Cissexismo

26 jan

Tumblr super interessante, evidenciando cissexismos que ainda abundam pelo mundo. Tristemente, somente em inglês…:

http://dearcissexism.tumblr.com

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O caminho transgênero (05) – Mudanças corporais e sociais (ou: transição)

22 jan

É importante sempre ter em mente que o termo ‘transgênerx’ é amplo e utilizado para descrever e aglutinar politicamente pessoas que expressam seus gêneros de maneiras diversas, cada uma tão autêntica quanto as demais.

Para muitas pessoas transgêneras ou gênero-inconformes, o processo de mudanças sociais e corporais, frequentemente denominado transição, traz uma forte sensação de exposição pessoal, e a decisão de se abrir com outras pessoas se torna especialmente crítica em nossas vidas.

Este processo de mudanças não necessariamente envolve tratamentos médicos. Através do uso de vestuário e acessórios preferidos (e socialmente associados a gêneros cujas possibilidades estão restritas a todas as pessoas, cis ou trans), de exercícios físicos, de performances de gênero desejadas, ou de negociações com amigxs e familiares para um tratamento respeituoso de autonomias individuais, pessoas transgêneras se utilizam de saídas independentes do poder institucional da medicina, psicologia ou justiça para viver suas identidades e expressões de gênero [1].

Há muitas pessoas transgêneras que recorrem a tratamentos para tornar sua estética corporal mais próxima do que consideram ser seu gênero. Estes tratamentos podem incluir terapias hormonais e cirurgias [2].

Em diversos lugares no mundo, as diretrizes clínicas aceitas para pessoas transgêneras que desejam realizar a ‘transição’ são conhecidas como ‘Padrões de Cuidados’ (Standards of Care), desenvolvidos pela Associação Mundial Profissional para a Saúde Transgênera (no inglês, WPATH, previamente conhecida como Associação Internacional de Disforia de Gênero Harry Benjamin), uma organização profissional amplamente reconhecida dedicada ao entendimento e tratamento de ‘desordens de identidade do gênero’ [3]. Mais informações sobre os ‘Padrões de Cuidados’ da WPATH podem ser encontrados online no site www.wpath.org .

Uma outro protocolo utilizado para tratamento que tem se tornado crescentemente comum é o ‘Consentimento Informado’ (Informed Consent, fiz uma tradução livre que não sei se correta). Através deste protocolo, pessoas transgêneras são informadas dos efeitos e riscos relacionados ao(s) tratamento(s) médico(s) e então afirmam formalmente seu consentimento, em um processo similar ao de outros procedimentos médicos. Outrxs médicxs supervisam ‘transições’ através de uma combinação de ambos protocolos.

[alguém saberia dizer da situação no Brasil?]

Independentemente de como uma pessoa vive sua identidade de gênero, o processo de ‘transição’ pode significar uma exposição bastante pública, envolvendo o contar para família, amigxs, empregadorxs e profissionais da área médica. Para a maioria das pessoas transgêneras, a ‘transição’ não é algo que se possa ocultar de todas as pessoas devido à própria natureza do processo.

Processo que pode envolver a consulta a uma diversidade grande de pessoas da área psicológico-médica — de psicólogxs a psiquiatras, cirurgiãxs, endocrinologistas e fonoaudiólogxs [4]. Se possível, é essencial encontrar profissionais próximos ao lugar onde se vive que tenham experiência na orientação a pessoas transgêneras. Caso não haja ninguém próximo — o que é provável, dada a escassez destes profissionais no Brasil –, é possível, ainda que arriscado, tentar encontrar umx profissional que esteja disposto a aprender e estudar sobre as necessidades das pessoas transgêneras [5].

Algumas questões possíveis para serem feitas a umx profissional da saúde:

- Você já orientou pessoas transgêneras antes?

- Você tem experiência e conhecimento em tratamentos hormonais apropriados para pessoas transgêneras?

- Qual protocolo de tratamento você utiliza na orientação a pessoas transgêneras?

Lembre-se de fazer uma pesquisa antes de confiar em umx profissional. Mesmo médicxs que assessoraram pessoas transgêneras no passado podem não ser versadas no processo de ‘transição’ — ou nem mesmo terem visões adequadas sobre gênero e sexualidade. Há diversos grupos e organizações que podem oferecer ajuda nesta pesquisa. É fundamental atuar como sua-seu próprix advogadx no que se refere à sua saúde.

Ainda que este guia seja destinado primariamente para pessoas transgêneras que estejam nas fases iniciais do contar e compartilhar sobre sua identidade de gênero, algumas delas podem enfrentar este processo outra vez após a ‘transição’, diante de novxs amigxs, família e colegas de trabalho.

Algumas pessoas transgêneras optam por viverem sem compartilhar, ou compartilhando de maneira bastante restrita, sua identidade de gênero.  Outras pessoas transgêneras acreditam que serem abertas sobre suas vidas e estórias pode lhes trazer segurança e auto-afirmação, similarmente ao que fazem diversas pessoas lésbicas, gays e bissexuais. Algumas até decidem se tornar ativistas pelas transgeneridades, compartilhando suas vidas e experiências em entrevistas, escolas e grupos.

Os próximos posts pretendem ajudá-lx a decidir quais são caminhos desejáveis ou possíveis para você, não importando em que ponto de sua jornada você está.

“Você tem o direito e a responsabilidade de decidir como, onde, quando e mesmo se você vai compartilhar sua identidade de gênero com outras pessoas, fundamentadx naquilo que é correto para você.”

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Notas.

[1]- a proposição de que é possível viver o próprio gênero independentemente das instituições citadas não é incompatível com o importante papel que estas possam cumprir: caso não busquem impor esquemas cisgênero-binários e-ou patologizantes a pessoas cujo gênero lhes seja inconforme, tais instituições podem cumprir um fundamental papel de defesa de direitos e assessoria a essas pessoas. As condições atuais, entretanto, seguem eivadas de pressupostos cisgênero-supremacistas, ainda que haja lutas importantes de gentes dentro e fora dessas instituições.

[2]- faz-se necessário enfatizar, no entanto, que muitas pessoas cisgêneras também recorrem a tratamentos que alterem sua estética corporal, notando ainda as diferenças existentes na consideração social destes tratamentos para pessoas transgêneras e cisgêneras: para aquelas, impõe-se a necessidade de laudos e autorizações, enquanto para estas o acesso a tratamentos se dá com assessoria de profissionais médicos, mantendo-se sua autonomia na decisão por realizá-los ou não.

[3]- o uso do termo desordem implica uma ordem, uma ordem que em minha opinião somente pode ser a cisgênera. Como a percepção de senso comum é de que a ordem é preferível-desejável em relação à desordem, decorre daí uma lógica cisgênero-supremacista que inferioriza aquelas pessoas que, de acordo com preceitos médicos, são consideradas ‘desordenadas’, ‘transtornadas’. Por isso evito ou ao menos matizo criticamente o uso do termo desordem, embora o manual da HRC em que a série se baseia o utilize. Para mais informações sobre o uso do manual, favor ler o início da série.

[4]- consultas que não vejo necessariamente como problemáticas. A crítica fundamental que tenho, no entanto, é em relação à dominação, ao controle detido por um dos lados na determinação-autorização do desejo individual, algo que ainda persiste de maneira mais, ou menos, velada.

[5]- espero que você sempre tenha em mente que a sua existência é de uma dignidade inviolável, e que é consagrada pelos Direitos Humanos, mesmo que tantas pessoas se sintam com o poder e o direito de pisotear estes Direitos conforme suas percepções religiosas, médicas, ideológicas. A luta segue.

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Pensamentos curtos

21 jan

-  E agora tá tudo bem, já estão ‘abrindo as portas’ do mercado de trabalho para a gente. Mas nem parece rolar um pedido de desculpas por parte da sociedade dominante (esta representada na mídia), só um ‘olha como somos legais, taí uma oportunidade, uhu’. Quase parece, e isso pode ser só eu vendo maldade onde não tem, que é pra dar conforto moral e intelectual ao argumento esfarrapado do ‘olha lá, tem emprego pra essas travestis, agora é só por falta de esforço que elas tão se prostituindo’. É, já ouvi isso sim, como se essas poucas vagas fossem uma redenção só.

-  Temos quem nos diga se o que achamos que somos é realmente o somos. São profissionais, dizem, têm seus crms e blá. Quer dizer, nem todxs precisam ter quem lhes diga se o que acham que são é o que são: isso é coisa para xs anormais, transtornadxs e quetais. Para xs demais, basta a tv, não precisa de opinião médica.

-  De verdade? Você acha que eu me sinto bem pra falar de mim enquanto você assiste zorra total?

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Pensando a zorra

21 jan

Bom, já faz tempo que não assito tv com consistência. Enfim. Mas minha família assiste. novela, jornal, qualquer coisa depois que chegam em casa do trabalho.

E nos finais de semana também. À noite, principalmente. E então se assiste ao zorra total, pelo menos uma parte quase todo final de semana.

Acontece que o programa não é só uma merda, ele é ofensivo. Ele é, fundamentalmente, o opressor ou mentes colonizadas fazendo pirraça dxs oprimidxs. E não posso pensar em outra coisa que não uma obsessão (sem a intenção de patologizar ninguém ; ) para explicar as supostas (palavra de moda entre jornalistas cuidadosxs) piadas com as transgeneridades.

Primeiro quadro: o ator que representa uma mulher transx e é acompanhado por uma atriz que se utiliza de artefatos para supostamente torná-la feia. Não sei se preciso necessariamente explicar os problemas dele (posso desenhar); talvez baste o fato de a namorada, estrangeira e não-falante do português, ter achado o quadro sem qualquer nexo, e eu ficar com vergonha de explicar.

Segundo quadro: há dois homens, supostamente cisgêneros, conversando em um metrô — espaço público e parte fundamental do direito insuficientemente coberto de transporte em áreas urbanas — com um ator representando uma pessoa queergênera (dado o contexto). O genial enredo é uma série de perguntas gênero-estereotipantes de parte dos homens — gentil e acriticamente respondidas pela pessoa queer — no intuito de desvendar seu supostamente verdadeiro gênero-sexo (nessa ligação dominantemente aceitável).

Terceiro quadro (é sério): duas mulheres supostamente cisgêneras conversam. (o resto acho que foi assim, vi de relance) Uma delas chora, e diz que seu marido gosta de se vestir de mulher. A outra diz algo no sentido de que é normal, as pessoas andam fazendo ‘essas coisas’ hoje em dia. E a que chora adiciona que agora elx foi além (pelo que entendi, que elx deve ter ‘mudado de sexo’). E aí vem a marotice infantil do quadro, um cara com ombros artificialmente alongados oferecendo-o para consolar a (ex-?) exposa.

Enfim, pode-se dizer que são somente piadas, que são personagens, blabla. Isso não muda o fato de que são pessoas vistas, percebidas, lidas de maneiras semelhantes às personagens da mulher transx, da queergênera, dx (ex-?)marido-esposa, que no mundo real não tem empregos compatíveis com suas qualificações, que têm na prostituição uma proporção muito maior de pessoas que a proporção de pessoas cisgêneras, que são assassinadas por suas sexualidades ou identidades de gênero proibidas-censuráveis por valores cristãos ou cristão-inspired. Ou seja, fodam-se suas desculpas jocosas e sem caráter; estou falando destas, e principalmente para estas pessoas, que podem ou não estar longe de suas (é, você mesmx) próprias famílias (palavra de moda em propagandas de bancos, supermercados e igrejas de hoje), e sofreram, sofrem ou potencialmente sofrerão com as consequências das opressões da sociedade dominante.

Gosto de quando a teoria queer faz uma crítica dos exageros identitários (essa coisa de ‘quem é verdadeiramente trans ou whatever’, ‘quem representa e quem não representa’, etc, ou seja, questões que simplificadamente chamaria internas). Eu tenho uma ligeira impressão, e quero estudar mais para verificar, que falta explicitar um aspecto na geração social das identidades: elas são criadas, de maneira frequentemente violentas, pelxs opressores. São eles (uso ‘e’ porque a sociedade é patriarcal) quem geram a exclusão e a diferença, que nos chamam de desviados, queers, fags, bichonas ou bichinhas, putos, paneleiros, maricones. Muitxs lutam contra (e são mortxs por) isso, tantas vezes reapropriando  e recriando terminologias que permitam uma luta de resistência. E às vezes os termos são praticamente o máximo que se obtém, em muitos lugares, esta perspectiva de um nome que não traga uma conotação negativa, o que só parece pouco para quem não precisa lidar ou já esqueceu de como lidou (se é que lidou) com o problema de não se identificar com dignidade.

Por isso meu ceticismo e cautela na hora de criticar aliadxs que se encontram debaixo das identidades. Eu mesma tenho dificuldades em encontrar uma — talvez transgênera, por seu uso contemporâneo abrangente –, mas minha escolha sempre será junto àquelas pessoas que são chamadas de bicha, de viadinho, de sapatona, e os etcs que conhecemos. É claro que eu espero que meninas trans não tenham portas fechadas em locais feministas, e que o meio queer-lgbttiq (intersex-questioning, acho que li isso n’algum lugar) não tenha o foco tão forte para o homem gay branco classe-média (critico o foco, não a luta), mas acho que isso é feito melhor numa conversa amigável (espero) que na animosidade política. Não precisamos replicar a sociedade dominante na maneira que resolvemos nossos problemas.

Mas divago. Pensei na teoria queer porque é essa sociedade dominante representada no zorra total que nos traz estas identidades limitadas e limitantes, não somos nós próprixs queers-lgbttqi. E então as críticas feitas pela teoria queer em prol de uma maior fluidez na sexualidade e no gênero ficaram muito mais fortes, com esta consideração de que as limitações identitárias residem nos opressores, não nxs oprimidxs (uma consideração, aliás, de inspiração anti-colonial, algo que quero pensar noutro post).

Mas foi bem amarga essa percepção. Espero não precisar assistir ao zorra total de novo para reaprendê-la.

Que bom estar ouvindo esta música hoje.

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O caminho transgênero (04) – A decisão de contar para outras pessoas

27 dez

Algumas pessoas transgêneras que decidem compartilhar suas percepções de gênero com outrxs chegaram a um ponto crítico em suas vidas em que é muito difícil, provavelmente doloroso, seguir escondendo (mesmo que estrategicamente) quem elas são.

Seja para uma crossdresser que se sinta carregando um imenso fardo ao esconder este aspecto individual dx companheirx ou filhx, seja para uma jovem lésbica que não se veja contemplada em nenhuma identidade de gênero, frequentemente pessoas cujos gêneros são inconformes-discordantes sentem a necessidade de compartilhar esse aspecto de suas vidas, de maneira a construir relações mais fortes e autênticas com aquelxs mais próximxs.

Há uma série de sentimentos envolvidos nesse compartilhar, e eles oscilam entre o medo, insegurança, culpa, vergonha, e o orgulho, alívio, coragem. É preciso muita serenidade para lidar com a intensidade e a potencial simultaneidade destas sensações, e esta tomada de consciência crítica pode levar tempo.

Depois deste processo, é comum haver um sentimento de grande alívio, pela quebra da necessidade de ocultação de individualidades e de outras barreiras a uma vida mais aberta e sincera. Entretanto, ainda que existam vários benefícios potenciais no contar, há também sérios riscos e consequências, resultado das opressões executadas pela sociedade dominante (diretamente associadas ou articuladas com gêneros: transfobia, sexismo, classismo, racismo).

Portanto, a decisão de contar para outras pessoas é sua, e somente sua. Lembre-se que não há uma maneira certa ou errada de compartilhar essa parte tão importante de você, ou de viver abertamente (por serem coisas tão controladas e restringidas pela sociedade dominante). Você tem o direito e a responsabilidade de decidir como, onde, quando e mesmo se você vai falar de suas identidades com outras pessoas, e para isto é fundamental ter conhecimento dos riscos e benefícios associados a essas decisões. Alguns deles são listados abaixo para referência:

. possíveis benefícios ao ‘sair do armário’:

  • uma vida mais autêntica e completa
  • relacionamentos mais próximos e genuínos
  • auto-estima elevada ao sermos reconhecidxs e amadxs pelo que somos
  • redução no estresse ligado ao esconder de individualidades
  • desenvolvimento de relações com pessoas de vivências similares às nossas
  • possibilidade de se tornar um exemplo para outras pessoas
  • construção de uma sociedade menos opressora para as próximas gerações

. possíveis riscos ao ‘sair do armário’:

  • incompreensão por parte de alguxs, inclusive próximxs
  • reações de choque, confusão e hostilidade
  • mudanças permanentes em relacionamentos
  • potenciais abusos, discriminações e violência
  • expulsão de casa
  • perda de emprego e-ou ocupação
  • perda de suporte financeiro da família

Finalmente, um outro conhecimento fundamental é saber que a luta política pela dignidade e autonomia de gênero (que a luta trans traz consigo) está do seu lado, e que toda e qualquer percepção e desejo de gênero que você tenha são um aspecto fundamental de nossos direitos humanos. Não há nada de errado, patológico, ou imoral nisso — por mais que tentem nos convencer do contrário. E, se compreendemos este apoio, nossos direitos soberanos e nossa força política, já estaremos de mãos dadas em direção a uma sociedade mais justa, mesmo que as forças contrárias nos tentem afastar dela.

O caminho transgênero (03) – Encontrando comunidades

26 dez

Para muitxs de nós que nos identificamos como pessoas transgêneras (ou que tenhamos vivências não-dominantes de gênero), é importante encontrar outras pessoas que compartilhem emoções e experiências de vida similares às nossas. Encontrar uma comunidade de aliadxs pode nos ajudar a nos sentirmos menos solitárixs em nossos novos caminhos e a responder algumas questões que possamos ter diante de novos desafios, em especial aqueles relacionados às mudanças sociais e corporais que planejemos e desejemos fazer [1].

Caso você more próximx a uma cidade grande, em geral é possível encontrar grupos de suporte e interação social que sejam positivos. Caso você esteja em cidades menores ou em áreas rurais, é provável que seja mais complicado encontrar grupos organizados. Entretanto, pessoas transgêneras vivem em todos os cantos do mundo, e você não está sozinhx. Ao fim do post, são apresentados alguns links para algumas organizações de luta por, e apoio a, pessoas transgêneras.

Um primeiro local de apoio possível está na internet. Embora ainda de difícil acesso em muitos lugares do país, o uso da internet está se tornando mais amplo e barato; espero que você tenha condições de acesso razoáveis à internet, ou que possa ajudar outra pessoa caso necessário, especialmente se ela lida com questões de identidade de gênero ou sexualidade. Há várias comunidades online, discutindo as transgeneridades e outras inconformidades de gênero, bem como outras esferas associadas a elas (como trabalho, educação, transfobia, relacionamentos, moda, etc.). Seja inscrevendo-se em um grupo de e-mails, participando de comunidades no Orkut ou Facebook, ou lendo e colaborando em blogs, é possível encontrar numerosos recursos na internet. Abaixo, além de algumas organizações, apresento alguns grupos relacionados à temática trans:

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Organizações e grupos de apoio e luta:

. Todos contra a homofobia, a lesbofobia e a transfobia (Facebook)

. Transexualidade e travestilidade – Zero transfobia (Facebook)

. Centro de Referência da Diversidade (CRD). Grupo Pela Vidda/SP

Rua Major Sertório, 292/294 – República - São Paulo/SP

Telefone: (11) 3151-5786   |   e-mail: crdiversidade@uol.com.br

. Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais

Rua Santa Cruz, 81 – Vila Mariana - São Paulo/SP

Telefone : (11) 5087-9833

. GUDDS – Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual (Facebook)

Belo Horizonte/MG

. ASTRA – Direitos Humanos e Cidadania GLBT

Rua Laranjeiras, 1473 - Getúlio Vargas – Aracaju/SE

. REDTRANS – Rede Nacional de Pessoas Trans (Facebook)

Travessa Tobias de Macedo, 53 – 2º andar, sala 04 – Centro – Curitiba/PR

. Grupo Esperança

Travessa Tobias de Macedo, 53 – 2º andar, sala 04 – Centro – Curitiba/PR

Telefone: (41) 3323-7825   |   e-mail: grupoesperanza1994@yahoo.com.br

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Nota.

[1]- preferi ‘mudanças…’ ao termo ‘transição’ (no original, transition), por acreditar que transição remeta, desnecessariamente, a um ponto de partida e a um ponto de chegada. Especialmente quando o termo não se aplique simetricamente a mudanças sociais e corporais paralelas realizadas pela sociedade dominante cisgênera, como na mudança de nome após o casamento, cirurgias plásticas e tratamentos hormonais, por exemplo. Haveria ‘transição’ nestes casos, afinal?

Isso posto, não se pode desconsiderar o seu uso e significação por parte de pessoas transgêneras. Espero que minha opção pela substituição de ‘transição’ não seja ofensiva a ninguém, e sim questionadora dos pressupostos dominantes de que haveria um binário discreto* de gênero e as transgeneridades, e em especial a transexualidade, seriam necessariamente um caminhar entre supostos A (mulher ou homem) e B (homem ou mulher).

* no sentido matemático, em oposição a contínuo (aliás, discussão bacana posta nessa tese encontrada num acaso googleano)

O caminho transgênero (02) – Abrindo-se consigo próprix

24 dez

Desde o nascimento, a maioria de nós é criadx de maneira a se considerar dentro dos limites de certos moldes [1]. Nossas culturas e, frequentemente, nossas famílias nos ensinam que devemos nos apresentar e agir de certas formas.

Poucxs de nós somos ensinadxs que existe a possibilidade de se conceber uma identidade de gênero que divirja da associação gênero-corpo dominante [2 e 3], ou que podemos nos sentir atraídxs pela possibilidade de expressar nosso gênero de maneiras que não são dominantementes [4] associadas ao gênero que nos fora atribuído no nascimento.

Isso explica por que tantxs de nós tememos, nos preocupamos ou ficamos confusxs quando lidamos com essas verdades dentro de nós. É possível que passemos toda uma vida procurando escondê-las, até mesmo desejando — atentando contra nossos próprios desejos — que estas verdades sejam irreais ou que eventualmente possam se dissipar nos complexos caminhos da vida.

Não há um momento específico que se possa definir como ‘correto’ para ser aberto consigo próprix. Algumas pessoas transgêneras estiveram por muito tempo em uma vida que consideraram ser aquela que deveriam viver [5], ao invés da vida que, afinal, elas sabiam ser aquela que gostariam de viver. E outras pessoas acabam por questionar e reconhecer suas identidades e expressões de gênero de forma repentina.

Pessoas transgêneras ‘saem do armário’ durante todas as possíveis fases da vida: quando são crianças ou adolescentes, quando em idade avançada; quando casadxs, quando solteirxs; quando tenham filhxs, quando não xs tenham.

Algumas pessoas transgêneras ‘saem do armário’ simplesmente por terem a coragem de ser diferentes. Isso pode acontecer tanto para a mulher (cis ou transgênera) que se expressa de formas dominantemente consideradas masculinas, bem como para o homem (cis ou transgênero) que se comporte de maneiras dominantemente tidas como femininas. Para estas pessoas, muitas vezes não há muito significado no processo de ‘sair do armário’ através do contar ou abrir-se a outrem; elas vivem aberta e autenticamente através, simplesmente, da aceitação e expressão de suas diferenças.

Algumas pessoas transgêneras podem considerar desnecessário contar sobre suas identidades de gênero a outras pessoas. Algumas crossdressers, por exemplo, expressam esse aspecto de suas individualidades de maneira exclusivamente privada, considerando-a uma parte benéfica e enriquecedora de suas personalidades.

Outras pessoas transgêneras, ainda, podem ter uma percepção de gênero profundamente divergente da associação gênero-corpo dominante [3], e optam pelo estabelecimento de mudanças sociais e corporais que lhes pareçam mais adequadas. Essas mudanças são variadas, e incluem a requisição a amigxs, família e colegas de trabalho por um tratamento nominal e pronominal adequado à sua identidade de gênero, e mudanças corporais através de hormônios e-ou cirurgias. Para estas pessoas, o processo de ‘saída do armário’ pode ser crítico em suas vidas e extremamente estressante.

Como se percebe, considerando-se a diversidade entre as pessoas transgêneras, bem como seus diferentes contextos socioeconômicos, não há regras universais a serem aplicadas na decisão sobre contar ou não a outrxs a respeito desta parte de suas individualidades.

Entretanto, algo que todxs nós temos em comum, e isto se aplica igualmente ao resto da humanidade, é a necessidade de sermos abertxs e verdadeirxs conosco próprixs. Este pode não ser um exercício simples, em especial para aquelas pessoas cujas verdades atentem contra conceitos dominantes, porém é um dos caminhos mais fundamentais a serem percorridos na vida.

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Notas.

[1]- se pensarmos além da questão de identidade de gênero, podemos considerar a origem nacional-regional-étnica, religião, classe social, entre outros fatores, como moldes que orientam nossa formação social.

[2]- fiz uma alteração em relação ao original, que poderia ser traduzido assim: “Poucxs de nós somos ensinadxs que podemos ter uma identidade de gênero que difira do corpo em que nascemos [...]“. Essa alteração se deve à minha percepção de que o corpo em que nascemos não define nada em relação a nenhuma identidade de gênero, e portanto não há lógica na afirmação de que pessoas trans têm uma identidade de gênero diferente de seu corpo. Assim, reafirma-se o caráter opressor do discurso dominante de que o corpo determina o gênero de alguém.

[3]- a associação gênero-corpo dominante, fundamentalmente, coloca a pessoa com pênis associada às masculinidades constituídas, e a pessoa com vagina associada às feminilidades constituídas. Note-se o caráter invisibilizador e opressor desta associação filosoficamente pobre, tanto àquelxs que divergem dela (pessoa com pênis que deseje associar-se às feminilidades), quanto àquelxs que sequer são contempladxs por ela (pessoas intersex).

[4]- substituo a expressão ‘tradicionalmente’ (traditionally) por ‘dominantemente’ de maneira a acentuar as opressões envolvidas nestes processos de imposição de gênero, refletindo ainda sobre a atribuição acrítica de valores positivos ao que seja ‘tradicional’, muitas vezes mascarando, nostalgicamente, o horror das fogueiras cristãs ou dos genocídios coloniais e pós-coloniais, por exemplo.

[5]- as decisões ligadas a essa conformidade com pressões sociais podem variar bastante de acordo com as circunstâncias específicas individuais e do meio. Por exemplo, esta conformidade pode ser tomada como uma estratégia pessoal soberana dentro de um contexto social problemático, ou, de maneira acrítica, como uma aceitação da realidade das coisas, ‘a vida é assim mesmo’.

O caminho transgênero – Uma introdução

22 dez

No atual contexto histórico, em praticamente todas as culturas, a maioria de nossxs progenitores é afetada pela expectativa do gênero a que pertencemos até mesmo antes de nascermos. Esta expectativa tem como suporte a existência de um suposto binário de gênero, expresso à exaustão na exaustiva pergunta ‘menino ou menina?’; todo o demais seriam anormalidades, e esforços consideráveis são feitos para adequar bebês a esta dualidade construída, numa atitude frequentemente violenta (pensando aqui, por exemplo, nas pessoas intersex que têm seu gênero ‘definido’ por junta médica e família).

No entanto, os livros de história e mesmo nossa realidade contemporânea ensinam que há uma variedade de pessoas que experimentam vivências distintas das propostas por esse binário, mesmo nos momentos da mais terrível opressão fundamentalista de gênero [1].

Neste sentido, munidxs destas numerosas e ricas evidências desconstrutoras do suposto binário de gênero, podemos afirmar que, em realidade, o gênero somente pode ser interpretado e analisado como um vasto espectro, diversificado a tal ponto que existem tantas identidades de gênero quanto existem pessoas [2].

Para várias pessoas, expressar gênero é algo inconsciente, tão simples e natural quanto um arrumar de cabelos ou usar uma gravata. Não há angústia ou incertezas neste processo. Entretanto, para outras pessoas, cuja identidade de gênero não se conforma ao que lhes é determinado socialmente, entender e expressar gênero é algo complexo e difícil, dadas as opressões sociais que determinam o gênero de forma binária e associada ao biológico (à genitália em especial).

Muitas destas pessoas se identificam como transgêneras, um termo que abrange uma variedade de vivências de gênero consideradas ‘diferentes’, ‘incomuns’, ou não tradicionais [3]. Estas pessoas, muitas vezes, tomam difíceis decisões em suas vidas sobre quando, e mesmo se devem, contar e ser transparentes a respeito de quem são para si mesmas e diante de outrxs.

Esta transparência se expressa a partir dos momentos em que somos e vivenciamos nossas individualidades de maneira completa entre amigxs, família, colegas de trabalho e, às vezes, até mesmo estranhxs.

Cada umx de nós deve tomar suas próprias decisões sobre como enfrentar este desafio, respeitando as maneiras e os momentos que consideremos ideais para fazê-lo. É preciso tomar cuidado para não se culpar pela possível lentidão desse processo: a culpa deve ser sempre atribuída ao opressor, neste caso a sociedade cisgênera dominante e suas instituições e agentes. Assim, não há covardia em eventuais recuos estratégicos, mas sim uma percepção dos riscos envolvidos (violência física e psicológica, e até mesmo a morte), e dessa forma você deve sempre ser capaz de tomar a decisão autônoma sobre como, onde, quando e para quem você vai contar a respeito de sua identidade de gênero.

Esta série tem como objetivo apoiar você e pessoas próximas a você durante este processo, de maneira realista e prática, reconhecendo que a experiência de ‘sair do armário’ engloba uma variedade de emoções — desde um medo paralizante até uma euforia desmedida.

A Human Rights Campaign Foundation espera que este guia x ajude a encarar os desafios e oportunidades que uma vida tão autêntica quanto possível nos oferece [4].

Notas.

[1]- alguns exemplos históricos ilustram a existência de pessoas que não poderiam ser encaixadas nos conceitos dominantes de gênero em diferentes períodos: a heroína brasileira Maria Quitéria, a heroína francesa Joana d’Arc, xs dois-espíritos de diversas civilizações norte-americanas, e o imperador romano Heliogábalo.

[2]- ao argumento de que a distribuição supostamente seja mais concentrada nas proximidades dos extremos feminino e masculino e de maneira cis: em primeiro lugar, não há qualquer valor intrínseco ao que é mais comum — ainda que se lhe costume atribui-lo; em segundo, considerando-se as significativas pressões sociais para determinada adequação de gênero, não podemos saber se, em condições de liberdade, as expressões individuais seriam distintas. Somente neste momento ideal de liberdades de gênero e de sexualidade poderemos afirmar com algum grau de certeza que a maioria é cisgênera e heterosexual.

[3]- para mim, o uso de um termo identitário serve não para estabelecer limites e excluir pessoas, mas para agregar gentes que sofrem violências e opressões semelhantes, e definir demandas e resistências políticas. Neste sentido, duas colocações me parecem importantes: em primeiro lugar, o uso de transgênerx é feito dentro de um contexto determinado, sem desmerecer outros termos como genderqueer, intersex, travestis e transexuais, ou outros; e, em segundo, em um hipotético cenário de paz verdadeira, qualquer termo identitário será desnecessário, ou seja, é a sociedade opressora que define a necessidade da luta conjunta sob determinados nomes.

[4]- esta série é baseada no guia da Human Rights Campaign Foundation chamado ‘Transgender Visibility – A guide to being you‘, com adendos e comentários meus sempre que considere necessário. Dessa forma, a responsabilidade por eventuais erros e omissões é integralmente minha. O site da HRC tem vários outros recursos, em sua maioria na língua inglesa, e alguns na língua espanhola.

O caminho transgênero – Uma série

22 dez

Faz certo tempo, venho pensando em falar sobre alguns aspectos da transgeneridade que considero importantes, numa tentativa de apresentar algumas ideias que me fizeram falta durante meu processo de descoberta, e que, ao menos até onde percebo, poderiam ajudar também outras pessoas. Estes aspectos são principalmente relacionados às normas sociais que, uma vez internalizadas, tornam angustiante a auto-descoberta enquanto pessoa trans (ou gênero-inconforme, que uso num sentido próximo a genderqueer), e às lutas externas por que a pessoa passa ao enfrentar estas mesmas normas sociais (rejeição social, violência, etc).

A ideia surgiu e se fortaleceu a partir da leitura do guia da Human Rights Campaign (HRC) chamado ‘Transgender Visibility – A guide to being you‘. É um documento super bacana, com orientações e informações sobre o processo de compartilhar e vivenciar a identidade transgênera (ou gênero-inconforme) com amigxs, familiares e sociedade, e meu propósito ao tê-lo em mente na preparação destes textos foi ter uma estrutura de temas a comentar e também trazer um pouco das minhas experiências e leituras relacionadas, especialmente no que diz respeito ao contexto brasileiro [notas 1 e 2].

Mais que tudo, pensei neste trabalho como uma possibilidade de demonstrar meu apoio e, quem sabe, alguma ajuda na vida de alguma pessoa transgênera ou gênero-inconforme — e espero incluir todas as individualidades marginalizadas (devido a sexualidade, raça, classe social, origem, etc.) sempre que possível, pois além de terem minha consideração visceral como irmxs de luta e aliadxs, o cerne de muitas de nossas angústias têm uma raiz comum, a inaceitação social em suas diversas formas e manifestações. Neste sentido, espero que a leitura dos textos possa refletir também sobre outras condições marginalizadas, para além do pensamento específico em relação à identidade de gênero.

E desconstruir e questionar esta inaceitação social é fundamental. Quantxs de nós, afinal, não sofremos por muito tempo sozinhxs, com tão pouco que nos legitimasse, despatologizasse, respeitasse, ou mesmo nos concedesse o direito à vida? Quantxs não foram vítimas da crueldade humana ao serem o que desejam-desejavam, ou mesmo ao serem vistxs como possuidorxs de desejos inaceitáveis — ainda que não o fossem, de fato? Quantxs de nós não pensamos ao menos uma vez, dadas as circunstâncias terríveis, suspender esta existência em constante questionamento dando cabo à vida? E, com tudo isto em mente, por quanto tempo teremos de suportar os discursos e práticas sociais, as instituições e as pessoas que perpetuam e mesmo exacerbam os mecanismos que levam tantas existências a tragédias pessoais gravíssimas?

Não nutro falsas esperanças de que erradicaremos a ignorância vil ou indiferente que a tantxs machuca e mata neste nosso tempo histórico, ou mesmo em qualquer tempo [3]. A proposta, entretanto, é trazer tanto o alento imediato quanto a consciência das dimensões sociais e políticas de nossos sofrimentos a quem está confusx com a incompatibilidade de nossos desejos mais íntimos (e, portanto, privados e soberanos) com as numerosas, coercivas e violentas normas sociais que nos rodeiam. Portanto, coloco-me humilde e encantada com a possibilidade de ajudar alguém aflito com as dinâmicas da identidade de gênero, e de ganhar umx aliadx na luta [4]. Afinal, para a superação dos elementos cisgeneristas, heterosexistas, classistas, racistas e especistas — entre outros –, precisamos ainda de muitxs lutadorxs e aliadxs. Se isto for alcançado em pelo menos um caso, terá valido muito a pena.

Notas.

[1]- Seria super legal que irmxs trans de outros países de língua portuguesa pudessem trazer suas perspectivas também.

[2]- Considerando que somente algumas pessoas sabem que sou trans no momento em que escrevo, e que minha percepção da transgeneridade somente se tornou mais forte há aproximadamente 4 anos (quando tinha 23 anos), há diversas limitações que sigo tentando superar através de conversas e vivências. Neste sentido, sei que provavelmente haverá omissões e erros que, espero, possam ser corrigidos, e se tornem aprendizado.

[3]- Tempos de muito sofrimento estão à espreita, possivelmente ameaçando a sobrevivência humana e de muitas outras espécies. Mas não se preocupem, que não existe nada ou ninguém para chorar nossa extinção: se não por que não passam de entes mitológicos, ao menos porque nem somos tão importantes assim — é até mais provável que gerássemos alívio com nosso sumiço.

[4]- luta que, diga-se de passagem, lutei muito pouco ainda. Houve um grande esforço de minha parte em uma luta mental de auto-aceitação e coragem, e só recentemente estou levando esta luta ‘para fora’.

Estigmas

21 dez

Dia desses estive revirando umas coisas antigas, principalmente brinquedos, pois pensei em finalmente me desfazer deles para que, espero, outra criança possa se divertir. Não fazia sentido deixá-los acumulando poeira e se desgastando, mas isso acabou acontecendo, parte por apego ao passado, parte por inércia mesmo.

Numa dessas reviradas, encontrei algumas redações dos tempos de colegial que até havia procurado antes sem sucesso. Uma delas, em especial, chamou-me a atenção pelos paralelos que notei ao lê-la mais de 10 anos depois: há uma angústia nela que me faz pensar demais nas minhas percepções de gênero àquele tempo, e no quanto sofria por não compreendê-las além dos discursos dominantes (que nos consideram loucxs, aberrações, pecadorxs, etc.; fuck’em).

A redação é intitulada Estigmas, e foi escrita em 30 de maio de 2001. Fiz algumas pequenas modificações de estilo, mas nada significativo. A história tem vários buracos ainda… :)

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Estigmas

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Tudo lhe parecia irreal desde aquele nascimento indesejado, fruto de adultério descoberto e sua prova cabal. Foram-lhe roubadas a felicidade e a liberdade num repente insuportável, e noite não havia em que pelo menos duas horas fossem desperdiçadas num murmúrio revoltado. Indignava-lhe o azar que o escolhia, responsável por sua separação, por sua fuga ao deserto, e nada lhe remediava a dor que consumia seu peito. Nem o sorriso da menina a lhe acompanhar, fitando-o tão ingênua: ela lhe parecia inevitavelmente diabólica.

Era um dia como qualquer outro, em todo seu calor escaldante. E sequer lhe importavam meses ou anos: passavam-se-lhe lentos, rotineiros, e associados àquela criatura a caminhar a seu lado, eram o fardo que o levava a pesadelos e a desejos vis que ele não fazia questão de esconder da pequena. Nada, enfim, mudava num longo período de tempo: o mesmo sol escarlate, o mesmo vento cortante, o mesmo cansaço, a mesma infelicidade.

Contudo, ao crepúsculo desse dia, o andarilho e sua menina ouvem ruídos muito diferentes das corriqueiras ventanias e tempestades de areia. Parecem ser provocados por humanos, e vindos detrás de uma elevação. Desesperados, os dois arrancam um desconhecido sopro de energia para correr até a fonte do barulho. Não foi em vão: pai e filha deparavam-se com um alegre vilarejo, e o que ouviam ao longe eram resquícios dum festejo.

Os dois, então, olharam-se ternamente numa espécie de cumplicidade. A filha era sincera em sua alegria infantil, mas seu pai parecia mais tomado pelo momento, afinal tal ternura não lhe era usual. Nesse momento, então, decidiram procurar abrigo e conforto no vilarejo.

Estando exaustos, deixaram-se quase que arrastar na direção do povoado. Ao cruzarem com o primeiro morador de lá, foram olhados com tamanha expressão de horror que, caso pudessem, de lá fugiriam. A expressão do homem tinha suas razões, ou ao menos ele as alegaria caso questionado: desde o rebentar da pequena, restavam ainda algumas marcas ao pai, como um inchaço na perna e algumas cicatrizes no rosto, obtidas em ocasiões de emoções fortes. Porém, a menina era a maior responsável pelo pavor do homem: seus cabelos cobriam-na de tal forma que não se via seu rosto muito bem, e o pouco possível nada tinha de agradável, com diversas marcas e incongruências. Continuaram seu vagaroso caminhar, contudo, ainda que constrangidos.

Muitos olhares de espanto e até certas graçolas em voz alta depois, os andarilhos chegavam à região de maior movimento do vilarejo. Inútil dizer que não conseguiram qualquer coisa senão o escracho. Parece-lhes que dormirão como dormiam no deserto: ao relento. É preciso ressaltar, porém, uma sensível mudança na relação pai-filha desde a primeira reação à sua presença naquele local: de fato, ambos pareciam nutrir tanta cumplicidade que ninguém, por mais criativo que fosse, poderia imaginar o pai amaldiçoando sua filha por horas a fio, coisa que fazia constantemente. Certamente, essa cumplicidade devia-se à presença de um inimigo comum, que se lhes apresentava nos olhos e faces dos habitantes do povoado.

Já tendo desistido de abrigo, ambos começaram a se ajeitar no chão que lhes parecesse mais macio. Porém, ao notarem as intenções dos forasteiros, surgem vaias e gritos revoltados de todos os lados, indignados com aquele uso indecente do espaço público. A insurreição somente acalmou quando foram capturados os dois estranhos para exposição-humilhação em praça pública.

Foram dias e dias acorrentados, ouvindo todo tipo de infâmia e maldição, desconsiderando-se ainda os tomates, ovos e qualquer coisa que estivesse à mão atirados em seus corpos. Eis que um homem, postura imponente em relação aos demais — e por isso aparentemente uma autoridade local –, manda-os soltar. Soltos e esfarrapados, ouvem a proposta direcionada ao pai, um acordo macabro: a vida de um dos dois pela liberdade do outro. Deu-lhe um dia para pensar.

O pai, embora sentisse que não relutaria em sacrificar a filha noutros tempos, titubeava diante da proposta. A filha somente chorava, sentindo ainda as agressões dos dias presa às correntes. O tempo se esvaía, e nada foi decidido até a chegada da suposta autoridade local. Este, impaciente diante da indecisão paterna, decide afinal encarregar a menina da escolha, perguntando-lhe em tom seco:

– Entre ti e teu pai, quem preferes que viva?

Pensou brevemente na pergunta absurda.

– Meu pai. – respondeu. Ele é uma pessoa normal, não possui as ‘anomalias desgraçadas’, como ele mesmo diz, que tenho. É uma escolha lógica meu sacrifício: meu pai tem muito mais a oferecer a este mundo que eu, e minha morte seria uma compensação a tudo que eu o fiz passar.

O pai desata num pranto arrependido.

– A decisão já foi tomada. Em uma hora o senhor estará livre. Ao menos de nosso povoado.

Mandou levarem a menina.

Vendo o sorriso estranhamente sereno da menina ao sair, ele ainda implora por seu sacrifício, mas em vão. Sua filha morreria pelo pai que tanto a amaldiçoara, e tudo era irreversível. Caminhava por areias solitárias, quando se lhe foi crescendo tal ódio, tal asco de si próprio, que a única ação possível foi tentar se matar. E ele conseguiu, com ajuda de um objeto pontiagudo qualquer ao pescoço.

Ao nascer do dia seguinte, a menina, esganiçante, tenta acordar o pai, refestelado às areias do deserto.

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