormônios femininos utilizados por mulheres trans, concebidos inicialmente como anticoncepcionais).

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